O Brasil busca preservar suas relações com o Irã, mesmo diante das atrocidades cometidas pelo governo daquele país. Uma eventual interrupção nesse vínculo não afetaria significativamente a balança comercial brasileira, que movimentou aproximadamente US$ 629 bilhões em 2022, sendo que a parceria com o Irã representa apenas US$ 3 bilhões em trocas comerciais. Assim, manter essa aliança pode acarretar prejuízos elevados para o país, sem grandes ganhos econômicos.
Existem, ao menos, duas razões que explicam o apoio quase unânime do governo brasileiro ao regime iraniano, uma delas deplorável e outra relacionada ao preço do petróleo, que, sob uma perspectiva puramente econômica, apresenta um certo grau de virtude.
A situação no Irã é extremamente grave, e qualquer respaldo a seu regime é difícil de justificar. A comparação com os aiatolás iranianos, que impõem punições severas às mulheres pelo uso inadequado do véu muçulmano e lançam gays de edifícios simplesmente por sua orientação sexual, é chocante. Ainda assim, figuras como o ex-ditador e atual detento Nicolás Maduro, apesar de suas atrocidades na Venezuela, podem até se candidatar ao Nobel da Paz, dada a complexidade das percepções internacionais.
O Brasil mantém uma postura de fidelidade com o Irã que vai além de uma relação cordial. Essa estratégia tem implicações que merecem análise. Por exemplo, romper com o Irã não traria impactos relevantes à balança comercial brasileira, que é modesta, envolvendo um valor inferior a US$ 3 bilhões, uma porcentagem ínfima do total de US$ 629 bilhões movimentados pelo país no último ano. Entretanto, continuar apoiando esse relacionamento pode trazer consequências danosas ao Brasil.
Na semana passada, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou aplicar tarifas adicionais de 25% a países que persistissem em fazer negócios com o Irã. Essa medida visa sufocar economicamente o regime iraniano e desestabilizar a ditadura que provocou uma crise humanitária profunda, com protestos populares contra a inflação e a escassez de bens essenciais. Como consequência, o governo iraniano cobra das famílias das vítimas o valor das balas usadas para reprimir os manifestantes, uma prática cruel e desumana.
O regime iraniano é visto como um problema até pelos seus vizinhos árabes, por financiar o terrorismo e nutrir claramente a intenção de destruir Israel. Os líderes iranianos referem-se aos Estados Unidos como “o Grande Satã” e ameaçam ataques contra a população americana. Nesse cenário turbulento, o Brasil continua a apoiar a ditadura, uma postura que levanta a questão: qual seria a explicação para esse alinhamento?
A primeira justificativa do apoio brasileiro às ações do regime iraniano está relacionada às afinidades ideológicas, incluindo o antiamericanismo e o antissemitismo, que têm se enraizado no Itamaraty desde o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Numa diplomacia que abandonou a postura técnica e imparcial em favor de motivações políticas, o Brasil passou a manifestar apoio ao Irã sob influência de conselheiros como Celso Amorim, gerando episódios vexatórios. Dois exemplos ilustram bem essa situação.
O primeiro ocorreu em 30 de julho de 2024, quando o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) participou da posse do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, ao lado de líderes terroristas. Na ocasião, o evento aconteceu enquanto o exército de Israel combatia o Hamas na Faixa de Gaza, e Alckmin estava próximo ao líder do grupo, Ismail Haniyeh. Poucas horas após, as forças de inteligência israelenses neutralizaram Haniyeh, um dos principais arquitetos dos atentados de 7 de outubro de 2023.
Outro episódio menos conhecido, mas igualmente constrangedor, ocorreu em 18 de julho de 2024, quando Celso Amorim participou de uma conferência em Washington promovida por uma ONG pacifista americana. Lá, o diplomata brasileiro cometeu um equívoco ao equiparar as violências sofridas por mulheres no Irã com a pena de morte, ainda praticada em alguns estados americanos. Em sua fala, Amorim disse: “Não apoio a forma como as mulheres são tratadas no Irã, mas também não concordo com a pena capital nos Estados Unidos”.
O representante americano Dan Baer, ligado ao Partido Democrata e ex-embaixador dos EUA na OSCE, reagiu de forma surpreendente, criticando a comparação de Amorim. Ele destacou que a aplicação da pena de morte, embora controversa, possui um sistema jurídico que garante direitos de defesa, diferentemente do que ocorre no Irã. Baer afirmou que associar a pena de morte ao regime iraniano é uma postura moralmente questionável e prejudica a credibilidade dos apoiadores dessa equivalência.
O alinhamento ideológico de Brasília com a teocracia iraniana, por mais impopular que seja entre os brasileiros que buscam preservar sua “credibilidade moral”, é um dos principais motivos que explicam a resposta oficial do Itamaraty diante da repressão brutal no Irã, iniciada em 28 de dezembro. A ordem de usar força letal contra manifestantes deixou um rastro de cadáveres, enquanto o regime tentou esconder a carnificina cortando a conexão à internet e bloqueando qualquer comunicação internacional.
Estima-se que, até o momento, o número de mortos seja incerto, variando de centenas a dezenas de milhares. Uma ONG norueguesa especializada na vigilância de direitos humanos no Irã reporta mais de 3.000 corpos nos necrotérios. Outras fontes indicam que o total de vítimas pode ultrapassar 20 mil, incluindo mais de 30 mil detidos, alguns sem direito à defesa e condenados à pena capital, uma situação que Amorim condena nos Estados Unidos, mas que o regime iraniano pratica de forma sistemática.
Essas discrepâncias nos números refletem a gravidade da crise e a difícil obtenção de dados confiáveis devido à censura intensificada. Assim, a narrativa oficial se torna ambígua e cada parte tende a aceitar as informações que melhor confirmam suas opiniões. Para observadores externos, no entanto, fica claro que trata-se de uma ditadura que reprime brutalmente sua própria população, independentemente dos números exatos.