A condição das gengivas revela muito sobre o estado geral de saúde: a periodontite, uma inflamação persistente que afeta os tecidos de suporte dos dentes, é um sinal de alerta que vai além do cuidado oral.
Essa enfermidade, bastante comum e frequentemente subdiagnosticada, está relacionada a um aumento na probabilidade de desenvolver outras doenças, como problemas cardíacos e metabólicos.
Uma profissional de higiene bucal realiza atendimento em uma clínica em Miami (EUA). Matias J. Ocner (Miami Herald/Getty Images) Jessica Mouzo 07 de janeiro de 2026 - 01:30 BRT Compartilhe via WhatsApp Compartilhe no Facebook Compartilhe no Twitter Compartilhe no Bluesky Compartilhe no LinkedIn Copiar link 16 comentários
Nosso corpo é habitado por bilhões de microrganismos, formando comunidades extremamente diversificadas, como o microbioma intestinal, que desempenha funções essenciais à saúde. Essa biodiversidade está presente também na pele, na vagina, nos pulmões e na cavidade oral; aliás, os micróbios que residem na boca, porta de entrada para o interior do organismo, têm papel crucial na manutenção ou na deterioração da saúde.
Quando há um desequilíbrio nesse microbioma bucal, o resultado pode ser a periodontite, uma infecção complexa que compromete os tecidos que sustentam os dentes e está relacionada ao aumento de riscos para enfermidades cardiovasculares e metabólicas. Aproximadamente 11% da população sofre com essa condição, que, se não tratada, resulta em perda dentária e na redução da saúde bucal global.
Contudo, os efeitos da doença ultrapassam as gengivas: ela serve como um indicativo de problemas de saúde mais graves. Sua origem está ligada a condições como diabetes e também aumenta as chances de eventos cardiovasculares ou complicações durante a gestação.
“Não há saúde sem saúde bucal: ela influencia o bem-estar do corpo como um todo”, afirma Paula Matesanz, presidente da Sociedade Espanhola de Periodontia. Segundo ela, a boa notícia é que muitas doenças bucais podem ser prevenidas com medidas simples, como escovar os dentes após as refeições, usar fio dental e enxaguantes bucais quando necessário, além de visitar o dentista anualmente. Assim, além de manter um sorriso bonito, protege-se o organismo inteiro. Problemas cardiovasculares
Ignacio Fernández Lozano, presidente da Sociedade Espanhola de Cardiologia (SEC), destaca uma conexão entre as doenças gengivais e os problemas do coração: “Quem sofre de periodontite tem o dobro ou triplo de risco de sofrer um infarto ou AVC”. Todos esses eventos cardiovasculares podem ser desencadeados por fatores comuns, incluindo tabagismo, estresse, obesidade e diabetes, que também estão ligados à inflamação cronicamente presente na periodontite.
A inflamação de baixo grau gerada pela doença gengival promove um desequilíbrio microbiológico no corpo, permitindo que bactérias se proliferem sob as gengivas e destruam o tecido que conecta os dentes ao osso, levando à perda de suporte e eventual queda dental. Essa resposta inflamatória, embora pareça uma defesa do organismo, acaba agravando a situação, dificultando o combate às bactérias.
O tratamento adequado inclui limpezas profundas para remover as bactérias acumuladas sob as gengivas, embora a perda do tecido de suporte seja irreversível. Ainda assim, é possível viver sem a doença, desde que os fatores de risco não retornem, ressalta o especialista.
Sinais de alerta
Indicadores de que a periodontite está se agravando incluem sangramento gengival, inflamação, mau hálito, dentes móveis, dentes que parecem mais longos ou espaços entre eles. Esses sinais nem sempre ocorrem juntos ou na mesma intensidade, explica Matesanz.
A inflamação na boca acarreta riscos sérios, como a perda dentária, mas também evidencia uma relação com doenças de outros órgãos. Uma inflamação contínua na boca pode desencadear respostas inflamatórias em todo o corpo, que contribuem para o desenvolvimento de doenças crônicas, como artrite reumatoide, alguns tipos de câncer e condições como doenças do cérebro, incluindo Alzheimer.
Apesar das evidências, os especialistas esclarecem que a periodontite não causa diretamente essas doenças, mas serve como um marcador de risco. Tratar a gengivite é uma estratégia importante para prevenir complicações mais graves, promovendo o bem-estar geral.
Gengivite, gravidez e outras condições
A inflamação decorrente da periodontite também influencia a gestação, não porque ela seja uma consequência direta, mas porque a condição preexistente, não tratada, tende a piorar durante a gravidez. Assim, manter a saúde bucal é fundamental para evitar problemas como parto prematuro, baixo peso ao nascer e pré-eclâmpsia, reforça Matesanz.
A relação entre diabetes e periodontite é bidirecional: a doença gengival aumenta a possibilidade de desenvolver o distúrbio metabólico e dificulta seu controle, agravando o quadro geral. Ambos compartilham fatores de risco, como sedentarismo, alimentação inadequada, tabagismo e estresse, que favorecem o surgimento de ambas as condições.
Além disso, bactérias bucais podem alcançar outros órgãos pelo sangue, atingindo o cérebro, o coração, os pulmões e o pâncreas, aumentando o risco de doenças como Alzheimer, doenças pulmonares obstrutivas crônicas e pneumonia. Estudos também indicam possíveis ligações entre periodontite e problemas cognitivos, com a inflamação sistêmica atuando como agente desencadeador.
A saliva e a placa bacteriana na boca podem atuar como reservatórios de micróbios nocivos, que, ao circularem pelo corpo, podem afetar diversos sistemas. Ainda que não haja uma relação causal direta, a comunidade científica considera importante tratar a saúde bucal como parte de uma estratégia de prevenção para várias enfermidades, incluindo as cardíacas e as neurodegenerativas, reforçando que cuidar da boca é cuidar de toda a saúde.