17/01/2026 14:24:52

Saúde
17/01/2026 12:00:00

Intestino como Fábrica de Bebidas Alcoólicas: Uma Doença Misteriosa que Surpreende a Ciência

Pesquisas revelam como o microbioma intestinal pode levar pessoas a apresentarem níveis de álcool no sangue sem consumo de bebida alcoólica

Intestino como Fábrica de Bebidas Alcoólicas: Uma Doença Misteriosa que Surpreende a Ciência

Recentes investigações têm iluminado uma condição pouco conhecida, na qual indivíduos aparentam estar embriagados sem terem ingerido álcool. Essa condição, conhecida como síndrome da autofermentação, ocorre quando o próprio sistema digestivo produz etanol devido a um desequilíbrio microbiológico. Apesar de sua aparente raridade, estima-se que muitos casos possam estar sendo erroneamente classificados ou não divulgados, sendo confundidos com problemas de dependência ou outras enfermidades. O que antes era visto como uma anedota, agora é reconhecido como um distúrbio metabólico grave, cujo entendimento tem evoluído com a análise do microbioma — o conjunto de microrganismos residentes em nosso corpo. A síndrome causa intoxicação mesmo na ausência de consumo de bebidas alcoólicas. Inicialmente, acreditava-se que a causa principal fosse a proliferação excessiva de leveduras no intestino, mas estudos mais recentes identificam bactérias específicas como os principais responsáveis, como Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, que fermentam carboidratos produzindo altos níveis de etanol. De acordo com o pesquisador Bernd Schnabl e a especialista Cynthia Hsu, ambos da Universidade da Califórnia em San Diego, esses microrganismos utilizam múltiplas vias metabólicas para gerar álcool, elevando o nível de etanol no sangue a ponto de afetar a capacidade de condução de veículos por parte dos pacientes, levando à possível confusão com casos de embriaguez.

Estudos laboratoriais compararam amostras de fezes de 22 pacientes com a síndrome, 21 familiares e 22 indivíduos saudáveis, grupo controle, permitindo uma análise aprofundada do papel do microbioma, diferenciando influências ambientais e de dieta de fatores microbiológicos.

Os resultados mostraram que as fezes de pessoas afetadas produziam significativamente mais álcool do que os controles, devido à presença de bactérias como E. coli e K. pneumoniae, que fermentam carboidratos de forma excessiva. Schnabl destaca que esses microrganismos podem elevar os níveis de álcool no sangue a pontos que impediriam a realização de tarefas simples, como dirigir.

Essa descoberta evidencia o impacto potencial do microbioma na saúde e no comportamento, chegando ao ponto de influenciar julgamentos legais e fiscalização de trânsito, uma vez que indivíduos podem negar o consumo de álcool enquanto seus intestinos funcionam como fábricas de cerveja clandestinas.

Por enquanto, o diagnóstico permanece complexo, pois exige que os pacientes sigam dietas específicas e tenham seus níveis de álcool monitorados. Os autores sugerem que, futuramente, análises de fezes e avaliações do metabolismo bacteriano possam facilitar a identificação da condição.

Embora ainda não exista um tratamento padronizado, há esperança na possibilidade de terapias como o transplante de microbiota — procedimento que transfere bactérias saudáveis de um doador para o paciente, com o objetivo de restabelecer o equilíbrio do microbioma intestinal. Um dos pacientes do estudo apresentou melhora significativa após dois procedimentos de transplante.

Apesar de parecer uma solução promissora, especialistas alertam que mais estudos, com maior número de participantes e dados de longo prazo, são essenciais antes que esse método possa ser adotado rotineiramente. Ainda assim, essas descobertas representam um avanço importante rumo à medicina personalizada, focada na modulação do microbioma para tratar doenças metabólicas complexas.