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Mundo
11/01/2026 07:00:00

Conflito em Aleppo: fim declarado pela Síria, mas resistência curda persiste

Civis continuam em confronto após alegações de encerramento de operações militares na região norte da cidade

Conflito em Aleppo: fim declarado pela Síria, mas resistência curda persiste

Nos últimos cinco dias, aproximadamente 155 mil residentes que habitavam os bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh, majoritariamente curdos, abandonaram suas residências devido aos intensos conflitos entre as forças sírias e as forças curdas, conforme comunicado pelo governo de Damasco neste sábado (10).

O deslocamento foi motivado pelo aumento na violência nas áreas afetadas, levando os habitantes a procurar refúgio em outras regiões de Aleppo ou na província, detalhou o governador Azzam al-Gharib em coletiva de imprensa.

As batalhas entre as forças do governo e os curdos marcaram o período mais violento desde a queda do ex-presidente Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, com pelo menos 21 civis mortos até agora.

O aumento na hostilidade coincide com esforços de ambas as partes para implementar um acordo firmado em março de 2025, que visa integrar as estruturas administrativas curdas e as Forças Democráticas Sírias (FDS) ao novo Estado sírio.

Na manhã deste sábado, o exército sírio declarou que concluiu suas operações contra o último bastião do grupo étnico na cidade, uma afirmação que as forças curdas contestam, alegando que os combates ainda continuam. Testemunhas relataram tiros na manhã e a entrada de tropas no distrito, além de civis sendo resgatados de suas residências pelos soldados.

Após retomar o controle de Ashrafieh, outro bairro sob domínio curdo, o Exército afirmou, através de um comunicado oficial à agência Sana, que "as operações militares em Sheikh Maqsoud chegaram ao fim às 15h (9h de Brasília)".

Segundo o texto, os combatentes curdos seriam transferidos para Tabaqa, cidade controlada por eles ao nordeste da Síria. Contudo, as forças curdas refutaram as declarações, classificando-as como “sem fundamento” e insistindo que os confrontos continuam. Relatos de tiros e testemunhas oculares indicam que o conflito ainda não foi totalmente resolvido.

Elham Ahmed, uma figura de destaque na administração curda na Síria, não descartou uma possível retirada, mas ressaltou que a condição fundamental para isso seria a manutenção da "proteção local" aos moradores curdos de Aleppo.

Ela afirmou na sexta-feira que o governo busca enfraquecer os acordos através de ataques, mas que os curdos permanecem comprometidos em cumpri-los e em sua implementação.

O enviado dos Estados Unidos para a Síria, Tom Barrack, reafirmou, em reunião com o ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Ayman Safadi, o compromisso de Washington de promover a "retirada pacífica" das Forças Democráticas Sírias de Aleppo e assegurar a proteção dos civis.

Em uma mensagem postada na rede social X, Barrack pediu que todos os envolvidos mantenham a "máxima contenção", parem de hostilidades imediatamente e retomem o diálogo, com base nos acordos de março e abril de 2025 entre o governo sírio e as FDS.

As forças lideradas pelos curdos, que lideraram a luta contra o Estado Islâmico na Síria e contaram com o apoio dos EUA, continuam sob o apoio de Washington, enquanto o regime de Assad enfrenta múltiplos desafios internos, incluindo massacres de alauítas no litoral em março e violência contra os drusos no sul em julho.

Na entrada de um dos bairros em conflito, civis como Imad al-Ahmad, de 60 anos, aguardavam permissão para retornar às suas casas após quatro dias de refugiamento na residência de uma irmã, enquanto Nahed Mohammad Qassab, uma viúva de 40 anos, relatou que saiu para um funeral e busca resgatar seus três filhos deixados na casa de um vizinho.

Na sexta-feira, o exército permitiu o uso de dois "corredores humanitários" para civis fugirem dos bairros curdos, mesmo com a recusa dos combatentes em se renderem. Segundo fontes militares, eles continuam resistindo com ataques de drones na periferia da cidade, a partir de suas posições ao leste de Aleppo, mesmo após ordens de Damasco para que abandonassem a região.