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31/12/2025 14:00:00

Desafios na Inclusão Digital: Por que Muitos Brasileiros Ainda Não Utilizam o Pix

Apesar do sucesso da ferramenta, obstáculos como acesso à tecnologia, escolaridade e conectividade continuam excluindo uma parcela significativa da população

Desafios na Inclusão Digital: Por que Muitos Brasileiros Ainda Não Utilizam o Pix

Embora a implementação do Pix pelo Banco Central, concluída após cinco anos, tenha sido considerada bem-sucedida, quase um quarto dos brasileiros ainda permanecem à margem do sistema, especialmente os mais vulneráveis, incluindo idosos, residentes rurais, pessoas com menor nível de escolaridade e os mais pobres.

De acordo com dados recentes, 23,6% dos brasileiros ainda não utilizam o Pix, apesar de esforços para modernizar os meios de pagamento desde seu lançamento em 2020. Em novembro, a plataforma completou cinco anos, e uma pesquisa do próprio Banco Central revelou que, na época do início, a adesão já atingia 76,4%.

O objetivo do Banco Central era proporcionar uma alternativa de transferência bancária gratuita, digital e instantânea, mas diversos fatores impedem que essa facilidade seja acessível a todos.

Problemas relacionados ao acesso à internet, uso de smartphones e dificuldades na utilização da ferramenta continuam afastando uma parte da população do sistema. Viviane Fernandes, especialista em Infraestrutura Digital do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), destaca que, embora o Pix seja uma política de inclusão financeira de sucesso, seu alcance ainda é limitado devido às barreiras de acesso para quem não possui ferramentas ou conhecimentos necessários.

"O sucesso do Pix em promover inclusão financeira é notável, mas é fundamental ampliar essa cobertura para garantir que todos possam participar. Quem realmente consegue acessar o Pix? Quem tem as ferramentas e o entendimento para utilizá-lo?" ela questiona. A pesquisa do Idec "Desafios do Pix e Gov.br: soberania, segurança e inclusão das IPDs brasileiras" lista grupos excluídos: pessoas com baixa escolaridade, indivíduos de renda reduzida, moradores de regiões rurais ou remotas, pessoas sem acesso à internet e pessoas com deficiência.

Segundo o estudo, esses perfis enfrentam obstáculos cognitivos, técnicos, estruturais e culturais que dificultam a adesão aos meios digitais de pagamento. Dados do Banco Central revelam que a adesão ao Pix é mais elevada entre os jovens, com 91,2% dos adultos de 25 a 34 anos utilizando a ferramenta, enquanto entre os maiores de 60 anos, a taxa cai para 43,9%. Ainda, usuários de renda mais alta (acima de 10 salários mínimos) representam 91,7% dos que utilizam o Pix, contra 67,8% dos que recebem até dois salários mínimos.

Entretanto, são justamente os indivíduos mais pobres que mais recorrem ao Pix para transações de valores menores. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) indica que, nas regiões de maior renda e escolaridade, há uma oferta mais ampla de métodos de pagamento, como cartões de crédito, utilizados, por exemplo, para acumular milhas.

Além do acesso, há aqueles que possuem o Pix, mas não sabem operá-lo de forma independente. É o caso de Antonia Gonçalves, de 76 anos, que mora no Incra 7, área rural do Distrito Federal. Sempre que precisa fazer pagamentos usando a plataforma, ela solicita ajuda de um dos cinco filhos para realizar as operações. "Toda vez tenho que pagar o plano de saúde e os funcionários, peço à minha filha para agendar, porque não sei abrir o Pix ou colocar a chave de acesso", conta. "Se não fizer assim, não consigo pagar. Meu celular é antigo, só serve para ligar".

Ela também enfrenta dificuldades de conectividade, chegando a ficar até três dias sem sinal de internet, tendo que se deslocar de carro por dois quilômetros até uma estrada principal para captar o sinal necessário. Lauro Gonzalez, pesquisador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, afirma que a exclusão do Pix está diretamente relacionada às questões de exclusão digital, que afetam especialmente os grupos mais vulneráveis.

Ele enfatiza que, apesar do alto nível de adesão, é necessário combater a desigualdade no acesso à internet e aos dispositivos necessários para utilização do sistema. Dados da pesquisa TIC Domicílios 2025 indicam que 15% dos brasileiros não acessam a internet. Entre eles, a taxa de conexão na classe A chega a 99%, enquanto nas classes D e E fica em 73%. Ainda, 39% dos internautas tiveram o pacote de dados do celular esgotado nos últimos três meses.

O estudo da FGV aponta que, em municípios com menor conectividade, a utilização do Pix é significativamente menor. Segundo Gonzalez, fatores como conexão de baixa qualidade, altos custos de planos de dados e aparelhos tecnológicos desatualizados contribuem para a exclusão digital.

O Banco Central planeja lançar, nos próximos anos, uma versão do Pix offline, que permitiria realizar transações sem conexão à internet. Em uma reunião plenária de 4 de dezembro, o projeto foi adiado para 2027, conforme relato de Fernandes. Enquanto essa solução não se concretiza, cidadãos como Antonia estão buscando alternativas. Ela revela que está frequentando um curso de informática há um mês, aprendendo a usar o WhatsApp e a enviar sua localização, afirmando que "não posso ficar para trás, preciso avançar".

De acordo com uma pesquisa de junho do ano passado realizada pela consultoria Fiserv, 12% dos que não utilizam o Pix atribuem sua ausência à instabilidade da rede de internet, e 21% se sentem excluídos ou considerados ultrapassados por não usarem a ferramenta. Além disso, o nível de escolaridade também influencia o uso do sistema, já que sua operação exige conhecimentos em tecnologias digitais.

Os dados de 2024 do Indicador de Alfabetismo Funcional mostram que 29% de jovens e adultos de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais, com 71% tendo baixo desempenho digital. Entre aqueles com alfabetização elementar, apenas 46% demonstram habilidades digitais médias, enquanto 68% dos que possuem alto nível de alfabetização apresentam alta destreza digital.

Esses fatores contribuem para o pouco uso do Pix por parte de segmentos mais vulneráveis. Especialistas acreditam que a disseminação universal do Pix é possível, desde que sejam superadas as barreiras de exclusão digital. Para isso, é fundamental desenvolver interfaces mais acessíveis e intuitivas nos aplicativos bancários, considerando diferentes níveis de habilidade digital. Além disso, canais de suporte presencial ou telefônico podem ser essenciais para auxiliar quem encontra dificuldades. Outra alternativa que vem sendo discutida é o Pix Offline, que visa possibilitar transações mesmo sem conexão à internet.

Apesar de estar na agenda do Banco Central desde 2023, o desenvolvimento do sistema foi postergado para 2027, segundo Fernandes. Enquanto as soluções tecnológicas não se tornam realidade, pessoas como Antonia continuam buscando formas de se adaptar.

Ela relata que está aprendendo cada vez mais, agora consegue até enviar sua localização pelo WhatsApp, reforçando que "não posso ficar para trás, preciso seguir em frente".