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Especial
03/10/2019 14:00:00

Por que as missões à Lua fracassam, se meio século atrás chegavam ao destino?


Por que as missões à Lua fracassam, se meio século atrás chegavam ao destino?

Em 3 de fevereiro de 1966, a União Soviética se tornou o primeiro país a pousar suavemente uma sonda na Lua. A Luna 9, uma nave de 99 quilos, funcionou durante três dias no satélite, coletando imagens e medindo a radiação. Antes, tanto os soviéticos como os americanos tinham acumulado quase dez anos de fracassos, prova da dificuldade de colocar artefatos intactos na superfície lunar. Durante a década seguinte, 18 missões, seis delas tripuladas, pousaram com sucesso na Lua. Ainda houve tentativas fracassadas, mas apenas com missões robóticas. Neste ano, mais de meio século depois daquela primeira chegada bem-sucedida, duas missões, uma israelense e uma indiana, fracassaram em sua tentativa de pousar em nosso satélite.

Parece difícil entender que, mais de 50 anos depois daquela missão soviética, em uma época em que surgiu a Internet, foram desenvolvidos tratamentos para tipos de câncer incuráveis nos anos sessenta e a mortalidade infantil foi drasticamente reduzida, a engenharia de dois países avançados não possa repetir o sucesso daquelas quinquilharias. No entanto, é provável que a maneira como se desenvolveu a tecnologia espacial dos anos cinquenta e os sessenta possa explicar por que não houve um progresso generalizado em determinadas tecnologias espaciais, como ocorreu no mundo todo em outras áreas.

Nos anos da corrida espacial, a situação política mundial transformou o investimento nessas tecnologias em uma prioridade nacional. Foram destinadas enormes quantias de dinheiro para desenvolver programas que cumpriram (ou não) seus objetivos em muito poucos anos. Não havia interesse econômico na exploração de viagens espaciais que encorajasse a busca de métodos eficientes e replicáveis para chegar à Lua. Os descomunais foguetes Saturno V, que levaram os astronautas à Lua, tinham um custo de mais de 1 bilhão de dólares (4,16 bilhões de reais) por lançamento. Aquelas máquinas levavam os astronautas até seu destino em apenas três dias, mas a um preço que hoje seria inviável para qualquer país.

Philippe Schoonejans, diretor de projetos robóticos e de futuro da Agência Espacial Europeia (ESA), assinala que a duração prolongada da viagem pode influir no fracasso de uma missão como a do Chandrayaan 2 e sua sonda de alunissagem Vikram. Ao ser lançada em um foguete menos potente, um GSLV Mk III de fabricação indiana, a sonda precisou de quase um mês de viagem para se aproximar pouco a pouco do satélite. “Isso economiza combustível, mas, por ser necessário tanto tempo de aproximação, os componentes eletrônicos ficaram expostos à radiação cósmica durante mais tempo”, aponta Schoonejans. “Isso pode ter provocado danos que expliquem em parte o fracasso posterior”, acrescenta.

Capa do ‘Daily Express’ de Manchester com a primeira foto transmitida da Lua em fevereiro de 1966.
Capa do ‘Daily Express’ de Manchester com a primeira foto transmitida da Lua em fevereiro de 1966.
 

Além disso, a passagem do tempo não é sinônimo de progresso tecnológico. Pode oferecer oportunidades para melhorar os aparelhos do passado, mas também pode levar ao esquecimento. A própria Nasa teria dificuldades para ressuscitar os motores F-1 que impulsionaram os foguetes das missões Apollo. Sem o impulso da competição com a União Soviética, muitos dos grandes cérebros dos EUA se dedicaram a outros trabalhos, e os engenheiros talentosos que construíram aquelas maravilhas tecnológicas estão aposentados ou mortos há muito tempo. Mesmo com o conhecimento e o treinamento necessário, seria difícil contar com todas as ferramentas requeridas para produzir aqueles motores. A essa dificuldade deve-se acrescentar que, como aponta Schoonejans, as tecnologias espaciais são consideradas críticas e têm uma proteção especial, o que faz com que os engenheiros estrangeiros, como os indianos e israelenses, tenham mais dificuldades para ter acesso a elas.

Bernard Foing, cientista da ESA e diretor do Grupo Lunar Internacional, cita duas das principais dificuldades da manobra de pouso na Lua: “Manter a estabilidade do sistema e ter uma força adequada durante cada fase de frenagem”. Vikram, o módulo de alunissagem da missão Chandrayaan 2, tinha cinco motores de frenagem, um em cada extremidade da nave e outro no centro. Essa configuração é muito estável, mas não pôde ser utilizada na última fase de aproximação, porque os engenheiros da ISRO, a agência espacial da Índia, temiam que tantos motores acabassem levantando a corrosiva poeira lunar e danificando os equipamentos. No final, só foi usado o retropropulsor do centro, o que pode ter reduzido a estabilidade da nave. Dias atrás, a ISRO anunciou que encontrou a sonda Vikram inteira, mas tombada de lado.

Apesar da passagem do tempo, até certo ponto, as agências espaciais e os projetos privados que estão tentando retornar à Lua estão começando de novo e têm objetivos diferentes. No desenvolvimento de uma forma mais sustentável de chegar ao espaço, podem acontecer erros, como os que ocorreram nos anos cinquenta e os sessenta antes dos primeiros triunfos dos Estados Unidos e a União Soviética. 

VOLTAR À LUA PARA FICAR

Há pouco mais de uma década, o Google Lunar X Prize ofereceu um prêmio de 20 milhões de dólares (83 milhões de reais) para a primeira organização não governamental capaz de completar uma missão que deveria incluir um pouco na Lua e um robô explorador que se deslocasse pela superfície lunar. O prazo inicial, bastante otimista, ia até 2012, mas, embora tenha sido estendido para 2018, nenhuma das equipes participantes conseguiu finalizar um projeto a tempo. Algumas delas, no entanto, seguiram em frente para tentar completar a missão fora do prazo. Foi o caso da equipe da Beresheet, a sonda israelense que tentou alunissar em abril deste ano. O custo da missão foi de aproximadamente 100 milhões de euros (455 milhões de reais), uma fração do que costumavam custar as missões espaciais realizadas pelos Estados. A entrada de empresas privadas, como a SpaceX, de Elon Musk, também conseguiu baratear parte das etapas necessárias para viajar ao espaço. O Falcon Heavy, por exemplo, pode transportar dois terços da carga dos foguetes Saturno V que levaram os astronautas à Lua por cerca de 90 milhões de euros (409 milhões de reais), menos de um décimo do custo dos antigos foguetes da Nasa. Alguns esperam que os novos métodos, quando forem mais confiáveis, sirvam para que a nova corrida à Lua não acabe com uma presença tão efêmera quanto a anterior.

El País



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