Geraldo Borges, líder da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), afirmou que a cadeia de produção de laticínios encontra-se em meio a uma nova fase de instabilidade cíclica, que tem provocado quedas nos preços pagos ao produtor.
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Segundo Borges, dificuldades no setor leiteiro já eram evidentes em 2023 devido ao alto volume de importações de países do Mercosul. Ele comentou que essa sobrecarga começou a ser percebida desde 2022, ultrapassando significativamente a média histórica de importação, que costuma variar entre 1% e 3%. Em certos momentos, o Brasil chegou a importar até 12% do leite apreciado na sua demanda, de forma desnecessária. Quando a importação era mais controlada, na faixa de 1,5% a 3%, a cadeia produtiva mantinha um equilíbrio mais saudável, avaliou.
Na sua avaliação, Argentina e Uruguai são responsáveis por cerca de 98% a 99% das exportações de lácteos ao Brasil, principalmente leite em pó e queijos. Ele destacou que esses países possuem custos de produção menores e, no caso argentino, subsídios que os produtores nacionais não têm acesso, configurando uma competição desleal. Além disso, Borges apontou para a existência de práticas comerciais internacionais que podem ser consideradas injustas.
O dirigente revelou que as reclamações do setor foram levadas ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), incluindo o vice-presidente Geraldo Alckmin. No entanto, as investigações para apurar e solucionar esses problemas consumirão tempo, recurso que, segundo ele, a cadeia produtiva não dispõe. Assim, Borges reivindicou medidas imediatas para conter essa importação excessiva, que prejudica o mercado interno.
Na entrevista, Borges também destacou que o setor reúne atualmente mais de 1.171.000 unidades produtoras, abrangendo desde pequenos agricultores familiares até grandes fazendas, todas sofrendo os efeitos da crise. Os pequenos produtores, em particular, são os mais prejudicados pela queda dos preços, recebendo até R$ 1,50 por litro de leite — valor abaixo do custo médio nacional de R$ 2,00, agravando sua vulnerabilidade.
Estima-se que aproximadamente 5 milhões de trabalhadores estejam diretamente ligados às atividades leiteiras, incluindo a produção de derivados, além de milhões de empregos indiretos. Com os preços baixos, muitos produtores correm o risco de encerrar suas operações, vendendo seus rebanhos e infraestrutura, o que pode gerar uma crise social de grande impacto.
O presidente da Abraleite salientou que o setor é altamente capital-intensivo, devido ao investimento em rebanhos, terras e instalações, mas apresenta baixa rentabilidade. Durante períodos de crise, produtores tendem a vender suas fazendas e rebanhos, o que pode levar ao abandono da atividade agrícola, agravando a situação social do país.
Anunciando uma mobilização, Borges revelou que no dia 2 de fevereiro o setor leiteiro realizará uma ação em Brasília, com o apoio dos parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), para alertar o governo sobre a gravidade da crise. Ele ressaltou a importância de uma gestão responsável para evitar que a cadeia de produção seja desestruturada, o que aumentaria a dependência do Brasil das importações, elevando os preços ao consumidor, especialmente de um produto essencial à saúde pública em todas as fases da vida.
Ele também manifestou preocupação com o novo acordo entre Mercosul e União Europeia, que, na sua visão, pode agravar ainda mais os problemas do setor. Acordo que, apesar de prazos de adaptação estabelecidos ao longo de dez anos, facilitará a entrada de produtos europeus no mercado brasileiro, dificultando a exportação de lácteos nacionais por diversos motivos.
Borges enfatizou as dificuldades de competitividade enfrentadas pelos produtores brasileiros frente ao mercado externo, ressaltando que os concorrentes se beneficiam de subsídios e de uma tecnologia mais avançada, além de impor restrições ao comércio, como exigências ambientais e de sustentabilidade.
Por fim, ele reforçou a importância do leite para o Brasil, que ocupa a terceira ou quarta posição no ranking mundial de maior produtor e é o quinto maior consumidor, demonstrando sua relevância social, econômica e nutricional para a população.