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08/06/2013 11:27:47 Opinião

Os motoqueiros e o fundamentalismo religioso no Brasil




tudonahora //

ricardo mota

 

Bati meu triste recorde: em um só dia, há cerca de duas semanas, eu vi três acidentes de motos. Todos muito feios. Um “flagrante” que eu dispensaria de bom grado.

 

Essa é uma realidade brasileira, constatada e comprovada pelos números do Ministério da Saúde, através dos chocantes dados do SIM (Sistema de Informações de Mortalidade).

É uma tragédia cotidiana com a qual nos acostumamos. Assim como a morte de uma meninada pobre e sem sonhos, que não os imediatos – o consumo drogas é o mais comum -, que continua a me incomodar terrivelmente.

 

E o que dizem os números do SIM?

 

Que os acidentes com motos e mortes no Brasil cresceram 263,5% em dez anos. O período analisado vai de 2001 a 2011. Uma carnificina nas ruas e avenidas espalhadas pelo país.

Foram 30.524 no primeiro ano pesquisado. Chegaram a 42.425 dez anos depois. Um genocídio que só tem sido potencializada pelos programas de redução dos tributos para alguns setores industriais e a farta oferta de crédito “fácil’ para os que não têm – até porque parecem não existir a “olho nu” – uma alternativa que não a moto.

 

Porque o serviço de transporte coletivo é imprestável em todo o Brasil (é só ver a revolta com o aumento do preço das passagens de ônibus nas nossas capitais); porque a moto se apresenta como a melhor possibilidade de alguma renda para os sem-emprego.

 

A maioria das vítimas se situa entre os 18 e 30 anos de idade. Eles são pobres – era óbvio demais-, e a metade usa a moto como transporte. O aumento das mortes é proporcional ao crescimento das motos: foi de 300% no mesmo período estudado.

 

Os culpados imediatos são muitos. Todos somos mal-educados, intolerantes e agressivos no trânsito, e não cabe apontar o dedo exclusivamente para a turma que anda sobre duas rodas.

 

Parece-me, porém, que há uma lógica perversa para atender ao “sonho” dos que querem, também, ser possuidores de um veículo motorizado. Na prática, estamos combatendo o subemprego e a falta de políticas sérias para o transporte coletivo com a morte. Simples assim.

 

De repente, e não mais que de repente, o Brasil teria descoberto o caminho da imortalidade – que continua impossível para todos.

 

Esta é apenas uma parte do problema.

 

Só no último ano da pesquisa, o Hospital das Clínicas de São Paulo gastou R$ 100 milhões com o atendimento e recuperação dos acidentados: próteses, fisioterapia e atenção psicológica. Para muitos é a morte em vida, a incapacitação para o trabalho que já não tinham. O sonho se vai no sangue que se esvai no asfalto.

 

Uma realidade incontestável: os que se habilitam mal para guiar uma moto, com a complacência dos Detrans, nunca acham que correm riscos ao se enfiar entre os carros, ônibus e caminhões em manobras perigosas.

 

Agem como se estivessem movidos por uma fé insana, semelhante, se me permitem a analogia, aos fundamentalistas religiosos de todos os matizes (não nos esqueçamos que o fundamentalismo religioso surgiu nos EUA, no final do século XIX). O vazio da alma se preenche com o terror urbano – no nosso caso.

 

Os mortos nessa guerra insana – como todas as guerras – ,entretanto, não terão a esperá-los 72 virgens no paraíso eterno.

 

Ainda que não possamos descartar que o “inferno” pode estar mesmo do lado de cá: para as mães que choram seus filhos ausentes, para os filhos que serão criados sem a presença dos pais.


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