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Agro Pecuaria
09/02/2026 14:00:00

Crédito do agronegócio entra em nova fase em 2026

Crédito do agronegócio entra em nova fase em 2026

Depois de passar por um período de forte pressão, o crédito voltado ao agronegócio começa 2026 retomando fôlego no mercado de capitais. Em 2025, as emissões de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) alcançaram um volume recorde de R$ 46,2 bilhões, crescimento de 11,1% em comparação com o ano anterior. Já as ofertas de Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais) somaram R$ 6,4 bilhões, com alta de 31,3%.

Com captação líquida positiva de R$ 9,1 bilhões e patrimônio de R$ 21,6 bilhões ao final de 2025, os Fiagros entram em 2026 com estruturas mais consistentes, crédito mais distribuído e maior rigor na escolha dos ativos, abrindo espaço para um novo ciclo de expansão do financiamento privado do agro.

Esse avanço ocorre em um ambiente de mercado mais aquecido. As ofertas no mercado de capitais totalizaram R$ 838,8 bilhões em 2025, aumento de 6,4%, e reforçaram o agronegócio como um setor estratégico, especialmente no momento em que o crédito público perde força e o BNDES reduz sua participação no financiamento de longo prazo. Nesse cenário, 2026 se firma como um ano decisivo para o fortalecimento do crédito privado no campo.

Indústria mais madura

Criados em 2022, os Fiagros ainda são vistos como uma ferramenta relativamente nova para o investidor brasileiro. Mesmo assim, chegam a 2026 depois de atravessar um período intenso de aprendizado. “Até 2012 praticamente ninguém atuava no agro. Era um setor estranho para o mercado financeiro”, afirma David Marco Telio, sócio da Terra Magna, com 38 anos de experiência em gestão de risco.

Segundo ele, apesar de a lei do CRA ter sido aprovada em 2004, o primeiro título público só surgiu oito anos depois. “Levou mais de uma década para o CRA alcançar cerca de R$ 40 bilhões em estoque. Já o Fiagro, em dois anos e meio, bateu R$ 47 bilhões. Isso mostra a velocidade com que o mercado de capitais aderiu ao agro.”

Flávia Palacios, superintendente da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), destaca que o Fiagro, embora recente, nasceu com estrutura mais bem desenhada, inspirada nos fundos imobiliários. Para ela, o problema foi que o produto ainda estava em formação quando enfrentou duas crises em sequência.

A primeira veio do próprio campo, com eventos climáticos que prejudicaram safras. A segunda surgiu na forma de crise de crédito, com recuperações judiciais e decisões extrajudiciais que atingiram empresas ligadas à cadeia produtiva.

“O agro é economia real. É um produto novo, com uma indústria ainda aprendendo a lidar com ele. Vieram contratempos que são esperados e cíclicos, mas que, no começo da indústria, causaram uma chacoalhada”, afirma Flávia.

Teste de estresse

A volatilidade típica do agronegócio ficou ainda mais evidente nos últimos anos. O aumento dos custos de produção após a invasão da Ucrânia pela Rússia, somado a instabilidades climáticas e à oscilação das commodities, apertou margens e expôs fragilidades em parte do setor.

Casos como a recuperação judicial da rede de revendas Agrogalaxy, no segundo semestre de 2024, funcionaram como gatilho desse período de estresse e ampliaram a instabilidade das cotas de Fiagros, inclusive em fundos que não tinham ligação direta com a empresa.

“Até 2022, todo mundo nadou de braçada. Quem tomava recursos operava, quem investia ganhava. A inadimplência trouxe um sabor amargo que o mercado ainda não tinha experimentado no setor”, afirma Telio. Ele destaca que, diferentemente de episódios isolados do passado, os últimos anos tiveram impacto mais profundo, com recuperações judiciais entrando de vez no radar do investidor.

“Alguns fundos caíram mesmo sem ter nada relacionado à Agrogalaxy. Foi contágio. Mas fundos com boa estrutura caíram cerca de 10% e já estão acima do patamar anterior”, afirma Vitor Duarte, CIO da Suno Asset, gestora de dois Fiagros listados.

Para a Anbima, o choque foi ampliado pelo próprio perfil do produto. “É um fundo listado em bolsa, mas ligado a ciclos naturais. Isso foi um choque para a indústria”, explica Flávia. Segundo ela, apesar de existirem gestores experientes defendendo cautela, o comportamento do investidor pessoa física teve peso decisivo. “Com medo, saíram quase em massa dos fundos”, relata.

Além dos problemas específicos do setor, o cenário macroeconômico também pesou. A elevação da taxa de juros e o aumento da aversão ao risco atingiram todo o mercado de capitais, e não apenas os instrumentos ligados ao agronegócio.

A indústria não encolheu

Mesmo com o ambiente adverso, os dados indicam que o setor chegou a 2026 maior do que estava antes da crise. A captação líquida positiva em 2025, a entrada de novas gestoras e o avanço do patrimônio sinalizam resistência.

“Quando olhamos o copo meio cheio, vemos uma indústria que cresceu. Ela não caiu. Houve captação líquida positiva, novos players e mais gestores entrando. Isso demonstra que o produto está certo”, afirma Flávia.

Telio avalia que o período de estresse serviu como um freio necessário. “Quando converso com as casas, todas chamam esse momento de um freio de atuação. Hoje elas entendem melhor os riscos do setor, prestam mais atenção às estruturas e selecionam melhor os papéis”, diz. Ainda assim, ele observa que o investidor continua no agro. “Asset management e family offices não querem sair do setor. São eles que continuam colocando papel no mercado.”

Na visão da Anbima, os problemas de crédito do ciclo anterior não foram estruturais. “Muitas operações seguem adimplentes e continuam captando”, reforça a executiva.

Para gestores, o período funcionou como um teste inevitável para um produto que agora entra em uma etapa mais sólida. “O agro é um setor estruturalmente volátil. Existe volatilidade de custos, de clima, de produção e de preço da commodity. Isso não vai acabar. O que muda é como o crédito é estruturado para conviver com esse risco”, afirma Vitor Duarte.

Menos concentração, mais disciplina

Uma das principais lições levadas para 2026 foi a importância de reduzir a concentração do risco. Parte dos problemas recentes esteve ligada a carteiras concentradas, principalmente em operações com revendas.

“Revendas com crédito concentrado mostraram o problema. Fundos mais pulverizados quase não sofreram”, lembra Flávia. No caso dos CRAs, o impacto pode ser ainda mais sensível. “Um CRA com um único crédito que entra em inadimplência vira inadimplência de 100%.”

Essa experiência acelerou a transição do mercado para carteiras mais diversificadas e estatísticas, movimento que o setor já vinha construindo nos últimos anos e que agora ganha escala.

Do lado de quem toma recursos, também há mudanças. “Produtores, cooperativas e indústrias estão se organizando melhor em governança, estruturando o negócio para levar ao mercado algo que transmita confiança”, afirma Telio. Ele ressalta que as margens seguem apertadas em toda a cadeia, com custos elevados, juros altos e pressão sobre revendas e indústrias, o que reforça a necessidade de estruturas mais robustas.

Regulação mais moderna

O marco regulatório do Fiagro é apontado como um dos pilares desse novo momento. A regulamentação da CVM permite que um mesmo fundo tenha diferentes subcategorias, como CRA, FIDC e ativos imobiliários ou ligados a terras. “Esse update regulatório tem caráter de modernização e dá mais discricionariedade ao gestor”, afirma Flávia.

Na prática, porém, o uso completo desse potencial ainda está no início, algo que deve se intensificar ao longo de 2026. “Estamos começando agora. Ainda vemos os fundos usando pouco esse potencial. Os FIDCs aparecem mais porque são mais fáceis de o investidor entender”, explica.

Outro ponto essencial para a nova fase é a educação. A Anbima prepara uma cartilha voltada ao produtor rural, com padronização de dados e orientações para facilitar o acesso ao mercado de capitais. “O mercado de capitais está aprendendo a olhar o produtor rural, que muitas vezes atua como pessoa física”, afirma Flávia.

Do lado do investidor, a compreensão sobre o funcionamento do Fiagro também vem evoluindo. O produto nasceu inspirado nos fundos imobiliários, mas a dinâmica do agro é diferente. “No agro, o fluxo vem quando vende a produção. Não é aluguel”, explica a executiva.

Mesmo os Fiagros imobiliários ligados ao agronegócio não seguem, necessariamente, a lógica de renda mensal. Segundo ela, o investidor profissional já entende essa característica, mas a pessoa física ainda está assimilando. “As duas pontas precisam aprender. O produtor precisa entender novas fontes de financiamento, e o investidor precisa entender o ciclo do agro”, resume.

CRA em ajuste

O mercado de CRA passa por mudanças regulatórias após a Resolução 5.128, que reduziu os lastros elegíveis, eliminando estruturas baseadas em reembolso. Mesmo assim, as emissões cresceram em 2025 e chegaram ao maior patamar já registrado.

A avaliação predominante é que o CRA segue importante, mas o Fiagro tende a assumir um papel cada vez mais central no novo ciclo do crédito do agronegócio. Depois de um período quase sem novas ofertas, o mercado deve voltar a registrar follow-ons de Fiagros ao longo de 2026. A expectativa é que a recuperação das margens no ciclo 2025/26 abra espaço para expansão patrimonial e novas captações.

“Desde 2024 praticamente não houve ofertas subsequentes. Agora, a expectativa é de retomada. 2026 deve ser o ano da volta do crescimento”, diz Vitor Duarte.

Esse movimento acontece justamente quando o crédito público perde espaço e o BNDES reduz sua atuação em financiamentos de longo prazo. “O Fiagro vem para ocupar esse espaço. Não só no agro, mas como fonte de crédito de longo prazo para o país”, conclui o gestor.