O Irã atravessa sua fase mais complexa desde a Revolução Islâmica de 1979, diante de uma onda de manifestações que desafiam a estabilidade do governo. Essa mobilização popular, combinada com dificuldades econômicas e tensões internacionais, tem colocado o regime à prova de maneiras inéditas.
Para sufocar o movimento, as forças de segurança adotaram uma repressão severa, considerada a mais intensa nas últimas décadas. Tropas invadiram ruas, aumentaram prisões em larga escala e bloquearam quase que integralmente o acesso à internet, uma estratégia pouco vista em crises anteriores. Como consequência, áreas anteriormente marcadas por gritos de protesto ficaram silenciosas e marcadas pelo medo.
Relatos do próprio povo de Teerã indicam que, após dias de intensos confrontos e tiroteios, a presença nas vias públicas caiu drasticamente. Repórteres locais descrevem um clima de pavor, no qual sair de casa se tornou uma decisão de risco extremo.
Ao contrário de ocorrências passadas, a instabilidade atual se dá em um contexto de ameaças externas, com os Estados Unidos e Israel envolvidos na narrativa. O presidente norte-americano, Donald Trump, voltou a mencionar possibilidades de intervenções militares, meses após ataques dos EUA a instalações nucleares iranianas durante um breve conflito com Israel, que prejudicou a imagem do regime.
Apesar disso, o governo iraniano tenta usar essa crise internacional como uma vantagem. Trump declarou que Teerã demonstra interesse em retomar negociações, mas deixou claro que pode agir de forma unilateral, antes de qualquer diálogo diplomático. Mesmo com possíveis avanços nas conversas, especialistas avaliam que eles não seriam suficientes para reduzir a tensão provocada pelos protestos.
Por sua vez, a liderança do Irã mantém sua resistência a aceitar demandas consideradas inegociáveis, como o fim completo do enriquecimento de urânio, elemento fundamental na estratégia de defesa do país. Analistas avaliam que, apesar da pressão, não há sinais concretos de mudança de postura por parte do governo iraniano.
Especialistas apontam que o foco do regime é garantir sua sobrevivência, usando a repressão como principal ferramenta, e só após essa ação planejar possíveis alternativas. Contudo, mesmo que consiga calar as manifestações, o governo enfrenta sérias limitações para melhorar a qualidade de vida da população, que está sufocada por sanções, alta inflação e falta de perspectivas.
Relatos de áreas que escaparam do controle da comunicação indicam hospitais lotados, necrotérios improvisados e um número crescente de vítimas fatais e feridos. Organizações de direitos humanos alertam que as mortes já ultrapassam as registradas em protestos anteriores, que duraram meses, além de mais de 20 mil pessoas presas em pouco tempo.
O governo reconhece a violência e divulga imagens de vítimas na televisão estatal, ao mesmo tempo em que classifica ações contra prédios públicos como atos terroristas. A retórica oficial tornou-se mais rígida, com manifestantes sendo acusados de crimes religiosos graves, passíveis de pena de morte. Organizações internacionais denunciam execuções iminentes de jovens detidos durante os protestos.
Responsáveis pelo país atribuem a escalada da violência a inimigos externos, especialmente os Estados Unidos e Israel. Essa narrativa ganhou força após a confirmação de infiltrações de serviços de inteligência estrangeiros no país no último ano, durante o conflito recente.
O surgimento dos protestos teve origem na crise econômica. No final de dezembro, comerciantes de eletrônicos em Teerã protestaram contra a queda abrupta da moeda local, fechando lojas e entrando em greve. O governo tentou conter a insatisfação com promessas de diálogo e pequenos auxílios financeiros, mas a inflação e o aumento de preços rapidamente fizeram essas medidas perderem efeito.
Em questão de semanas, as manifestações se expandiram de pequenas cidades pobres para os centros urbanos mais importantes, demonstrando que as reivindicações ultrapassam as questões econômicas e atingem a estrutura política do país. Para muitos iranianos, o problema deixou de ser uma crise passageira e passou a ser uma questão de sistema.
O Irã há anos convive com sanções severas, má gestão, corrupção e restrições às liberdades civis, mas o regime ainda mantém o controle. Especialistas indicam que uma ruptura só ocorreria se as forças repressivas abandonassem o sistema, algo que ainda não aconteceu.
O comandante supremo, o aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, mantém sua liderança apoiado por um núcleo leal, incluindo a Guarda Revolucionária, que desempenha papel crucial na política, economia e segurança nacional. Para esse grupo, a preservação do regime permanece como prioridade máxima.
O aumento da tensão internacional, impulsionado pelas provocações de Washington, elevou o clima de instabilidade no topo da hierarquia do poder. Especialistas alertam que uma intervenção militar poderia tanto reforçar os protestos quanto fortalecer o grupo governante, criando uma unidade mais sólida e agravando as divisões internas.
Em meio a esse cenário, Reza Pahlavi, ex-príncipe herdeiro e filho do xá deposto em 1979, voltou a ocupar espaço no debate público ao solicitar apoio internacional, inclusive dos Estados Unidos. Seus pronunciamentos geraram controvérsia, especialmente devido à sua proximidade com Israel e à rejeição enfrentada por parte de setores da diáspora iraniana.
Vozes influentes, como a ativista Narges Mohammadi, vencedora do Nobel da Paz, e o cineasta Jafar Panahi, defendem uma transição pacífica, conduzida de dentro do próprio país. Ainda assim, recentes declarações de Pahlavi parecem ter motivado novos protestos, mesmo com temperaturas extremas e forte repressão.
Simbolicamente, bandeiras do Irã pré-revolução têm reaparecido, indicando o desejo de ruptura de parte da população. Pahlavi afirma que não pretende restaurar a monarquia, mas liderar uma transição rumo à democracia, embora seu papel como líder unificador seja questionado por muitos.
Para uma parcela da sociedade iraniana, incluindo apoiadores do regime, o medo do colapso total, do caos e do agravamento da crise econômica prevalece. Para eles, reformas graduais ainda parecem uma alternativa menos arriscada do que uma revolução abrupta.
A história do Irã revela que momentos em que a pressão popular encontra resistência do Estado são imprevisíveis e repletos de perigos. Mudanças podem vir de cima ou de baixo, mas sempre acarretando custos. É nesse cenário de incerteza que os próximos dias se tornam decisivos para o destino do país.