O cenário do comércio global, que vivenciou uma de suas transformações mais profundas neste século, prevê uma fase de novos obstáculos e volatilidade até o ano de 2026.
Apesar das tensões geradas pelas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos, o fluxo de produtos ao redor do mundo permaneceu relativamente estável durante 2025. No entanto, mudanças essenciais devem influenciar o comércio mundial nas próximas temporadas. Conforme informações divulgadas pelo experiente especialista em navegação marítima John McCown nesta semana, houve um crescimento de 2,1% nos volumes globais de contêineres em outubro, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Por outro lado, uma análise detalhada evidencia que os Estados Unidos apresentaram uma redução de 8% nas suas importações de contêineres, enquanto regiões como América Latina, África, Oriente Médio e Índia exibiram forte expansão nesse setor.
Em seu relatório divulgado na última segunda-feira (22), McCown salientou que as cadeias globais de suprimentos já estão em fase de adaptação e reestruturação, refletindo as mudanças nos padrões comerciais. Após um aumento de 15,2% nas importações de contêineres pelos EUA em 2024, as previsões para 2025 divergem bastante, sendo considerada uma expectativa de crescimento semelhante como um exagero.
As políticas implementadas por Donald Trump, que causaram incertezas e ameaças ao comércio, foram apontadas pelo especialista como principais forças motrizes na reorganização do fluxo de cargas. Para McCown, 2026 deverá ser marcado pelas consequências dessas políticas tarifárias, ao passo que 2025 foi dominado pelas ações de implementação dessas medidas.
Profissionais do setor indicam que as semanas vindouras podem trazer maior instabilidade, com quatro pontos centrais em debate: a revisão do acordo de livre comércio do Norte da América, os efeitos de uma possível retomada do tráfego pelo Mar Vermelho, as negociações comerciais envolvendo China, Indonésia, Malásia e Camboja, além das incertezas relacionadas às tarifas impostas pelos EUA.
O acordo USMCA, que substituiu o Nafta em 2020, encontra-se em fase de revisão, podendo gerar alterações profundas. Segundo Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, a consulta pública recebeu mais de 1.500 respostas, demonstrando um forte apoio ao tratado, embora a maioria tenha solicitado melhorias. Qualquer modificação, entretanto, pode prejudicar uma das partes e complicar as relações comerciais já tensas entre Washington, Ottawa e o México.
No âmbito marítimo, a possível retomada do tráfego no Mar Vermelho, impulsionada pela redução dos ataques na região após o acordo de paz em Gaza, pode sobrecarregar a capacidade de transporte global, agravando problemas logísticos similares aos enfrentados durante a pandemia de COVID-19, alertam especialistas.
O aumento da demanda, combinado à previsão de crescimento acelerado da economia americana em 2026 — com potencial de elevação de investimentos e redução das taxas de juros —, também pode sobrecarregar o setor de transporte marítimo, segundo Lars Jensen, CEO da Vespucci Maritime.
Quanto às negociações internacionais, o cenário permanece instável. Muitos acordos assinados na gestão Trump estão sob questionamento e podem ser desfeitos, com países como Indonésia, Malásia e Camboja resistindo às pressões de Washington, enquanto a União Europeia e a Índia enfrentam negociações complexas. A possibilidade de retaliações de Pequim contra os acordos firmados com os EUA aumenta a volatilidade.
A decisão ainda pendente na Suprema Corte dos EUA sobre as tarifas recíprocas de Trump é vista como uma das principais incógnitas para o próximo período, podendo determinar o rumo das relações comerciais do país. Caso essas tarifas sejam anuladas, o governo precisará reembolsar os importadores, tarefa complexa e difícil de implementar.
Especialistas estimam uma probabilidade de cerca de 75% de Trump perder essa ação judicial, o que obrigaria o governo a buscar novas autoridades para estabelecer tarifas. Por ora, Greer evita prognósticos concretos para 2026, atribuindo a decisão a fatores políticos do próprio ex-presidente.