Uma batalha entre grupos dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) culminou na morte de, pelo menos, 26 indivíduos na região de Guaviare.
As autoridades do sistema de proteção dos direitos confirmaram a ocorrência nesta segunda-feira, após relatos iniciais divulgados no fim de semana. Os confrontos aconteceram na sexta-feira, em uma zona rural próxima à cidade de El Retorno.
Os combatentes envolvidos pertencem ao Estado-Maior Central (EMC), liderado por Iván Mordisco, e ao Estado-Maior de Blocos e Frentes (EMBF), comandado por Calarcá Córdoba.
Desde 2014, esses dois grupos têm travado uma intensa disputa pelo domínio das atividades ilícitas na Amazônia colombiana, especialmente após a ruptura entre seus líderes. Ainda não há informações sobre a presença de menores entre as vítimas fatais, incluindo crianças e adolescentes.
O escritório do Provedor de Justiça informou que alguns de seus representantes auxiliaram na recuperação dos corpos no domingo, devido à gravidade da situação e ao risco para a população local.
Nathalia Romero, Delegada do órgão, explicou por meio de mensagem de áudio no WhatsApp que, embora esta não seja uma tarefa habitual, a necessidade de agir foi imprescindível. Segundo ela, as vítimas são compostas por 21 homens e cinco mulheres, e há indícios de que várias delas possam ser menores de idade.
Ainda assim, ela ressaltou que a confirmação só poderá ser feita após as autópsias, uma vez que as características físicas e os relatos de recrutamento forçado levantam suspeitas.
Há divergências quanto à identificação do grupo ao qual os mortos pertenciam. O Exército colombiano afirma que seus relatórios de inteligência indicam que todas as vítimas eram integrantes do EMC, enquanto o próprio EMC emitiu uma nota reconhecendo as mortes e alegando que seus combatentes foram envenenados ou sedados antes de serem mortos.
A organização também acusou o Exército de colaborar com seus rivais. Romero destacou que a investigação ainda está em andamento e que a possibilidade de que combatentes de ambos os grupos estejam entre os mortos não pode ser descartada.
As forças armadas também alertaram que, além dos 26 combatentes mortos, pode haver uma vítima civil. O comandante Roque informou que um civil chegou a San José del Guaviare vindo da região no sábado, aparentemente envolvido nos confrontos, uma situação que está sendo apurada.
Ele tranquilizou a população local, afirmando que as forças estão realizando buscas para detectar possíveis munições não detonadas e que não há confrontos em curso no momento. Além disso, garantiu que os esforços visam restabelecer a segurança na área.
A Igreja Católica também se pronunciou no sábado, destacando o impacto dos confrontos na vida dos civis. Segundo a entidade, esses conflitos provocam sofrimento, vitimização, deslocamento e confinamento de comunidades indígenas e rurais, criando um clima de medo que impede a convivência pacífica.
A Defensoria Pública reforçou a necessidade de proteger a população civil, evitar danos a bens e pessoas sob proteção e garantir o acesso humanitário de forma segura e sem obstáculos.
Desde meados de 2024, a violência na região de Guaviare—zona estratégica para rotas de narcotráfico, marcada por plantações ilícitas e mineração ilegal—tem se agravado. Os dissidentes Mordisco e Calarcá se separaram, iniciando movimentos de tropas e trocando acusações públicas que demonstram uma escalada de tensões.
Em janeiro de 2025, confrontos no município de Calamar resultaram na morte de, pelo menos, 16 pessoas. Juanita Vélez, da Fundação Core, comentou na época que as tensões eram previsíveis, dada a tentativa frequente de Mordisco de invadir o território de Calarcá, alimentando temores de uma guerra maior.
O sistema de proteção dos direitos alertou precocemente sobre o aumento do conflito armado na região, enfatizando que ambos os grupos invadiram áreas controladas por seus adversários, representando riscos graves à população civil. As comunidades afetadas, majoritariamente comunidades indígenas, afro-colombianas e rurais, têm sofrido com violações históricas de seus direitos.
Além disso, o órgão destacou que os dissidentes de Calarcá continuam participando de negociações de paz com o governo de Gustavo Petro. Embora a violência tenha intensificado, esse grupo permanece como uma das poucas facções com as quais o Executivo tenta alcançar algum progresso antes do encerramento de seu mandato.