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Religião
02/02/2026 07:00:00

Maria Madalena: figura central e símbolo na história cristã

Da trajetória histórica às representações culturais e interpretações teológicas ao longo dos séculos

Maria Madalena: figura central e símbolo na história cristã

Maria de Magdala, conhecida também como Maria Madalena ou simplesmente Madalena (em hebraico: ??????? ??????????????; em grego: Μαρ?α η Μαγδαλην?; em latim: Maria Magdalena), foi uma discípula de Jesus Cristo que ocupa uma posição de grande destaque nos Evangelhos canônicos. Conforme relato dos quatro evangelistas, ela acompanhou Jesus em seu ministério público, esteve presente nos momentos cruciais de sua paixão e foi testemunha ocular da crucificação, do sepultamento e da ressurreição. O sobrenome "Madalena" indica origem na cidade de Magdala, uma vila pesqueira na costa oeste do mar da Galileia, na antiga Judeia romanda.

Maria Madalena é mencionada mais vezes nos Evangelhos do que a maioria dos apóstolos e mais do que qualquer outra mulher, exceto a Virgem Maria e familiares de Jesus. Lucas 8:1-3 descreve-a entre as mulheres que apoiaram o ministério de Jesus e colaboraram com seus recursos materiais, sugerindo que ela possuía bens próprios. Marcos 16:9 também relata que ela foi libertada de sete demônios. Nos relatos dos Evangelhos, ela é uma figura constante, permanecendo fiel na crucificação, mesmo quando outros discípulos fugiram. Nos Evangelhos Sinópticos, ela também participa do sepultamento de Jesus e, de maneira altamente significativa, é identificada como a primeira testemunha do túmulo vazio e, segundo Marcos e João, a primeira a encontrar o Cristo ressuscitado, recebendo dele a missão de anunciar a novidade aos apóstolos.

Por esse papel singular, a tradição cristã a tem venerado como uma figura de grande importância na história da salvação. Desde a Igreja Católica até as Igrejas Ortodoxas, Anglicanas e Luteranas, ela é venerada como santa. Em 2016, o Papa Francisco elevou sua memória litúrgica de memorial ao status de festa, celebrada em 22 de julho, reconhecendo oficialmente o título de "Apóstola dos Apóstolos" devido à sua missão pascal. As Igrejas Ortodoxas também a honram especialmente no Domingo das Portadoras de Mirra, reforçando sua fidelidade, amor e papel na proclamação da ressurreição.

Por outro lado, a imagem de Maria Madalena como uma prostituta começou a surgir em 591, quando Papa Gregório I associou Maria Madalena às figuras de Maria de Betânia, Lucas 10:39, e a mulher sem nome que ungiu os pés de Jesus, Lucas 7:36-50. Tal associação alimentou a ideia de que ela fosse uma mulher arrependida de vida promíscua, fomentando lendas medievais que exaltavam sua beleza, riqueza e uma suposta viagem ao sul da Gália. Durante a Reforma e a Contrarreforma, esse entendimento foi questionado ou reforçado de formas diferentes; em 1969, o Papa Paulo VI afastou oficialmente a identificação de Maria Madalena com Maria de Betânia e a mulher pecadora, embora essa visão permaneça popular na cultura. Ainda assim, ela é frequentemente retratada como uma ex-prostituta arrependida, principalmente na arte e na literatura medieval, reforçando sua imagem de penitente.

Na sua vida histórica, é amplamente aceito pelos estudiosos que Maria Madalena foi uma pessoa de fato real, embora detalhes de sua trajetória permaneçam obscuros. Diferentemente de Paulo, ela não deixou registros escritos de sua autoria e sua história chega até nós principalmente através dos Evangelhos, escritos no século I.

Durante o ministério de Jesus, ela, provavelmente originária de Magdala, foi exorcizada de sete demônios, uma condição que, na visão da época, estaria relacionada a doenças físicas ou mentais graves. Sua posição de apoio financeiro ao ministério indica que era uma mulher de recursos consideráveis. Nos Evangelhos, ela aparece sempre ao lado de outras mulheres que contribuíam para o trabalho de Jesus, destacando-se como líder entre as seguidoras.

Na crucificação, ela foi uma das poucas presentes, testemunhando o sofrimento de Jesus enquanto muitos discípulos fugiam. Nos relatos, ela também é uma das primeiras a visitar o túmulo após sua morte, encontrando a pedra removida e testemunhando a ressurreição. Varias versões descrevem sua experiência ao encontrar Jesus ressuscitado, incluindo sua conversa com ele no jardim de Emaús, embora alguns relatos sugiram que ela somente reconheceu Jesus após ouvilo falar seu nome. Como a primeira a testemunhar a ressurreição, Maria Madalena é considerada a pioneira na proclamação da vitória sobre a morte.

Ao longo dos séculos, diferentes interpretações tentaram construir uma biografia mais elaborada de Maria Madalena. Na Idade Média, ela foi idealizada como uma mulher de nobreza, uma rainha ou até uma rainha do cristianismo, com histórias que exaltavam sua riqueza, sua vida de liberdade e sua ascensão espiritual. Outras lendas a colocaram como uma viajante que morreu na França, na cidade de Saint-Maximin, onde, supostamente, suas relíquias estão guardadas até hoje. Na literatura, ela foi retratada como uma penitente que se mutilava após abandonar uma vida de pecado, ou como uma figura de grande beleza e sensualidade, às vezes confundida com Maria do Egito ou com uma mulher que tinha uma relação íntima com Jesus, embora tais versões sejam baseadas em tradições posteriores, muitas vezes conflituosas.

Durante a Idade Moderna, a visão de Maria Madalena como uma pecadora arrependida predominou, influenciando a arte, a teologia e a cultura popular. Pinturas, esculturas e poemas retrataram sua jornada de pecado, penitência e redenção, muitas vezes com fortes carregamentos emocionais e sensuais. O culto à sua figura se consolidou na Espanha, na França e na Alemanha, com festivais, relicários e irmandades dedicadas a ela. As representações artísticas frequentemente a mostram como uma eremita penitente, nua ou parcialmente vestida, com ênfase na expressão de arrependimento e amor divino.

Na era contemporânea, a figura de Maria Madalena foi ressignificada por obras de ficção, filmes e estudos acadêmicos que buscam reabilitar sua reputação. Filmes recentes, como "Maria Madalena" (2018), retratam-na como uma discípula próxima, inteligente e compreensiva, afastando-se do estereótipo de prostituta arrependida. Textos gnósticos e tradições alternativas a veem como uma líder espiritual, uma companheira de Jesus ou até uma figura de destaque em tradições místicas. Obras como "O Código Da Vinci" popularizaram ideias sem respaldo histórico, atribuindo a ela uma linhagem secreta ou uma relação amorosa com Jesus, o que não possui evidências concretas. No entanto, esses retratos influenciam a percepção popular, alimentando debates sobre a verdadeira história de Maria Madalena e seu papel na fé cristã.

Na arte ocidental, ela foi representada de várias formas: como uma pecadora sensual, uma penitente penitente ou uma figura de grande beleza e mistério. No século XV, artistas como Donatello criaram esculturas retratando sua figura como uma asceta magra e penitente, enquanto outros a mostraram como uma mulher de nobreza, vestida com roupas luxuosas. Essas imagens refletiram, ao longo do tempo, a evolução das interpretações teológicas, culturais e artísticas de sua figura, consolidando seu papel como símbolo de arrependimento, amor e mistério na cultura ocidental.