No estado de Alagoas, a quantidade de atendimentos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) relacionados a crises emocionais apresentou um incremento de 3,4% ao longo de 2025, chegando a 3.034 registros.
Esse crescimento, comparado aos 2.934 atendimentos realizados em 2024, indica uma tendência alarmante na demanda por cuidados de saúde mental, com uma média diária que passou de 8,03 para 8,31 ocorrências. Os números, referentes às duas principais centrais do sistema no estado — Maceió e Arapiraca — evidenciam que a situação requer atenção contínua.
Desde 2024, os registros de emergências psiquiátricas sobem de forma constante. Em 7 de janeiro deste ano, por exemplo, o setor de estatísticas do Samu contabilizou 13 casos dessa natureza, sinalizando uma crescente necessidade de assistência. Especialistas advertem que muitos casos podem não ser contabilizados oficialmente, já que diversas unidades de saúde, tanto públicas quanto privadas, atendem esses pacientes sem registro no sistema do Samu.
Dois episódios ocorridos no mesmo dia ilustram a gravidade da crise de saúde mental na população. Uma mulher de 63 anos, residente no bairro de Fernão Velho, apresentou um surto emocional, encontrando-se confusa. A equipe de socorro conseguiu conter a crise e encaminhou a paciente ao Hospital Portugal Ramalho, referência em tratamentos psicológicos e psiquiátricos.
No mesmo dia, outra mulher, de 47 anos, moradora do bairro do Clima Bom, com histórico de internações psiquiátricas, problemas emocionais ligados a conflitos familiares e consumo excessivo de medicação controlada, foi também atendida. Ela permanecia consciente, porém sonolenta, sendo levada ao Hospital Ulisses Pernambucano.
A situação atual espelha um cenário preocupante a nível nacional. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil encontra-se entre os países com as maiores taxas de ansiedade do mundo, afetando aproximadamente 10% da população — cerca de 19 milhões de pessoas.
O impacto da pandemia agravou esses números, especialmente entre jovens e mulheres, impulsionado por fatores como desigualdade social, violência e o estigma em torno das doenças mentais. Ainda assim, muitos evitam buscar ajuda devido ao medo, vergonha ou dificuldades de acesso. Sintomas como irritabilidade, insônia, inquietação, dores de cabeça, diarreia e sensação de perda de controle indicam quadros de ansiedade.
Especialistas também alertam para comportamentos de evitação, que dificultam a identificação e o enfrentamento dos problemas. Quando esses sinais são frequentes, procurar auxílio profissional é fundamental para evitar a evolução para condições mais graves, como depressão ou tentativas de suicídio. Instituições oferecem suporte psicológico gratuito a pessoas em crise, incluindo centros especializados e linhas de apoio 24 horas. Segundo o coordenador geral do Samu em Alagoas, médico Mac Douglas Oliveira de Lima, os números revelam uma tendência preocupante, mas a equipe está preparada para atender esses casos com competência e sensibilidade.
A formação contínua dos profissionais é prioridade, obtida por meio do Núcleo de Educação Permanente (NEP), que promove treinamentos de Atendimento Pré-Hospitalar (APH) Básico e Avançado, incluindo módulos específicos sobre saúde mental. Raphael Carvalho, socorrista responsável pelos treinamentos de psiquiatria no NEP, destaca que a detecção precoce de sinais de risco, especialmente em situações críticas como tentativas de suicídio, é essencial.
Ele reforça a importância de uma abordagem humanizada, que evita julgamentos, mantém vigilância constante e prioriza a dignidade do paciente. Para quem enfrenta dificuldades emocionais, buscar ajuda é uma atitude de coragem. Em Maceió, o Centro de Promoção à Saúde, Educação e Amor à Vida (Cavida) oferece assistência gratuita e acolhimento psicológico, podendo ser contatado pelo telefone (82) 98879-2710. No âmbito nacional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) funciona 24 horas pelo número 188, oferecendo escuta qualificada e apoio emocional.
A rede pública de saúde também disponibiliza acompanhamento psicológico gratuito em unidades de saúde, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e postos de saúde básicos. Realizar terapia não representa fraqueza, mas sim um ato de autocuidado e de respeito à própria saúde mental.
Durante o mês de janeiro, a campanha Janeiro Branco reforça essa mensagem. A iniciativa, que utiliza a cor branca como símbolo de um 'quadro em branco' para novos começos saudáveis, busca mobilizar instituições públicas e privadas para promover a conscientização sobre a importância do bem-estar mental.
O objetivo é estimular a sociedade a refletir, dialogar e tratar a saúde mental com prioridade, prevenindo transtornos como ansiedade e depressão antes que evoluam para crises mais severas. No estado de Alagoas, o Samu permanece na linha de frente não só no salvamento de vidas físicas, mas também no acolhimento de indivíduos em crise emocional.
E reforçam: solicitar ajuda é o primeiro passo para a recuperação.