09/02/2026 01:17:37

Acidente
30/01/2026 22:00:00

Tragédia no hospital psiquiátrico de Prokopyevsk: versões, testemunhos e falhas do sistema

Investigações revelam possíveis violações, maus-tratos e segredos obscuros na unidade psiquiátrica da Kuzbass

Tragédia no hospital psiquiátrico de Prokopyevsk: versões, testemunhos e falhas do sistema

Uma tragédia de grande impacto ocorreu na estrutura de assistência psicossocial de Kuzbass, especificamente no hospital psiquiátrico de Prokopyevsk, resultando na morte de nove indivíduos e na hospitalização de dezenas de pacientes. As autoridades investigam possíveis violações das normas sanitárias, enquanto funcionários da instituição descrevem condições de trabalho e moradia extremamente precárias.

O incidente ocorrido em janeiro na clínica de Prokopyevsk foi mais do que uma simples falha de segurança social. Ele expôs uma série de problemas acumulados ao longo de anos em instituições de atendimento fechado, revelando uma crise silenciosa que vinha se agravando.

Relatos sobre o número de vítimas variam, com mortes que não podem ser atribuídas a uma única causa. As informações oficiais indicam que os nove falecidos tinham idades entre 19 e 73 anos, e a partir de 23 de janeiro, uma epidemia de doença se espalhou, levando ao internamento de mais de cinquenta pacientes, muitos em estado crítico. Apesar de o Ministério do Trabalho regional afirmar que a maioria das vítimas tinha problemas cardíacos crônicos, as investigações apontam para uma propagação viral dentro da instituição, agravada pelas condições inadequadas de higiene e cuidado.

O procedimento legal foi alterado para incluir uma acusação mais severa — violações das normas sanitárias que resultaram na morte de múltiplas pessoas, evidenciando a gravidade da situação.

Contudo, uma narrativa mais sombria revela que os próprios funcionários relataram condições de extremo descaso, que vão além das estatísticas oficiais. Segundo relatos anônimos, os pacientes enfrentaram frio intenso, fome severa e a ausência de tratamentos essenciais. Em alguns edifícios, radiadores não funcionavam durante o inverno, deixando os internos expostos ao frio por dias, já debilitados e submetidos à má alimentação, que incluía produtos vencidos, carnes fora do prazo e peixes de qualidade duvidosa. A comida era processada em um único moedor de carne, misturando ingredientes crus com refeições prontas, o que agravava ainda mais a saúde dos doentes.

Documentos e fotos publicados em setembro do ano passado mostravam as péssimas condições da alimentação, e embora inspeções temporárias tenham melhorado momentaneamente, a deterioração voltou a ocorrer rapidamente.

Outro aspecto alarmante refere-se ao uso de recursos públicos. Dados indicam que aproximadamente 60 milhões de rublos foram destinados à instituição, incluindo 17 milhões para reformas em diferentes setores, enquanto cerca de 40 milhões foram alocados apenas para alimentação ao longo de três meses. Investigações questionam o que realmente aconteceu com esses fundos, pois há relatos de alimentos insuficientes e mal distribuídos, levando a questionamentos sobre possíveis desvios.

Ativistas, como Alexei Mukhin, apontam que a situação em Prokopyevsk representa um problema estrutural, não uma ocorrência isolada. Segundo ele, muitos internos, que migraram voluntariamente, vivem sob condições de quase escravidão: sem liberdade de comunicação, de mobilidade ou de rescisão de contratos. A carência de pessoal é crítica, com relatos de enfermeiras responsáveis por atender até 100 pacientes, dificultando o oferecimento de cuidados básicos, higiene e segurança. Casos de tuberculose não tratados e a disseminação de pneumonia evidenciam a negligência.

Funcionários mais jovens, que vivenciam a rotina diária, foram os primeiros a denunciar irregularidades, apresentando queixas às autoridades de saúde e à imprensa. Contudo, após esses relatos, relatos de intimidações aumentaram. Pessoas que remarcaram problemas com alimentação ou condições de higiene foram impedidas de trabalhar, com a entrada sendo bloqueada sob alegações de ordens superiores. A justificativa oficial incluiu “maus contatos” e “detecção de infecção”, enquanto análises ainda aguardam resultados.

Relatos indicam uma tentativa de silenciar os denunciantes, com a direção da instituição ordenando o silêncio e as comissões de inspeção sendo impedidas de acessar os internos dispostos a falar a verdade.

Sequências de sepulturas clandestinas foram descobertas na floresta próxima ao hospital por um morador local, que encontrou covas sem sinais de proteção, algumas com cruzes antigas, parecendo remanescentes de sepultamentos anteriores. Essas sepulturas abrigariam os residentes falecidos, inclusive os mortos em janeiro.

Em resposta ao escândalo, a administração regional, liderada por Ilya Seredyuk, ordenou uma inspeção geral em todas as instituições da área. Uma equipe médica de Kemerovo foi enviada a Prokopyevsk, enquanto a diretora do hospital, Elena Morozova, foi colocada em licença. Além disso, os exames médicos dos internos passarão a ocorrer semestralmente. Apesar disso, a suspeita de que essa tragédia seja apenas uma de várias aumenta a preocupação, especialmente após a morte de nove crianças em uma maternidade em Novokuznetsk em janeiro, com investigações apontando para uma possível infecção e a prisão de vários profissionais envolvidos.

As autoridades continuam suas investigações em Prokopyevsk, com perícias e depoimentos cautelosos, mas questões fundamentais permanecem sem resposta. Como foi possível que os internos tenham vivido em condições tão degradantes enquanto milhões de rublos eram destinados ao sustento da instituição? Por que a direção ignorou o surto de doença? Como sepultaram os mortos na floresta? Quantas outras histórias semelhantes permanecem escondidas por trás das paredes de hospitais fechados?

Enquanto essas perguntas permanecerem sem resposta, a tragédia de Prokopyevsk continuará a refletir não apenas uma falha humana, mas também uma crise sistêmica que exige uma revisão aprofundada do modelo de assistência aos mais vulneráveis, indo além de simples inspeções superficiais.