A crescente demanda por matrículas em instituições cívico-militares no Paraná evidencia uma preferência de pais que buscam disciplina e maior segurança para os filhos. Dados coletados pela BBC News Brasil indicam que, até novembro de 2025, a fila de espera atinge aproximadamente 11.200 estudantes na rede estadual, refletindo popularidade significativa.
O programa, inicialmente lançado em 2019 durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi oficialmente encerrado em 2023 pelo governo do presidente Lula, mas continua a se expandir por iniciativa de estados, como o Paraná, que já converteu mais de 300 escolas ao formato desde 2021.
O modelo aposta na presença de militares da reserva, que atuam em atividades administrativas e na organização de eventos como formaturas, desfiles e cerimônias escolares.
Esses profissionais, selecionados por processo seletivo, recebem uma remuneração fixa de R$ 5,5 mil por diárias, sem vínculo empregatício direto com as instituições, e não utilizam armas ou substituem professores, mas colaboram na manutenção da disciplina e rotina dos estudantes.
Segundo Rivail Lucas de Oliveira, diretor de uma escola cívico-militar em Wenceslau Braz, a demanda por novas vagas é intensa, atualmente com 332 alunos matriculados, previsão de chegar a 380. Ele ressalta que, antes do modelo, a escola enfrentava resistência na comunidade por escolar alunos considerados mais problemáticos, mas que a disciplina promovida pelo sistema tem melhorado o ambiente.
Para os responsáveis, a presença de militares traz uma sensação de maior ordem e segurança. O secretário estadual de Educação, Roni Miranda, explica que a iniciativa surgiu para preencher a lacuna deixada por programas de monitoramento externo, como o Escola Segura, que atuavam apenas fora dos muros escolares. Assim, a proposta visa oferecer um ambiente mais disciplinado e seguro, promovendo uma formação de caráter mais rigoroso e valores como respeito, responsabilidade e cuidado com o patrimônio público.
O programa também utiliza um sistema de crédito, onde os estudantes acumulam pontos positivos ou negativos ao longo do ano, influenciando seu comportamento e desempenho. Boas atitudes, como ajudar colegas ou colaborar com professores, podem elevar a pontuação, enquanto infrações, como desrespeito às regras de convivência, reduzem-na.
Estudantes com bom comportamento podem receber elogios e conquistas, como certificados e medalhas.
Apesar do sucesso em popularidade, a implementação tem gerado críticas de sindicatos de professores e entidades de defesa dos direitos civis. A Associação dos Professores do Paraná (APP) argumenta que o modelo privilegia recursos para escolas específicas, prejudicando a equidade do ensino público e que a presença de militares na rotina escolar pode limitar o respeito às diferenças e impactar negativamente na formação integral dos alunos.
Além disso, há denúncias de atitudes inadequadas por parte de militares, incluindo confrontos com professores ou interrupções de aulas sem autorização, além de questões relacionadas à padronização de vestuário e cabelo, o que tem provocado debates sobre o impacto dessas regras na diversidade cultural, especialmente de estudantes negros, com relatos de proibições e discriminação.
O debate sobre o modelo também inclui considerações legais, com ações no Supremo Tribunal Federal questionando sua constitucionalidade, coordenadas pelo PT e PSOL. Em resposta, a Procuradoria-Geral da República opinou, ao final de 2025, que o programa está de acordo com a Constituição, embora sua validade ainda aguarde julgamento.
O Ministério da Educação, sob o comando de Camilo Santana, anunciou a suspensão da criação de novas escolas cívico-militares em 2023, destacando que a decisão visa garantir a igualdade de acesso ao ensino civil para todos os estudantes, sem privilégios ou segregações. O governo federal reforça a importância de que cada estado avalie suas próprias necessidades e evidências antes de expandir ou implantar o modelo.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, que lançou oficialmente o programa em 2019, afirmou que a militarização escolar buscava reduzir a violência e promover disciplina, mas seu projeto foi interrompido pelo novo governo, que considera ilegal a criação de novas unidades por decreto.
Ainda assim, a iniciativa permanece relevante na arena política, sendo considerada uma bandeira de parte da direita brasileira, que associa o sistema a uma suposta maior segurança e disciplina nas escolas, embora os estudos ainda estejam em fase inicial para avaliar seus resultados educativos de forma conclusiva.
Por outro lado, entidades como a APP destacam que o modelo pode gerar efeitos colaterais prejudiciais, como o aumento do estresse, depressão e exclusão social entre estudantes que não se encaixam nos padrões rígidos impostos. Assim, a discussão pública permanece acalorada, com opiniões divergentes sobre o impacto real e os limites do sistema cívico-militar na educação brasileira.