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Economia
10/10/2021 22:00:00

Com inflação, beneficiários do Bolsa Família têm pior poder de compra em 7 anos

Com alta dos preços em todo o país, auxílio do governo hoje não é suficiente para comprar nem um terço de uma cesta básica para uma pessoa


Com inflação, beneficiários do Bolsa Família têm pior poder de compra em 7 anos

Em todo o país, 14,6 milhões de famílias são beneficiárias do Programa Bolsa Família, criado em outubro de 2003 para combater a pobreza e a desigualdade no Brasil. O auxílio, que visa atender pessoas em situação de pobreza e de extrema pobreza no país, tem passado a ficar cada vez mais distante da possibilidade de cumprir seu objetivo.

O poder de compra para quem depende do benefício é o pior em sete anos. O valor concedido atualmente possibilita que uma família brasileira adquira para seu sustento apenas 30% de uma cesta básica completa – para uma só pessoa. Em outras palavras: quem usufrui do subsídio federal como único meio de sustento não consegue comprar sequer um terço da alimentação suficiente individualmente para um mês, quanto mais para uma família.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a inflação aperta mais quem tem pouco ou quase nada. A pressão ocasionada pela taxa é maior entre os brasileiros com menor poder aquisitivo, em comparação aos mais abastados. Em um ano, para famílias de renda muito baixa, o índice aumentou em 10,6%; na classe de renda alta, essa elevação foi de 8%. Ou seja, quem ganha menos gasta (muito) mais.

Em 2015, começo dessa análise, o benefício permitia que brasileiros tivessem acesso à quase metade de uma cesta básica mensalmente. A crise política do país no ano seguinte, embalada pelo processo de impeachment contra a então presidente Dilma Rousseff, ocasionou aumento na inflação, que já vinha em alta por decisões do governo e pressões externas. Com isso, o subsídio oferecido pelo Bolsa Família passou a valer apenas 39,4% da cesta básica.

Para entender o problema da crise brasileira, o (M)Dados, núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles, apurou o valor médio oferecido pelo programa desde 2015, e calculou quanto de uma cesta básica um beneficiário conseguiria comprar se tivesse apenas o benefício como renda mensal.

Os valores e itens relativos à cesta básica foram disponibilizados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

 
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E se o peso do preço dos alimentos pôde ser sentido por anos, no caso de Helena Mendes, 20 anos, bastaram meses para entender a situação. Helena foi entrevistada pelo Metrópoles em março deste ano. Na ocasião, a jovem acabara de conseguir a primeira parcela, no valor de R$ 41, do Bolsa Família.

Desde então, a filha de Helena cresceu e, agora, com 1 ano e 8 meses, tornou-se mais uma pessoa que consome alimentos na casa. A moradora de Praia Grande, cidade do litoral sul no estado de São Paulo, relata que, oito meses depois do contato da reportagem, muita coisa mudou; principalmente na matemática do fim do mês.

“Quando recebi a primeira parcela, eu conseguia ir ao mercado e comprar uma caixa de leite. Hoje, ainda faltam centavos para conseguir levar leite para minha filha”, afirma Helena.

A jovem, que hoje faz bicos em uma pizzaria para ajudar nas contas de casa, revela que já deixou de adquirir itens básicos, como óleo para cozinhar. “A dona do restaurante dá um pouco de banha para gente, então isso eu consegui não comprar mais. Assim que a gente tá fazendo”, explica.

Patrícia Costa, economia e supervisora de preços do Dieese, ressalta que a situação está diretamente ligada às escolhas políticas econômicas do país.

“O Brasil vem exportando seus principais alimentos num volume extremamente alto, e durante a pandemia. Então, no momento de uma crise sanitária, da qual você desconhece a proporção, você simplesmente continua exportando, quando o certo era diminuir esse movimento, como outros países fizeram. Mas, no Brasil, isso não aconteceu, porque aqui tudo foi tratado como uma ‘gripezinha‘”, pondera a especialista.

Em uma lista com 37 países, o país computou a quinta maior inflação já registrada até agosto deste ano. Com a alta de 0,87% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a taxa oficial chegou ao acumulado de 9,68% nos últimos 12 meses, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Metrópoles



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