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Crise na Venezuela
05/10/2019 08:15:00

O custo humano das sanções à Venezuela


O custo humano das sanções à Venezuela

Carolina Subero mora com a mãe, a irmã e três filhos numa pequena casa de dois cômodos no bairro pobre de Caucaguita, no leste de Caracas. A caçula, Jenjerlys, tem cinco anos, cabelos longos e escuros e grandes olhos castanhos.

Mas, autista e epilética, ela precisa de remédios regularmente – que não recebe. "Ela tem convulsões todos os dias", diz Subero. "O remédio ajuda a atenuá-las. Quando não conseguimos o medicamento, eles a enviam para o hospital."

Jenjerlys costumava tomar quatro medicamentos diferentes para suas convulsões, mas agora, devido às sanções americanas que impedem a importação de remédios essenciais, sua mãe só consegue um deles. E isso só de vez em quando, pois é muito caro.

Uma caixa de comprimidos que dura dez dias custa cerca de 8 dólares (34 reais). Isso não parece muito, mas é uma fortuna, num país abalado pela hiperinflação e pelo bolívar desvalorizado. "Eu tive que trocar comida por remédio", revela Subero.

Jenjerlys é apenas uma das mais de 300 mil pessoas que, estima-se, estejam em risco devido à falta de acesso a medicamentos ou tratamento, em consequência das sanções ao país. Isso inclui 16 mil pacientes de diálise, 16 mil portadores de câncer e cerca de 80 mil soropositivos, de acordo com um relatório publicado em abril pelo Centro para Pesquisa Econômica e Política, com sede em Washington. A situação tende a piorar, com o embargo total ao país anunciado pelos EUA em agosto, e novas sanções da União Europeia aplicadas no fim de setembro.

"Entendemos que a Organização Pan-Americana da Saúde teve que trocar as contas [usadas para comprar o medicamento] quatro vezes, porque elas eram sempre bloqueadas", aponta Marcel Quintana, responsável pela distribuição de medicamentos antivirais a pacientes com HIV no país, que a Venezuela fornece gratuitamente há décadas. "O bloqueio não é apenas contra o governo, é contra quem vive com HIV, é contra quem vive com câncer, porque não se permite que os medicamentos entrem no país", critica.

Mulher carrega filha pequena, com casas de alvenaria no fundo

Carolina Subero e a filha Jenjerlys: remédio, só de vez em quando

Os EUA têm sido claros que o objetivo de suas sanções é pressionar a deposição do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. O governo Trump apoiou abertamente o líder da oposição e presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó. Em janeiro, ele se autoproclamou presidente, sendo rapidamente reconhecido pelos Estados Unidos e muitos países da UE.

Desde então, Guaidó tentou derrubar Maduro com protestos nas ruas, um confronto na fronteira com caminhões de ajuda humanitária e uma tentativa de levante militar em 30 de abril. Os oposicionistas culpam Maduro pela corrupção, escassez generalizada, economia abalada e hiperinflação. Os apoiadores do governo dizem que os EUA e uma guerra econômica estão por trás da crise crescente no país.

As sanções dos EUA se tornaram cada vez mais agressivas desde o anúncio pelo ex-presidente Barack Obama, em 2015. Por pressão de Washington, empresas estrangeiras deixaram de fazer negócios com o país sul-americano. O Citibank fechou as contas da Venezuela no exterior.

O presidente Donald Trump intensificou as sanções em 2017, e neste ano impôs um embargo que bloqueou a compra de petróleo da estatal venezuelana, PDVSA. Também confiscou a subsidiária americana da petrolífera, Citgo, avaliada em 8 bilhões de dólares. Foi um duro golpe para a Venezuela, 90% de cujo faturamento provinha da receita do petróleo.

O governo dos EUA também congelou 5,5 bilhões de dólares de fundos venezuelanos em contas internacionais, em pelo menos 50 bancos e instituições financeiras. Mesmo que a Venezuela pudesse conseguir dinheiro no exterior, os Estados Unidos bloqueiam há muito tempo o comércio internacional, ameaçando sancionar empresas estrangeiras que façam negócios com ela.

Equipamento defeituoso e peças quebradas

Segundo representantes da Hidrocapital, a empresa estatal de abastecimento de água da capital, Caracas, entre 15% e 20% dos venezuelanos não têm acesso a água potável em suas casas, porque o governo não consegue adquirir novas peças de fabricação estrangeira para consertar bombas quebradas e canos.

"Com o bloqueio, tivemos situações em que as bombas e motores estavam prestes a ser embarcados, então vem a mão todo-poderosa dos EUA bloqueando o dinheiro no banco ou sancionando a empresa que está trabalhando conosco, apenas por vender esses equipamentos, sem perceber que eles estão afetando vidas", diz Maria Flores, vice-presidente de operações da Hidrocapital.

Por isso a estatal envia caminhões carregados com água toda semana para comunidades carentes. Mas o bloqueio e a falta de peças também estão afetando o número de caminhões-pipa que ela pode manter na estrada. Maria Flores afirma que sua frota foi reduzida em 75% nos últimos três anos, limitando-se agora a um punhado de caminhões.

Os que têm acesso a dólares, nos bairros mais ricos de Caracas, estão resistindo à tempestade. Clientes entram e saem do sofisticado shopping Sambil, no extremo leste da cidade. No piso superior, o restaurante de sushi está lotado. Uma refeição para dois pode custar várias vezes o salário mínimo mensal.

Ns bairros pobres, porém, muitos tentam manter vários empregos – com acesso a dólares, se possível. Milhões deixaram o país em busca de oportunidades no exterior.

O marido de Carolina Subero é um deles. Ele envia dinheiro para casa todos os meses. Mas ainda não é suficiente para pagar o remédio da filha pequena ou garantir o sustento da família.

Subero diz não ser grande fã do presidente Maduro, mas também não culpa o governo. O problema, diz a venezuelana, são as sanções dos EUA. "Eles não se importam. Acham que estão afetando o presidente Maduro, e acabam realmente prejudicando o povo. Se eles realmente quisessem algo de bom para a Venezuela, não estariam fazendo o que estão fazendo agora."

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