13/02/2026 23:06:17

Violência
08/02/2026 00:00:00

Aumento da Violência contra Mulheres no Amazonas: Uma Reflexão Sobre a Tolerância Social ao Feminicídio

Especialista alerta para o crescimento dos crimes e a necessidade de diálogo e prevenção como estratégias essenciais

Aumento da Violência contra Mulheres no Amazonas: Uma Reflexão Sobre a Tolerância Social ao Feminicídio

Durante uma visita ao estado do Amazonas, o acadêmico e educador Daniel Guimarães evidenciou o avanço dos atos de violência direcionados a mulheres e crianças, defendendo ações preventivas e o diálogo como meios de combater esse fenômeno.

Guimarães, que possui uma vasta pesquisa sobre agressões domésticas e crimes sexuais envolvendo menores, destacou à reportagem exclusiva de A Crítica que, apesar de leis criadas há quase duas décadas, os índices de feminicídio continuam a subir.

Ele afirmou que o Amazonas ocupa a terceira ou quarta posição no ranking nacional de feminicídios, apontando que, embora o governo federal tenha implementado diversos programas de combate, a sociedade ainda demonstra uma elevada tolerância, resultado de séculos de machismo enraizado na cultura brasileira.

"Lei de 20 anos de vigência não consegue, sozinha, alterar essa realidade", afirmou. Guimarães observou que o padrão de educação violenta, especialmente na região Norte e Nordeste, contribui para esse quadro, com relatos de punições físicas desde a infância e uma cultura de violência que coloca o Brasil como terceiro país com maior incidência de agressões a menores. Ele também recordou que a colonização portuguesa teve um impacto devastador na história local, promovendo conflitos sangrentos com etnias como os Mura, Munduruku e Sateré-Mawé, resultando em vítimas e muitas atrocidades às mulheres e meninas.

Guimarães ressaltou sua pesquisa sobre essas guerras e a presença de indígenas que resistiram às invasões coloniais ao longo dos rios amazônicos, onde registros de sangue são frequentes. O especialista reforça que o caminho mais eficaz para reduzir o feminicídio é a prevenção através do diálogo com jovens e adolescentes.

Ele destacou estudos feitos no Norte e Nordeste sobre meninas e adolescentes assassinadas por integrantes de organizações criminosas, muitas dessas mortes ocorrendo em circunstâncias brutais, como decapitações e esquartejamentos. "Precisamos agir com prevenção e diálogo para reverter esses números", afirmou.

Guimarães é autor de obras como “A luta contra a violência doméstica no Brasil: Um panorama histórico e atual”, feita em colaboração com Vitória Vieira, que visa conscientizar profissionais de segurança pública e professores sobre a temática. Ele também revelou que já realizou palestras em Parintins e Roraima, planejando novas ações durante o período do Carnaval, em cidades como Maués e Tabatinga, onde o avanço da violência doméstica tem sido alarmante. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, somente em Manaus, foram registradas mais de 10 mil solicitações de medidas protetivas emergenciais em 2025, conforme dados confirmados pela Polícia Civil do Amazonas, chegando a 12 mil casos

. Além disso, o interior do estado apresentou um crescimento superior a 36% nesses registros. Guimarães destacou que a violência doméstica não é exclusividade de classe social, citando exemplos envolvendo policiais e advogados que atualmente cumprem pena por crimes relacionados. Para ele, o machismo, a falta de diálogo, empatia e o sentimento de posse são fatores centrais na perpetuação de casos de feminicídio e agressões.

Ele reforça a importância do diálogo nas relações humanas, afirmando que a ausência de comunicação é muitas vezes a origem das agressões, desde relações afetivas até conflitos familiares. "O machismo e o egoísmo se manifestam na tentativa de dominar o corpo e a vida da mulher, uma herança de três séculos de violência na história do Brasil", explicou.

Em suas investigações em Roraima, Guimarães identificou casos graves de cárcere privado e abusos sexuais envolvendo mulheres venezuelanas, agravados pela crise migratória que trouxe ainda mais vulnerabilidade às vítimas.

Sua primeira visita ao estado foi há 15 anos, quando já estudava violência doméstica, e desde então observa o aumento de casos de exploração sexual, trabalho forçado, cárcere privado e maus-tratos, especialmente na fronteira com a Venezuela. Durante uma entrevista à nossa redação, o professor ressaltou a importância do diálogo e da educação na prevenção de feminicídios, defendendo que medidas educativas são essenciais para mudar essa realidade.

Ele enfatizou que o estado do Amazonas apresentou a menor taxa de feminicídio em 2025, com um índice de 0,46 por 100 mil habitantes, abaixo da média nacional de 0,69, totalizando 20 casos, o menor desde 2021.

Mesmo assim, destacou que o crescimento de feminicídios no Brasil foi de 2,5% entre 2022 e 2023, enquanto os homicídios de mulheres aumentaram 26% em Amazonas entre 2023 e 2024, conforme o Atlas da Violência 2025 e dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Eventos de protesto em Manaus continuam a reivindicar o fim do feminicídio, além de reforçar a mobilização social contra a violência e a perda de direitos das mulheres.

Entre os casos mais recentes, destaque para o feminicídio de Izabel Cristina Lopes Simplício, morta em dezembro de 2025, no ramal Matrinxã, zona Norte da capital, por seu parceiro, que enviou mensagens confessando o crime.

Também ocorreram outras mortes violentas, como a de Telma da Silva Rabelo Valente, assassinada em julho de 2025 por seu marido, e de Nariane Caresto Garcia de Sena, vítima de feminicídio em novembro do mesmo ano, por seu ex-companheiro, que ainda foi ferido por tiros na tentativa de fuga. Casos de homicídio também incluem o de Jean Carlos, que matou sua esposa e cometeu suicídio em junho de 2024, na zona Norte de Manaus.

Essas trágicas ocorrências reforçam a urgência de ações concretas para combater essa violência.