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Mundo
26/11/2019 10:00:00

Japão, o país onde pessoas flagradas com maconha se tornam párias


Japão, o país onde pessoas flagradas com maconha se tornam párias

O snowboarder Kazuhiro Kokubo, que representou o Japão nos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim (2006) e Vancouver (2010), foi um dos destaques na imprensa internacional neste mês — mas não por motivos propriamente olímpicos.

Preso na manhã de 6 de novembro, Kokubo, de 31 anos, é acusado de contrabando de 57 gramas de um produto derivado maconha dos Estados Unidos ao Japão, o país anfitrião das Olimpíadas de 2020 que tem rígidas regras contra a cannabis.

Segundo a polícia, o produto (um óleo conhecido como marijuana wax) foi encaminhado pelo correio e interceptado pela alfândega do Aeroporto Internacional de Narita, nos arredores de Tóquio. Kokubo não negou que seria o destinatário da encomenda, mas negou que quisesse lucrar ou contrabandea

Famosos flagrados com drogas são altamente criticados, tornando-se "párias" no arquipélago asiático. A detenção rende destaque negativo na imprensa japonesa, pressões por desculpas públicas e afastamentos.

Em maio, o músico Junnosuke Taguchi, de 33 anos, foi acusado de guardar pouco mais de 2 gramas de maconha desidratada na sua casa, na capital, e precisou pedir desculpas públicas, ajoelhado em frente à delegacia de Tóquio. Em fevereiro, o jogador japonês Christian Loamanu, de 22 anos, foi pego no doping por maconha e outras substâncias ilegais. Foi banido da liga nacional de rúgbi.

Em junho, o ator japonês Pierre Taki, de 52 anos, foi sentenciado a 18 meses de prisão após admitir o consumo de cocaína desde sua juventude. "Peço desculpas por causar problemas. Ficarei longe das drogas", afirmou no tribunal, segundo o diário japonês The Mainichi.

Nos últimos anos, a polícia prendeu diversos atletas, artistas e estudantes universitários por posse, cultivo ou comércio de maconha. O controle severo vale para estrangeiros — na década de 1980, o músico britânico Paul McCartney foi detido por dez dias por 219 gramas de maconha encontrados na mala, no Aeroporto Internacional de Narita. Depois, foi deportado.

"Há países e regiões ao redor do mundo que recentemente relaxaram as regras sobre o uso de maconha. Infelizmente, o uso de cannabis constitui uma violação da lei [no Japão] e isso precisa ser totalmente comunicado", afirmou em entrevista à imprensa internacional, em junho, Toshiro Muto, diretor-executivo dos Jogos Olímpicos de Tóquio, evento que espera atrair cerca de 40 milhões de turistas à capital japonesa entre julho e agosto de 2020.

Muto destacou que as autoridades japonesas serão rígidas em implementar o banimento durante os Jogos Olímpicos.

Tolerância zero

Na contramão de países como Canadá e Uruguai, que estão liberando a maconha, o Japão continua comprometido com uma política de tolerância zero: a posse pode render até 5 anos de prisão e multa de milhares de dólares; o comércio, até 10 anos de prisão.

Entretanto, o consumo vem aumentando, assim como as decorrentes detenções nas ilhas nipônicas. Segundo os dados mais atuais divulgados pela polícia japonesa, 3.008 pessoas foram presas sob acusações associadas à maconha em 2017, ante a 2.536 em 2016 — os maiores consumidores são jovens adultos de 20 a 29 anos (9,4 prisões por 100 mil habitantes). Em 2018, foram registrados 3.578 casos (42,5% dos suspeitos detidos por posse estavam na casa dos 20 anos).

"Ativistas [pró-legalização da maconha] são indivíduos considerados contra as regras sociais do país. Aos olhos da sociedade, a maconha é um tabu", diz à BBC News Brasil, sob a condição de anonimato, um físico japonês que trabalha como engenheiro de dados em Tóquio.

"A sociedade japonesa não vê diferença entre cannabis e outras drogas perigosas. Então, a maconha é vista como um risco que pode prejudicar o cérebro ou pode provocar confusão mental. Além disso, a imprensa tradicional trata das drogas como fonte de dinheiro da máfia japonesa."

O físico teórico, que já trabalhou como analista financeiro de um dos maiores bancos nipônicos, diz que nunca consumiu maconha no solo japonês, para respeitar a lei. "Mas já fui a 'coffee shops' em Amsterdã (Holanda). Então, você pode imaginar."

Apesar do tabu, o país recebeu a primeira conferência internacional pró-legalização no mês passado, a International Conference on Industrial Hemp (Conferência Internacional de Cânhamo Industrial), entre 11 e 12 de outubro, reunindo produtores, médicos, empresários e especialistas de diversas nacionalidades para discutir o assunto pela primeira vez no território japonês.

O mote do encontro, organizado pela Hiha (Hokkaido Industrial Hemp Association - Associação de Cânhamo Industrial de Hokkaido), era a campanha inédita para "reabrir" o país.

"No ano passado, o Canadá legalizou o uso recreativo da maconha, o que provocou grande impacto no mundo. Assim, como a desregulação do cânhamo avançou mundo afora, o número de países e regiões que legalizaram o uso recreativo ou medicinal aumentou e a indústria do cânhamo também se desenvolveu rapidamente. Por outro lado, o Japão ficou para trás nessa tendência internacional devido ao Ato de Controle da Cannabis, que substancialmente proíbe o cultivo para uso medicinal e para produção industrial. Nós decidimos iniciar a campanha Re-Open Japan for Hemp para mudar a presente situação", diz a nota dos organizadores.

"Reabrir" foi a expressão escolhida pois, embora proibida e severamente recriminada nos dias atuais, a cannabis remete a uma longa história. Hokkaido, por exemplo, era um dos principais polos produtores do país, onde as fibras do cânhamo (derivado da espécie Cannabis ruderalis) eram utilizadas para produzir cordas, linhas de pesca e peças de vestuário, inclusive véus de noiva.

Longa história

O Ato de Controle da Cannabis, que ceifou a cannabis e seus produtos derivados, data de 1948. A lei foi imposta pelos Estados Unidos ao Japão no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) — do lado das potências do Eixo (a Alemanha nazista e a Itália fascista), o Japão saiu derrotado do conflito internacional e arcou com diversas sanções.

Após a Declaração de Potsdam (1945), que definiu os termos da rendição, o arquipélago foi ocupado pelos Aliados e, entre outras ordens, foi instaurado um controle rígido de diversas drogas, incluindo cocaína, heroína e maconha.

Antes, o cultivo de cânhamo era inteiramente liberado. Ainda na década de 1950, cerca de 25 mil fazendas estavam ativas. Hoje há cerca de 60 estâncias legais (licenciadas), autorizadas para fins industriais. Algumas delas fazem parte da rota de tours do Museu Taima, na cidade de Nasu, na província de Tochigi, a cerca de 200 quilômetros de Tóquio. Aberto em 2001, é o único museu dedicado à história da erva no país.

Quem coordena a instituição é Junichi Takayasu, de 56 anos, cujo interesse pela cultura da cannabis começou na infância, aos três anos, ouvindo a história de um ninja que saltava longas distâncias com uma corda feita de cannabis. "Quer dizer, faz mais de meio século", diz à BBC News Brasil.

Segundo Takayasu, uma das indicações mais antigas da cultura da cannabis no arquipélago data do período Jomon (de 10 mil anos a.C.): são peças de cerâmica com sementes e fragmentos de fibras de cannabis. Ao longo da história, diz Takayasu, o cultivo se tornou um dos traços marcantes da identidade japonesa, especialmente no contexto religioso.

"No xintoísmo, marcado por fé ancestral e animismo, não há doutrinas, deuses ou gurus absolutos. Busca-se em um estado que requer dois pontos: uma limpeza visível e um tipo de limpeza 'invisível' do corpo. A limpeza física é feita com água. A invisível, com fibras de cannabis. Isto é, a planta é absolutamente necessária para rituais xintoístas. Cannabis está na raiz da religião japonesa", conta.

Desde a proibição, porém, a planta paulatinamente se tornou um tipo de subcultura no país, independentemente do fim (recreativo, religioso ou medicinal). "Basicamente, usuários de maconha são vistos como antissociais. Se você é um ator, preso por violar o Ato de Controle da Cannabis, você é duramente exposto e ridicularizado, praticamente linchado. Se você é um estudante pego por maconha pode ser repreendido, expulso e, no fim, excluído como membro da sociedade. Pode ser difícil de compreender para quem é de fora, mas as punições são estranhamente severas no Japão ante a outros países", explica.

Bbc News Brasil



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