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Comportamento
13/09/2019 19:00:00

Os riscos do sofrimento de uma vida sem sentido


Os riscos do sofrimento de uma vida sem sentido

As questões acerca do propósito e da finalidade da vida humana ocuparam por muito tempo uma posição central nas grandes reflexões filosóficas; tratando-se, portanto, de uma abordagem plurissecular que teve início de forma categórica na Antiguidade e se desenvolveu nos séculos posteriores mediante análises metafísicas e éticas, cujos desdobramentos podem ser encontrados ainda hoje nas grandes discussões humanísticas.

Sendo assim, não há dúvidas acerca da eminência e complexidade da questão que envolve o sentido da vida humana e de suas realizações. Aristóteles foi um dos primeiros a elaborar uma resposta sofisticada com embasamento teórico adequado ao afirmar que a felicidade é o resultado final das buscas e anseios individuais, mas afinal o que seria a tão almejada felicidade?

Segundo esse pensador, somente uma vida virtuosa fundamentada no equilíbrio e na prudência seria capaz de desfrutar da felicidade, enquanto um fim último soberano.

No pensamento contemporâneo, marcado pelo pós-modernismo e pelas suas correntes derivadas (utilitarismo, relativismo moral, materialismo e o determinismo), a filosofia de vida encontra-se centrada na defesa intransigente de que o indivíduo deve centralizar seus esforços na busca e na satisfação de seus desejos, interesses e prazeres pessoais; sem preocupação com as limitações impostas por possíveis padrões morais absolutos e objetivos, ou seja, trata-se de uma perspectiva essencialmente típica do utilitarismo, compreendido enquanto uma corrente de pensamento que estabelece como critério de legitimidade de uma ação sua respectiva finalidade.

Os filósofos adeptos do utilitarismo estabeleceram a quantidade/qualidade do prazer como o valor a ser alcançado pelas condutas humanas. Esse modo de pensar apresenta conexões claras com o relativismo moral, pois ambos procuram afastar do campo ético os pressupostos deontológicos de existência de princípios universais aplicáveis a todos de forma objetiva enquanto critérios de validade das ações individuais.

Ao lado do relativismo moral e do utilitarismo, é possível vislumbrar no pensamento pós-moderno uma clara propensão ao materialismo, ou seja, uma tentativa de reduzir todas as dimensões da experiência humana ao aspecto meramente socioeconômico.

Não obstante, apesar do crescente utilitarismo, do consumismo, das diferentes organizações econômicas e da diversidade de prazeres e divertimentos, o homem pós-moderno é afligido por constantes problemas psicológicos de angústia, de tristezas paralisantes e ansiedade.

Segundo dados da OMS, a depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo, sendo que de 2005 a 2015 esse número cresceu 18,4%, com perspectivas de que em até 2020 possa ser considerada a doença mundial mais incapacitante.

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O Brasil, particularmente, apresenta a maior taxa de transtornos de ansiedade no mundo segundo pesquisas estatísticas da OMS. Tais dados acabam por demonstrar a insuficiência do utilitarismo e do relativismo em responder de forma adequada às questões mais profundas da existência humana, assim como nos levam a reavaliar a legitimidade das visões filosóficas pós-modernas.

Viktor Frankl (1905–1997), neuropsiquiatra austríaco e fundador da logoterapia, concentrou seus estudos e reflexões em questões que envolviam os problemas psicológicos relativos aos sentimentos humanos de insignificância provenientes de uma sensação de vazio existencial e incompletude.

Frankl foi vítima das perseguições promovidas pelos regimes totalitários do século XX e presenciou os horrores dos campos de concentração. Com base em suas experiências, o psiquiatra austríaco definiu o homem como um ser em busca de sentido e que se encontra constantemente projetando objetivos, os quais ocupam os esforços pessoais de forma temporária, sendo que uma vez alcançados promovem a frustração, pois a vontade humana permanece incompleta.

Sendo assim, inexoravelmente, os indivíduos são tomados pela angústia. Tal pensamento nos remete aos escritos de Schopenhauer, cujas obras ressaltavam a impossibilidade de se alcançar a felicidade por meio da satisfação incessante de desejos e objetivos próprios, uma vez que o contentamento individual depende quase que exclusivamente da administração da independência interior, bem como de uma atitude de resignação perante o mundo exterior. 

“Sentimos que toda satisfação de nossos desejos advinda do mundo se assemelha à esmola que mantém hoje o mendigo vivo, porém prolonga amanhã a sua fome”.

(SCHOPENHAUER, 2005)

Com o intuito de se escusar da angústia ou até mesmo de atenuar os efeitos do vácuo existencial, o indivíduo se vale de diversas máscaras e instrumentos de autoengano, como a ambição pelo poder, o desejo pelo dinheiro, pela influência, pelo prazer irresponsável e até mesmo pelo coletivismo totalitário.

Uma das mais nefastas e perigosas consequências do tédio oriundo do sentimento de incompletude é a perda da identidade individual e a ascensão do fanatismo social, pois ao perder a perspectiva de autonomia particular na construção da personalidade e da liberdade subjetiva, o ser humano recorre ao amparo identitário de organizações de massas.

Conforme afirma Maria Rita Kehl em sua obra Ressentimento“Não é descabido supor que qualquer organização de massas tenha o potencial de favorecer em seus membros a adesão à identidade de vítimas, sendo um sério obstáculo à luta pela autonomia e pela liberdade de seus membros”.

O homem é, em virtude de sua autotranscendência, um ser em busca de sentido. No fundo, é dominado por uma vontade de sentido. No entanto, hoje em dia essa vontade encontra-se em larga escala frustrada (…) Quando me perguntam como explicar o advento desse vazio existencial, cuido então de oferecer a seguinte fórmula abreviada: em contraposição ao animal, os instintos não dizem ao homem o que ele tem de fazer e, diferentemente do homem do passado, o homem de hoje não tem mais a tradição que lhe diga o que deve fazer. Não sabendo o que tem e tampouco o que deve fazer, muitas vezes já não sabe mais o que no fundo, quer. Assim, só quer o que os outros fazem- conformismo! Ou só faz o que os outros querem que faça- totalitarismo.”

(VIKTOR FRANKL)

Ernst Cassirer (1874–1945), filósofo alemão conhecido pela teoria da filosofia das formas simbólicas, destacou a eminência da construção da identidade pessoal através da liberdade no caminho humano rumo a busca de um sentido, cujas etapas consistem no reconhecimento da responsabilidade subjetiva na garantia da felicidade e na defesa da autonomia particular no que diz respeito a elaboração e organização do conhecimento simbólico.

A linguagem, a arte, a religião, a história e a ciência são formas de expressão cultural que colaboram para a consciência que o indivíduo tem de si mesmo e do mundo exterior. Entretanto, no mundo contemporâneo, o homem encontra-se alienado de si mesmo em meio à crise do conhecimento e da falta de perspectiva de sentido e esperança.

Apesar das consequências do vácuo existencial, do tédio, da perda da identidade pessoal, da ausência do conhecimento de si mesmo e do autoengano, é certo dizer que o sentido da vida é a felicidade; todos almejam a felicidade e o contentamento permanente, a despeito das frustrações cotidianas e tristezas constantes.

Blaise Pascal em sua obra Pensamentos afirmava: “Todos os homens buscam a felicidade. Isso é sem exceção. Seja qual for o meio diferente que eles empregam, todos eles tendem a esse fim. O motivo pelo qual uns vão à guerra, e pelo qual outros fogem dela, é o mesmo desejo em ambos. E ainda assim, após um número tão grande de anos, ninguém sem fé alcançou o ponto para o qual todos olham continuamente”.

Viktor Frankl expõe que a felicidade, enquanto responsabilidade subjetiva, requer compromisso com um propósito, um sentido a ser alcançado, mas não qualquer objetivo. Para este autor, a finalidade a ser alcançada deve ser maior do que nós mesmos, pois o desejo facilmente atingido é tão logo esquecido e desvalorizado.

Já dizia a teoria de Lacan que as fantasias precisam ser irrealistas, uma vez que para poder continuar existindo, a vontade humana precisa ter seu objeto eternamente ausente. O que move o ímpeto individual não é a coisa em si, mas sim a fantasia que dela provém. O desejo sustenta fantasias, cria expectativas, sonhos e esperanças de uma felicidade futura.

Eis a grande condição trágica do homem, afirmava Pascal. Portanto, viver meramente pela satisfação de objetivos individuais, de prazeres e de desejos próprios nunca irá propiciar a verdadeira felicidade, apenas um autoengano temporário, cujas consequências podem ser prejudiciais ao âmbito psicológico e até mesmo ao corpo político, conforme destacado anteriormente.

A verdadeira felicidade advém de um total compromisso com a Verdade, com o Sumo Bem e com as virtudes de sacrifício próprio, racionalidade, desapego, caridade, humildade, humanidade e integridade.

Somente quando o homem encontra um propósito maior do que sua própria existência, pode-se dizer que a sua busca por um sentido encontrou um significado autêntico, a felicidade eterna. O vácuo cósmico do homem, seu vazio existencial infinito, não pode ser preenchido com coisas finitas, mas somente com uma substância infinita e eterna: Deus.

Como dizia Santo Agostinho“Como um animal, eu lançava-me sobre as coisas belas que Deus criou; eu lançava-me sobre as criaturas; Deus estava comigo, mas eu não estava com Deus… Fizeste-nos, Senhor para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”. 

Somente quando o homem compreende seu Fim último e repousa suas preocupações em Cristo, torna-se capaz de enxergar um significado para sua existência, um propósito ao seu sofrimento.

“Quaisquer que sejam as respostas da fé, oferecidas a quem quer que seja, toda resposta da fé dá um sentido infinito à existência finita do homem – um sentimento que não é destruído pelos sofrimentos, pelas privações e pela morte. Isso significa que na fé é possível encontrar o sentido e a possibilidade da vida (…) A fé é a força da vida. Se o homem não acreditasse que é preciso viver para alguma coisa, ele não viveria (…) De fato, não vivo quando perco a fé na existência de Deus e, sem dúvida, já teria me matado há muito tempo se não tivesse uma vaga esperança de encontrá-lo.”

(LIEV TOLSTÓI)
falauniversidades.com.br


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