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Acidente
31/01/2024 02:00:00

Se a UNRWA desaparecer, os palestinos perdem “um dos principais símbolos do seu reconhecimento”


Se a UNRWA desaparecer, os palestinos perdem “um dos principais símbolos do seu reconhecimento”

A Agência da ONU para os Refugiados Palestinos (UNRWA, na sigla em inglês) está sob ataque acirrado de Israel, desde que foram divulgadas denúncias sobre a participação de empregados do órgão no ataque do Hamas em território israelense, em 7 de outubro. Paulatinamente, países doadores anunciam a suspensão de ajuda financeira. Especialistas alertam para as consequências de um colapso da agência.

A UNRWA diz em comunicado que demitiu os empregados e que vai se submeter a uma investigação independente por especialistas externos. Mas o alto comissário Philippe Lazzarini, responsável pela agência, alerta que a “UNRWA é a principal agência humanitária em Gaza, com mais de dois milhões de pessoas que dependem dela para sobreviver”.

Especialistas e até mesmo militares israelenses questionam as consequências sobre a eventual paralisação das atividades da UNRWA na Faixa de Gaza, como advoga Israel.

Distrair debate público

Johan Soufi, ex-diretor do escritório jurídico da organização na Faixa de Gaza lembra, em entrevista à RFI, que as acusações que resultaram nos anúncios de cancelamento da ajuda à agência ocorreram no mesmo dia em que a Corte Internacional de Justiça (CIJ) pediu que Israel impedisse qualquer ato de genocídio em Gaza. "Esse incêndio é iniciado, tenho a impressão, de uma certa maneira, para desviar a atenção e distrair o debate público a outro assunto que não sejam os crimes cometidos na Faixa de Gaza", acrescentou.

Fontes israelenses ouvidas pelo jornal The New Yok Times relataram que líderes militares questionaram se não teria sido um erro desencadear tal furor, “pois o colapso da agência levaria a um enorme vácuo administrativo e logístico em meio a uma crise humanitária”.

Assistência há quase 75 anos

A UNRWA foi criada em 1949 com o “mandato de fornecer assistência humanitária e proteção aos refugiados palestinos registrados na área de operações da Agência, enquanto se aguarda uma solução justa e duradoura para a sua situação”, diz o site da agência. “Dezenas de milhares de refugiados palestinos que perderam as suas casas e meios de subsistência devido ao conflito de 1948 continuam deslocados e ainda necessitam de apoio, quase 75 anos depois”, acrescenta.

Hoje são quase seis milhões de refugiados mantidos pela UNRWA na Jordânia, Faixa de Gaza, Cisjordânia, Síria e Líbano.

Campos de refugiados financiados pela UNRWA
Campos de refugiados financiados pela UNRWA © Studio Graphique FMM

“A posição de Israel em relação à UNRWA é bastante complexa”, analisa o pesquisador Jalal al-Husseini, do Instituto Francês do Oriente Médio em Amã, Jordânia, entrevistado pela RFI. “Por um lado, a UNRWA representa para Israel o símbolo da permanência deste problema que gostaria de ver desaparecer. Por outro lado, na ausência de uma solução, Israel sabe muito bem que a existência da UNRWA é um elemento essencial de estabilidade nos territórios ocupados da Cisjordânia e de Gaza”, explica.

“O estatuto de refugiado foi transmitido de geração em geração, de pai para filho, através da voz patriarcal”, relata o pesquisador. Ele lembra que é um direito que persiste, pois a resolução 194 prevê o retorno às suas casas ou o recebimento de uma compensação. “Enquanto esta resolução da ONU não for implementada ou não houver solução alternativa, a questão dos refugiados permanecerá sem solução.”

Al-Husseini lembra que, por estarem sob a égide da UNRWA, os palestinos não fazem parte do quadro geral dos refugiados, não recebem proteção da ACNUR (Agência da ONU para os refugiados) e não estão cobertos pela Convenção de 1951. "O único elemento tangível do reconhecimento internacional dos refugiados palestinos é esta resolução 194, mas é também o cartão de registo da UNRWA. Se a agência desaparecesse, seria muito grave para os palestinos, no sentido de que perderiam um dos principais símbolos do seu reconhecimento."

O regresso dos refugiados é um ponto sensível das negociações, admite al-Husseini. “A posição palestina evoluiu, nomeadamente a dos líderes palestinos que, desde o final da década de 1980, esclareceram várias vezes que a questão do regresso não deveria conduzir ao fracasso de todas as negociações entre Israel e palestinos”, disse à RFI.

“O que os líderes palestinos têm exigido desde então é que pelo menos Israel reconheça a existência deste direito, cuja implementação dependeria de fatores materiais e também da vontade dos refugiados de regressar ou não. Estamos na quarta geração, alguns podem preferir uma compensação, outros um retorno ou, no mínimo, o reconhecimento de princípio deste direito”, esclarece al-Husseini.

Palestinos reunidos para receber sacos de farinha distribuídos pela UNRWA em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, 29/01/24.
Palestinos reunidos para receber sacos de farinha distribuídos pela UNRWA em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, 29/01/24. REUTERS - IBRAHEEM ABU MUSTAFA

Por um fio

A reportagem da RFI foi até um campo de refugiados palestinos da UNRWA no Líbano para ver de perto as condições no local.

Os refugiados atendidos garantem que o trabalho da agência é primordial, apesar das condições precárias: rede elétrica deteriorada, água corrente rara e lixo nas ruas. Para a costureira Samar Faye Abdelrazik, 45 anos, o atendimento médico seria impossível sem a ajuda dos centros de saúde da agência. Já Ibrahim Shedade, 41 anos, vindo de Yarmouk, na Síria, recebe uma ajuda financeira da UNRWA para alojamento.

Ao assegurar escola, acesso médico e manutenção das infraestruturas, o trabalho da UNRWA é a única rede de segurança dos refugiados palestinos no Líbano, país em grave crise econômica.

Crianças palestinas no campo de refugiados de Ein el-Hilweh, na cidade portuária de Sidon, Líbano (12/09/23).
Crianças palestinas no campo de refugiados de Ein el-Hilweh, na cidade portuária de Sidon, Líbano (12/09/23). 

RFI



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