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Especial
31/10/2019 13:00:00

Brasil, o país que ama o futebol e odeia os negros


Brasil, o país que ama o futebol e odeia os negros
Aranha goleiro ex-Santos

Pelé, Garrincha, Rivaldo, Ronaldo, Neymar. O brasileiro se acostumou a ver dentro de campo craques, em sua maioria negros. Mais do que nós, o mundo se encantou com nosso jeito único de jogar futebol, marcado pelo drible e a genialidade do improviso.

A presença destacada do negro no esporte mais popular do país e do mundo, contudo, não tornou esse desporto menos racista. O mito da democracia racial, imaginário de que negros e brancos convivem em plena harmonia no Brasil, tem forte presença no cotidiano da prática futebolística.

É necessário que se rompa com o mito e se apresente a profundidade das dinâmicas raciais nesse ambiente, mesmo que para o brasileiro seja quase um insulto apontar a presença do racismo em uma das suas maiores paixões, o futebol.

O fato é que o racismo faz parte do esporte, como compõe o mercado de trabalho e outras esferas do cotidiano. Racismo que está para além de atos de discriminação racial, insultos ou xingamentos racistas.

O que mais me chama atenção é a divisão racial do trabalho dentro do esporte. No campeonato brasileiro, apenas dois treinadores são negros, Roger Machado, técnico do Bahia, e Marco Aurélio de Oliveira, técnico do fluminense. Entre os presidentes de clube, há uma histórica ausência de presidentes negros.

Mesmo no futebol, onde o negro tem a sua genialidade reconhecida, parece não existir espaço para que esse sujeito atue na posição de comando, que dirija ou uma equipe ou um clube de futebol. A função de racionalizar ainda persiste como exclusiva da branquitude.

O fato não se restringe ao Brasil e é também uma questão na NBA e na liga de futebol americano dos EUA. Lá, contudo, existem políticas de enfrentamento a essa realidade. Aqui, fecham-se os olhos e utiliza-se do discurso da meritocracia para afirmar que os “melhores” são os escolhidos para dirigir ou comandar.

Meritocracia e o sonho

É esse mesmo discurso meritocrático que vai pavimentar um dos sonhos mais difíceis de ser conquistado no Brasil, o de ser um jogador de futebol reconhecido, de um grande clube nacional ou internacional.

Muitos jovens de periferia, em especial negros, se vêem diante desse sonho e dessa busca. O futebol então se torna como uma das poucas opções sociais para esse homem, altamente segregado do mercado de trabalho.

Algo, porém, injusto e cruel. Para cada grupo de milhares e milhares de jovens, apenas um terá a possibilidade de seguir carreira em um grande clube. Os demais, aqueles afortunados que conseguirem trabalhar na profissão, terão uma vida como a de qualquer outro proletariado, com poucos direitos e muita exploração. A grande maioria terá apenas mais um sonho frustrado.

Esse sonho, que ainda paira sobre a cabeça dos meninos, é quase inexistente no imaginário das meninas, que veem um ainda incipiente mercado esportivo feminino nascer.

Embranquecimento

A presença de valores racistas na nossa leitura de jogo fez inclusive o futebol brasileiro, aquele cinco vezes campeão do mundo, desejar atuar de maneira parecida com aquela praticada na Europa.

Enquanto eles estudaram o nosso jeito de jogar e nós tivemos que ver seleções como a Espanha de 2010 e a Alemanha de 2014 atuarem com um futebol que parecia ser o nosso, nós vimos seleções brasileiras entrando em campo com uma criatividade reduzida. Queríamos o padrão tático inglês, queríamos ser a Inglaterra, a seleção uma vez campeã mundial, em 1966.

Dentro de campo, percebe-se um futebol nacional cada vez mais econômico no que diz respeito ao drible e à inventividade. Queremos tanto ser europeus, que aceitamos isso mesmo quando o mundo, inclusive eles, reconhecem em nós a grandeza e a genialidade.

Fora de campo, a receita se repete. Arenas e ingressos caros afastam cada vez mais o povo, em especial o pobre e o negro dos estádios. As partidas parecem peças de teatro, e de ruim qualidade.

Distante do campo, o jovem negro passa a sonhar com outros espaços, se vê cada vez mais distante do esporte. Trata-se de um processo de elitização do futebol e de exclusão daquele que sempre foi o diferencial das seleções e clubes brasileiros, o jovem negro da periferia.

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