A ofensiva militar liderada pelos Estados Unidos na Venezuela foi interpretada por analistas como um sinal direto de Washington para os países latino-americanos e demais grandes nações do mundo.
João Pedro Martins, doutor em Relações Internacionais e docente na Universidade Federal de Roraima (UFRR), afirma que a operação contra Nicolás Maduro e a consequente remoção do líder venezuelano representam uma demonstração de poder dos EUA na América Latina.
Segundo o especialista, o governo de Donald Trump busca consolidar a noção de que o continente é uma esfera de influência exclusiva dos Estados Unidos, rejeitando a intervenção de outras nações.
Na madrugada, forças militares americanas obrigaram Maduro e a primeira-dama Cilia Flores a deixarem a Venezuela sob força, com destino a Nova York, para serem julgados. Martins destaca que as ações de Trump nos últimos meses indicam uma tendência de intensificação da intervenção internacional.
“Historicamente, os EUA atuaram diversas vezes em outros países. Mesmo durante o mandato de Trump, houve intervenções, como na eleição do Congresso na Argentina, na administração Milei, além de operações relacionadas a empréstimos e liberação de recursos. Essa postura intervencionista tem se tornado mais frequente,” afirmou ao portal A Crítica.
O professor alerta que esse cenário provoca preocupação, principalmente diante das próximas eleições no Brasil, Peru e Colômbia, países governados por partidos de esquerda ou centro-esquerda. A intervenção na Venezuela serve como uma mensagem direta de Washington aos Estados latinos.
“Isso exige que os países da América Latina repensem suas estratégias de atuação, buscando fortalecer um regionalismo mais coeso que permita respostas conjuntas, mesmo em um contexto polarizado e com diferentes visões de mundo,” complementou Martins.
Em relação às consequências, João Pedro analisa que a ação militar dos EUA na Venezuela evidencia um enfraquecimento da ordem do direito internacional e do princípio do multilateralismo, que prioriza a busca por consensos e soluções compartilhadas.
“Outro ponto importante é que essa iniciativa serve de justificativa para ações militares americanas fora de seu território, uma preocupação que foi destaque na campanha eleitoral de Trump. A intervenção na Venezuela faz parte desse contexto, assim como no Iraque,” explicou.
Ele também destaca que a remoção de Maduro não garante a queda do chavismo na Venezuela, podendo fortalecer facções internas, dependendo da capacidade de articulação do sistema político local. O especialista lembra que, apesar das crises, o movimento chavista está no poder há mais de duas décadas.
“Outro aspecto relevante é que a retirada pontual de figuras-chave, que pode gerar conflitos jurídicos, enfraquece a autoridade dos tribunais internacionais. Os EUA ainda não indicaram qual será o papel do país na reconstrução venezuelana após essa intervenção,” afirmou.
De acordo com Trump, os Estados Unidos irão administrar a Venezuela de forma temporária até que um novo governo seja estabelecido.
Em termos econômicos, o impacto na fronteira brasileira pode ser significativo, com a possível entrada de maior número de refugiados venezuelanos, preocupando as autoridades brasileiras.
Roraima e Amazonas, estados altamente dependentes de importações venezuelanas, podem sofrer consequências econômicas devido à mudança na dinâmica do comércio.
“As operações comerciais entre o Brasil e a Venezuela, concentradas nos estados do Norte, também podem sofrer alterações, o que pode afetar a economia local e as relações bilaterais,” concluiu Martins.