Uma organização criminosa originária da Venezuela, que adota estratégias semelhantes às empregadas por facções brasileiras, tem chamado atenção das autoridades de segurança e de peritos.
Conhecida como Tren de Aragua, essa entidade começou suas operações dentro do penitenciário e se sustenta ao manipular indivíduos em situação de vulnerabilidade. Atualmente, a gangue possui integrantes espalhados por pelo menos seis estados do Brasil, sendo a maior concentração em Roraima, que faz fronteira com a Venezuela.
A Polícia Civil de Roraima confirmou a presença de membros do grupo também em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
As ações do grupo reforçam semelhanças com organizações criminosas nacionais como o PCC e o Comando Puro, que também praticam extorsões, tráfico de drogas e outros delitos, muitas vezes sob influência ou conexão com o penitenciário. Leandro Piquet Carneiro, especialista em Relações Internacionais, explica que grupos como o Tren de Aragua geralmente surgem dentro de penitenciárias, recrutando indivíduos vulneráveis que se sentem abandonados ou oprimidos pelo Estado, e que procuram lideranças que prometem proteção e assistência.
Em troca, o grupo exige altos valores, incluindo a prática de crimes graves como sequestros, tráfico de drogas e até homicídios, conforme destacou a desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo. "Assim como outras organizações ilegais, o Tren de Aragua teve origem no sistema prisional, explorando pessoas de baixa renda sob custódia do Estado, muitas vezes negligenciadas e submetidas a opressões.
Estes indivíduos buscam apoio nessas lideranças, que vendem uma falsa promessa de auxílio às famílias e de proteção", comenta Carneiro.
O especialista também alerta que o custo desse suporte é elevado, envolvendo crimes severos como extorsão, tráfico e atos violentos que, frequentemente, resultam em mortes. A atuação da facção venezuelana ganhou maior notoriedade após o aumento do conflito entre Estados Unidos e Venezuela.
Em setembro do ano passado, o ex-presidente Donald Trump divulgou vídeos de uma operação contra um barco que transportava o que ele chamou de narcoterroristas venezuelanos e drogas, afirmando que a embarcação pertencia ao Tren de Aragua. Além disso, a organização foi citada em denúncias dos EUA contra Nicolás Maduro, que o acusam de facilitar o crescimento dessas redes criminosas.
No entanto, especialistas avaliam que a prisão de Maduro não produzirá mudanças substanciais na atividade do crime organizado na Venezuela. Leandro Piquet Carneiro observa que a relação entre o regime venezuelano e esses grupos é indireta, pois a instabilidade gerada por uma ditadura favorece a expansão de organizações criminosas, incluindo casos de corrupção militar, sem que haja uma parceria formal.
Ele alerta, ainda, que essa situação pode piorar, pois o enfraquecimento institucional provocado por intervenções recentes dificulta a criação de uma estrutura eficiente de combate ao crime.
Por sua vez, Ivana David reforça que a prisão de Maduro não deve alterar o funcionamento das facções na Venezuela. "Com sua detenção e processo judicial, a estrutura do país e a atuação dessas organizações continuarão inalteradas, operando como sempre fizeram", conclui a desembargadora.