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Brasil
08/11/2019 09:00:00

Óleo no Nordeste: imagem de satélite pode provar inocência de navio grego; entenda


Óleo no Nordeste: imagem de satélite pode provar inocência de navio grego; entenda

O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) encontrou uma fotografia de satélite que revela um mancha em forma de rastro no litoral nordestino, 40 km ao norte de São Miguel do Gostoso (RN), em trajetória similar à do petroleiro Bouboulina, apontado pelo governo brasileiro como principal suspeito pelo crime.

O rastro escuro de 85 km de comprimento apareceu, no entanto, antes de o navio grego passar pela rota. A descoberta, do grupo comandado pelo cientista Humberto Batista, sugere que pode haver outro suspeito para o derramamento de óleo no Nordeste.

A imagem em questão foi feita por um sensor do satélite europeu Sentinel-1A. O dispositivo enxerga variações sutis de altitude, como as próprias ondas do mar, e propriedades elétricas dos líquidos, que distinguem, por exemplo, água salgada de óleo. A mancha apareceu parcialmente numa imagem de 24 de julho, mas o Bouboulina só passou naquela área em 26 de julho.

O local do rastro é uma área de tráfego naval intenso, porque liga o Canal do Panamá e a Venezuela a todo o Atlântico Sul. O cientista ainda não conseguiu acesso a uma base maciça de dados que permita tentar cruzar a imagem do Sentinel com registros de transponder.

A imagem de satélite exibe, inclusive, um ponto branco: "claramente um navio", segundo Barbosa, mas impossível de ser identificado pela baixa resolução do sensor que fez a imagem.

Tese por eliminação

O cientista está agora tentando validar a imagem para saber se algum outro fenômeno que não um vazamento de óleo pode ter gerado aquele traço na imagem do satélite. Ele já descartou, por exemplo, que seja o rastro de turbulência causada pela hélice de uma embarcação.

— Aquela mancha tem sinais de distinta intensidade, tanto perto do navio quanto longe dele — afirma. — Isso não aconteceria com uma embarcação que se desloca. O sinal no longo vai perdendo intensidade e vai ficando mais fraco longe da hélice.

Outra evidência contrária à tese da turbulência é a largura do rastro.

— Nós medimos a espessura da faixa com um sistema de informação geográfica, e ela tem quase um quilômetro de largura — afirma. — Você precisaria de uma baita de uma hélice para gerar toda essa turbulência.

Barbosa diz estar preparando um relatório técnico sobre esta e outras descobertas que o Lapis fez e podem ajudar na investigação.

O Lapis publicou informações não-técnicas sobre a descoberta em seu site de divulgação científica no dia 30 de outubro.

Os cientistas do laboratório buscam agora outras imagens de satélite que ajudem a montar o quebra-cabeça da investigação. A imagem crítica do Sentinel-1A é de um sensor que só aponta para aquela região uma vez a cada 12 dias, e os pesquisadores não têm como saber o que ocorreu logo depois de 24 de julho naquela área usando o mesmo dispositivo.

Álibi para Bouboulina?

Para propor uma linha de investigação diferente sobre a origem do derramamento de óleo, Barbosa diz que há outros indícios que podem comprometer a versão da HEX que aponta o Bouboulina como culpado.

Um deles é o de que as imagens apresentadas pela empresa são de sensores de satélite inadequados para ver manchas de óleo.

— As imagens divulgadas pela empresa, que eu só vi pela TV e pelo jornal, não são do Sentinel-1A. Eles usaram um outro sensor, que precisa de uma distância maior para localizar dois objetos e sofre interferência da atmosfera.

Para o cientista da UFAL, a trajetória do Bouboulina também não permite levantar muitas suspeitas.

— Eu busquei ver se havia alguma parada ou alguma diminuição de velocidade no trajeto — conta. — A primeira avaliação que eu fiz é que o Bouboulina estava navegando ali na costa leste com 11 a 16 nós de velocidade, sem interrupção.

Falso positivo

Antes de divulgar a imagem do rastro no litoral potiguar, Barbosa chegou a apontar uma imagem de satélite com uma grande mancha escura, daquela vez no litoral da Bahia, que poderia ter relação com o incidente de óleo. A imagem, porém, acabou sendo desacreditada pelo Ibama e pela Marinha .

— A gente fez uma falsa interpretação de uma área, que foi precipitada, em função de uma situação em que a gente tinha que divulgar logo e não tinha ainda uma análise completa — reconhece Barbosa.

Cruzando os dados de satélite usados na ocasião, ele afirma que a forma vista ali é o contorno de relevo no fundo do mar, que causa interferência em imagens sobre a superfície.

Segundo ele, o Ibama e a Marinha foram corretos em descartar que a feição observada era óleo, mas suas versões para explicar a imagem também estavam erradas.

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