Após quase sete horas do surpreendente ataque realizado pelos Estados Unidos contra a Venezuela e da detenção do presidente Nicolás Maduro neste sábado (3/1), o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma declaração criticando a ação militar americana.
Na manhã de sábado, às 9h59, Lula utilizou sua conta na plataforma X para afirmar que os bombardeios na Venezuela e a prisão de Maduro ultrapassam limites aceitáveis, configurando uma grave afronta à soberania venezuelana e criando um perigoso precedente para o cenário internacional.
De acordo com o chefe do Executivo, intervenções militares contra países violam explicitamente o direito internacional, alimentando um quadro de violência, desordem e instabilidade, onde a força prevalece sobre o consenso multilateral.
Os ataques iniciaram por volta das 2h da madrugada, horário local na Venezuela, ou seja, às 3h em Brasília, com bombardeios em Caracas que causaram danos visíveis e interrupções no fornecimento de energia elétrica na capital venezuelana.
Na sua avaliação, o uso da força militar como resposta reflete uma postura semelhante às intervenções anteriores na América Latina e no Caribe, relembrando os piores episódios de ingerência na política regional e ameaçando a paz e estabilidade da área.
O presidente brasileiro ressaltou que a comunidade internacional, através da Organização das Nações Unidas (ONU), deve agir com firmeza diante desse episódio e reforçou que o Brasil condena veementemente as ações promovidas, colocando-se à disposição para esforços de diálogo e cooperação.
O atraso na manifestação de Lula acontece em um momento de tensões crescentes com a Venezuela e de tentativas de aproximação com o governo de Donald Trump. O Itamaraty informou à BBC News Brasil que investiga os detalhes do ocorrido na Venezuela e que, durante a escalada de tensões recentes, o governo Lula havia garantido que condenaria qualquer ataque ao país vizinho.
Na rede social Truth Social, o ex-presidente norte-americano Donald Trump afirmou que os EUA executaram uma operação de grande porte na Venezuela, capturando Maduro e sua esposa por via aérea. Ele também anunciou que mais detalhes seriam divulgados em uma coletiva marcada para as 11h (horário local na Flórida) em Mar-a-Lago.
Imagens de moradores e vídeos mostram explosões e fumaça sobre Caracas, além de relatos de algumas áreas sem energia elétrica. Antes do pronunciamento de Trump, o governo venezuelano classificou o ataque como uma agressão militar sem precedentes, condenando duramente a ação dos EUA e solicitando apoio internacional.
Para a especialista em relações internacionais Marsiéla Gombata, a demora de Lula em se pronunciar evidencia as dificuldades do Brasil em retomar seu protagonismo na região, como nos tempos dos governos Lula I e II. Ela acrescenta que o primeiro a reagir foi o presidente argentino Javier Milei, que comemorou o ataque exaltando a liberdade, o que revela um cenário de instabilidade e polarização na América Latina.
Gombata enfatiza a importância de instituições sólidas de articulação regional, como a antiga União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que desempenhou papel fundamental em crises anteriores, como a Assembleia Constituinte na Bolívia em 2008. Ela também destaca que atualmente potências como China e Rússia, aliadas de Maduro, provavelmente irão protestar contra os ataques americanos, embora suas próximas ações ainda sejam incertas.
O chanceler venezuelano Yván Gil confirmou ter conversado com o ministro brasileiro Mauro Vieira, que condenou veementemente a intervenção militar, demonstrando solidariedade ao país vizinho. Gil também agradeceu publicamente as manifestações de apoio do Brasil em suas redes sociais.
De acordo com Gombata, a situação na Venezuela tende a se agravar, com grupos chavistas e diversos atores políticos internos resistindo às ações do governo Maduro, o que pode resultar em momentos difíceis para o país. No cenário internacional, ela prevê que Rússia e China, principais aliados de Maduro, condenarão os ataques, aguardando suas próximas medidas.