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24/02/2024 00:00:00

Como dois anos de sanções do Ocidente têm afetado a Rússia

Invasão da Ucrânia desencadeou onda de retaliações sem precedentes à economia de Moscou. No entanto, país não só não colapsou como dá sinais de crescimento.


Como dois anos de sanções do Ocidente têm afetado a Rússia

Dois anos já se passaram desde o início da invasão em grande escala da Rússia na Ucrânia, e há uma coisa em que os economistas concordam: a economia russa não entrou em colapso, como muitos previram quando União Europeia (UE), Estados Unidos e outros países impuseram sanções sem precedentes após a invasão em fevereiro de 2022.

Agora, o debate sobre a economia da Rússia nas capitais ocidentais tem um tom mais sóbrio. Poucos ainda questionam sua resiliência. O ponto de discórdia é quão sólidas são as bases que sustentam os fortes números atuais do país.

Fundo Monetário Internacional (FMI) previu recentemente que o produto interno bruto (PIB) da Rússia aumentaria 2,6% este ano, alta acentuada em relação à estimativa de outubro. A isso se soma a uma taxa de crescimento de mais de 3% em 2023. Enquanto isso, as receitas do petróleo estão crescendo novamente, e o desemprego está em baixa histórica.

No entanto, as dúvidas persistem. O Kremlin aumentou as despesas com defesa de tal forma que 40% de todos os gastos orçamentários em 2024 serão destinados à defesa e à segurança. Essa é uma economia de guerra, e perigosamente superaquecida, dizem os especialistas.

Há uma crescente escassez de mão de obra e uma inflação persistentemente alta. As sanções também continuam a causar danos, principalmente porque os líderes ocidentais buscam novas maneiras de atingir o poder de compra de Moscou.

A continuidade da guerra, somada à morte em circunstâncias não esclarecidas do líder oposicionista russo Alexei Navalny, levou a UE a editar seu 13º pacote de sanções nesta semana, superando a marca de 2 mil indivíduos, instituições e empresas barrados de fazer negócios com o bloco. A Casa Branca também anunciou, nesta sexta-feira (23/02), mais de 500 novas sanções. 

Como a Rússia conseguiu sobreviver e prosperar

Elina Ribakova, economista do think tank Peterson Institute for International Economics, baseado em Washington, lista três principais razões pelas quais a economia russa tem conseguido se manter tão bem.

A primeira é que o sistema financeiro russo estava suficientemente preparado para resistir à onda de sanções bancárias e financeiras que atingiu o país nas primeiras semanas, já que estava em modo de resposta à crise desde a invasão da Crimeia, em 2014.

A segunda é que a Rússia conseguiu obter ganhos maciços com as exportações de petróleo e gás em 2022, porque as potências ocidentais demoraram muito a enquadrar essas exportações, mesmo quando os preços subiram após a invasão.

O terceiro motivo, segundo Ribakova, é que os controles de exportação não funcionaram o suficiente para impedir que a Rússia usasse outros países para obter mercadorias de que precisa para seu complexo militar-industrial.

Entretanto, Benjamin Hilgenstock, da Escola de Economia de Kiev, diz que é importante lembrar que, embora a economia russa tenha se saído melhor do que o esperado, as sanções ainda tiveram um grande impacto.

"A conclusão ainda é a de que o ambiente macroeconômico da Rússia se deteriorou significativamente e que muito disso se deve às sanções", diz.

Ele destaca como as receitas de exportação russas de petróleo e gás caíram em 2023 em comparação com 2022 e o fato de que o Banco Central russo teve de aumentar as taxas de juros para 16% devido à alta inflação.

Driblando sanções

No entanto, o desempenho da Rússia deve muito à forma como Moscou driblou as sanções. Duas das mais impressionantes são a forma como contornou os controles de exportação para continuar adquirindo produtos ocidentais e como continuou vendendo seu petróleo em todo o mundo, apesar de a aliança ocidental ter introduzido um teto para o preço da commodity em dezembro de 2022.

A medida visava restringir os serviços ocidentais de transporte de petróleo russo caso ele não fosse vendido abaixo de 60 dólares por barril. No entanto, há quase um ano a Rússia vem vendendo seu petróleo a preços próximos aos do mercado.

Isso se deve, em grande parte, à sua chamada "frota fantasma" de navios, que tem ajudado o petróleo russo a alcançar mercados em países como China, Índia e Paquistão sem ter que se sujeitar a esse teto.

Os Estados Unidos têm cada vez mais sancionado navios avulsos e entidades suspeitas de desrespeitarem o teto, algo que Hilgenstock diz ser crucial para limitar os lucros de exportação de petróleo russo.

"Essas medidas podem efetivamente tirar as embarcações da frota fantasma por um período considerável de tempo", ressaltou.

Quanto à restrição do acesso da Rússia a componentes ocidentais por meio de importações de outros países, Hilgenstock aponta para a responsabilidade dos bancos, e destaca uma ordem de dezembro do presidente americano, Joe Biden, autorizando possíveis sanções contra bancos estrangeiros que permitem transações que ajudem a financiar a base militar-industrial da Rússia.

"As instituições financeiras têm um grande papel a desempenhar quando se trata da aplicação de controles especializados, porque podem ver algumas dessas transações no lado financeiro que podem ser muito difíceis de rastrear fisicamente", diz.

Riscos da economia de guerra

Outro fator importante do desempenho econômico da Rússia são os gastos com defesa, que triplicaram desde 2021. "Agora você tem principalmente uma economia de guerra", diz Elina Ribakova. Ela acredita que isso está elevando o PIB, enquanto os altos gastos públicos alimentam a produção de grandes quantidades de mísseis, artilharia e drones.

"Muita atividade é registrada, mas essa não é uma atividade produtiva no médio prazo", diz ela. "Não é bom para a economia. Basicamente, é algo que gera desperdício."

Chris Weafer, um consultor de investimentos que trabalha na Rússia há mais de 25 anos, diz que haverá consequências negativas a longo prazo se os gastos adicionais forem feitos principalmente em bens "consumíveis", em vez de investimentos mais profundos na base industrial do país. "Você esgotará suas reservas e, quando o conflito terminar, você terá uma economia muito mais prejudicada, com muitas dúvidas sobre o que fazer em seguida", disse.

Ucrânia caminha para guerra longa

Ele diz que outro elemento fundamental da economia de guerra do país é a forma como o mercado de trabalho mudou. O serviço militar obrigatório e o fato de que cerca de 1 milhão de trabalhadores altamente qualificados deixaram a Rússia desde 2022 geraram uma escassez de trabalhadores em várias áreas. O desemprego é quase inexistente, mas os salários aumentaram acentuadamente ao longo de 2023.

"Esse aumento na renda realmente tem sido um grande impulsionador desse aumento na inflação do consumo", sublinhou. "Quanto mais tempo eles não forem capazes de lidar com isso, mais desafiador, mais caro e mais prejudicial esse problema da escassez de mão de obra será para a economia."

Até quando a economia pode se sustentar

No entanto, a economia russa já desafiou previsões terríveis anteriormente. Weafer afirma que a enorme base de recursos do país foi constantemente subestimada quando as sanções foram aplicadas. Ele aponta para a importância contínua que o petróleo e gás da Rússia possuem para os mercados globais, além de commodities como o urânio, que os EUA ainda compram em grandes quantidades.

Ele diz que a UE, em particular, se envolveu demais no que ele chama de "economia política".

"Eles dirão 'a economia não entrou em colapso em 2022 ou 2023, mas entrará agora por causa dos gastos industriais militares e isso fará com que a economia entre em colapso'", diz ele. "Isso é apenas economia política. Isso é wishful thinking [o que eles gostariam que acontecesse]."

Para Ribakova, o destino da Ucrânia continua intimamente ligado ao desempenho econômico da própria Rússia. Ela diz que, embora as sanções nunca sejam suficientes para impedir a agressão russa, é vital que a aliança ocidental faça mais para limitar ainda mais a capacidade do Kremlin de prosseguir com a guerra.

"Estamos dando apoio financeiro à Ucrânia com uma mão e também damos à Rússia com a outra mão. Ainda estamos comprando a energia deles, não estamos aplicando totalmente o limite do preço do petróleo e o embargo, e ainda não estamos aplicando totalmente os controles de exportação", diz ela. "Esse é um problema enorme."

dw..com/pt-br/



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