Com a chegada de 2026, substituindo 2025, somos lembrados de como o tempo continua a avançar sem parar, marcado pelas mudanças do calendário. Você já parou para pensar além das datas e relógios?
O que realmente é o tempo, além das medidas convencionais que usamos? Essa reflexão nos leva a questionar a essência do seu funcionamento. Na experiência cotidiana, percebemos o tempo como uma sucessão de acontecimentos, onde o futuro se torna presente e o presente recua para o passado.Embora estejamos convencidos de que o momento presente é tudo que existe, ele é incrivelmente efêmero, desaparecendo a cada instante.
Prepare-se, pois conceitos tradicionais e descobertas atuais na física desafiam nossas ideias mais difundidas sobre o tempo. Essas teorias questionam até mesmo a sua natureza. De acordo com o renomado astrofísico Chamkaur Ghag, da University College London (UCL), até hoje os cientistas não chegaram a um consenso definitivo sobre o que seria o tempo.
No entanto, há um entendimento comum em relação à teoria da relatividade de Albert Einstein: ela descreve um universo onde espaço e tempo estão entrelaçados e influenciam-se mutuamente. Fenômenos que parecem distintos podem ser percebidos de maneiras diferentes, dependendo do movimento do observador, explica Ghag à BBC News Mundo. A relatividade nos mostra que o tempo é uma variável relativa, podendo se dilatar à medida que um objeto se move em velocidades próximas à da luz. Quanto mais rápido uma entidade se desloca, mais lentamente ela percebe o fluxo do tempo.
Além disso, Einstein demonstrou que a passagem do tempo desacelera em presença de campos gravitacionais intensos. Um exemplo famoso aparece no filme Interestelar (2014), dirigido por Christopher Nolan, onde um personagem visita um planeta sob forte influência gravitacional.
Ao retornar, ele encontra um colega que envelheceu 23 anos, enquanto ele passou pouco mais de uma hora. Essa dilatação foi confirmada experimentalmente por meio de relógios atômicos de alta precisão e aceleradores de partículas, além de ondas gravitacionais detectadas por instrumentos específicos, confirmando algumas das previsões de Einstein.
Outro princípio aceito na física é que o tempo sempre avança e nunca retrocede, reforçando a direção unidirecional da causalidade, segundo Ghag. Contudo, uma teoria emergente — a pós-quântica da gravidade clássica — sugere que o tempo poderia oscilar de forma aleatória em certas regiões do cosmos, aumentando sua complexidade. Jonathan Oppenheim, pesquisador do Instituto de Ciência e Tecnologia Quântica da UCL, explica que essas flutuações ocorrem devido à interação entre o comportamento imprevisível do mundo quântico e as regras estruturais do espaço-tempo, que são mais previsíveis.
Essa teoria poderia explicar fenômenos como partículas que parecem estar em dois lugares simultaneamente ou conexões instantâneas entre objetos distantes. Mas será que tudo isso é uma ilusão? Stephen Hawking, em seu livro Uma Breve História do Tempo, propôs o conceito de "tempo psicológico", uma forma como nosso cérebro interpreta a passagem do tempo.
Ghag comenta que a neurociência ainda não compreende completamente por que nossa mente organiza o tempo em passado, presente e futuro. Nossa percepção pode estar limitada por um entendimento simplificado de uma realidade muito mais complexa. Como funcionam exatamente essas categorias no universo ainda é uma questão em aberto, que fascina e desafia os estudiosos.
Outra hipótese intrigante é a de que o passado ainda exista em alguma dimensão do universo. Ghag explica que, por ser espaço e tempo inseparáveis e em constante interação, cada evento ocorre em um ponto distinto do espaço-tempo. Assim, nossa sequência de momentos parece uma sucessão de instantâneos. Para ilustrar, imagine que você está lendo agora.
Seu "eu" atual ocupa um ponto no espaço-tempo diferente daquele de um segundo atrás, que continua a existir em um plano distinto, mesmo que você não o perceba. Se fosse possível localizar exatamente esses eventos passados e viajar até eles — algo altamente improvável —, poderíamos encontrar versões anteriores do nosso próprio eu. Uma ideia que tanto encanta quanto assusta. Quanto ao presente, a física indica que tudo que percebemos como "agora" consiste em eventos que, para nós, ocorrem simultaneamente.
Entretanto, devido às possíveis variações na dilatação do tempo, ele poderia ser mais uma espécie de duração contínua do que um momento preciso, tornando o agora uma construção mais duradoura. E o futuro? Com o começo de um novo ciclo anual, surge a dúvida se podemos ou não influenciar o que está por vir. A noção de livre-arbítrio entra em conflito com a ideia de que o futuro poderia estar inicialmente predeterminado, o que facilitaria sua previsão, mas também levantaria paradoxos.
Alguns cientistas sugerem que nossas escolhas podem moldar o futuro, enquanto outros defendem que, se conhecêssemos todas as possibilidades, poderíamos antecipar tudo. Contudo, essa prática criaria um paradoxo, pois o conhecimento do que acontecerá alteraria o resultado. Ghag admite que a ciência ainda não possui uma resposta definitiva sobre o que é o futuro.
Ainda assim, a esperança humana de transformação permanece forte, alimentada pela possibilidade de que podemos influenciar o amanhã, inclusive o ano que se inicia agora.