Recentes agitações no Irã revelam uma crescente insatisfação social impulsionada por uma grave crise financeira. Os tumultos, que resultaram em várias mortes, tiveram início com manifestações pacíficas de comerciantes e estudantes, mas evoluíram para confrontos violentos com as forças de segurança. De acordo com informações da agência de notícias Fars, pelo menos seis civis e um policial perderam a vida em episódios ocorridos em cidades de porte médio na última quinta-feira (01/01).
As regiões afetadas incluem Lordegan, no sudoeste, onde dois civis foram mortos, e Azna, na província de Lorestan, onde três pessoas foram vítimas de confrontos armados. Além disso, um oficial de segurança foi morto em Kuhasht, também na zona oeste do país.
As manifestações, inicialmente motivadas por uma greve de comerciantes, ganharam força ao contar com o apoio de estudantes, e representam o maior desafio ao governo desde o movimento 'Mulheres, Vida, Liberdade' de 2022, que resultou na morte da jovem Mahsa Amini na prisão.
Analistas indicam que esses protestos refletem um descontentamento político profundo e uma crescente perda de confiança na liderança do regime. Vídeos amplamente compartilhados nas redes sociais mostram as forças policiais usando gás lacrimogêneo e tiros de borracha para dispersar os manifestantes. As críticas se dirigem ao líder supremo Ali Khamenei e às políticas externas, enquanto slogans como 'morte ao ditador' e 'minha vida pelo Irã' ecoam nas manifestações.
Especialistas, como Kasra Qaredaghi, doutorando em ciência política na Universidade da Flórida Central, apontam que os protestos geralmente começam por questões econômicas, mas rapidamente se transformam em uma demanda por mudanças políticas mais amplas. Segundo ele, a crise econômica, marcada por uma inflação superior a 42% e uma desvalorização do rial para um recorde de 1,4 milhão de riais por dólar, tem tornado a vida diária insustentável para muitos iranianos.
Ativistas como Adnan Hassanpour destacam que o aumento do custo de vida, aliado à estagnação salarial e à insegurança no emprego, alimenta o descontentamento popular. Além disso, a crise financeira é agravada por uma combinação de 'choque cambial' e 'inflação contínua', o que impede que cidadãos e empresas tomem decisões econômicas básicas, como poupar ou planejar.
O governo iraniano responde às manifestações com medidas que incluem trocas na liderança do Banco Central, além de diálogos com representantes dos protestantes. Entretanto, as autoridades minimizam a gravidade dos protestos, atribuindo-os a questões de subsistência e classificando-os como fenômenos 'apolíticos'. Ainda assim, analistas avaliam que tais ações são paliativas e insuficientes para resolver a insatisfação geral.
O procurador-geral alertou que qualquer tentativa de transformar esses protestos em tumultos deve ser combatida com repressão severa. Historicamente, manifestações como as de 2022 foram brutalmente reprimidas, resultando em centenas de mortos e milhares de presos, segundo organizações de direitos humanos.
Perspectivas de seus opositores no exílio sugerem que esses distúrbios podem marcar o fim do regime instaurado após a Revolução de 1979. Personalidades como Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz, declarou que o sistema está em seus últimos dias e exortou os iranianos a se unirem para derrubar a atual tirania. Reza Pahlavi, filho do último monarca do país, também pediu que a população se junte às manifestações, afirmando que o regime está em colapso e que suas forças não devem se opor ao povo.
Por sua vez, o ativista político preso Mostafa Tajzadeh, em comunicado feito na prisão de Evin, alertou que a ausência de uma saída clara para a crise pode conduzir rapidamente o Irã ao caos e à anarquia, agravando ainda mais a instabilidade política do país.