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Geral
14/08/2019 09:00:00

Cai a Máscara: página no Instagram fala sobre masculinidades


Cai a Máscara: página no Instagram fala sobre masculinidades

Depois de anos de terapia, o analista de marketing Denis Araujo de Oliveira, 29 anos, percebeu que algumas de suas principais angústias diziam respeito a uma masculinidade tóxica que existe na sociedade.

Assim, ele também notou que a maioria dos homens passavam pelas mesmas situações difíceis. Tudo por conta de uma exigência de masculinidade que não existe e que nunca poderia ser alcançada por ninguém.

Foi desta forma que ele notou que muitos homens viviam com uma máscara, que os impede de viver a vida de forma mais tranquila e plena. Ele, então, decidiu levar essa discussão para as redes sociais.

Ele criou a página Cai a Máscara, no Instagram, para tentar falar com outros homens sobre temas que podem ajudar a melhorar a vida deles, de mulheres e da população LGBT. Em entrevista ao blog, ele explica que a proposta da página é criar diálogos e conversas produtivas.

Leia a entrevista completa:

De onde veio a ideia de fazer a página?

Denis Araujo: Depois de alguns anos de divã, percebi que parte dos temas que levava para as sessões de psicanálise era uma angústia que outros homens também compartilhavam. Medos, cobrança, pressões, anseios, sentimentos mal processados, desejos... um conjunto de informações que eu lidava e que percebi, em papos de café e bar com grandes amigos, que não estava sozinho. Daí percebi que poderia usar as palavras para atingir mais pessoas com os temas que proponho. Foi assim que o Cai a Máscara surgiu, nome alusão ao documentário The Mask You Live In, e que evolui na medida em que vivo e aprofundo meus estudos sobre gênero e comportamento. O projeto é apenas um em um mar de projetos já consolidados sobre o tema (como o Papo de Homem, Homem Paterno e afins) e outros que felizmente vêm surgindo. O tema aprofundado ainda é recente no Brasil.

Por qual motivo achou importante discutir sobre o tema?

Denis: Por dois grandes motivos. O primeiro é que percebi que boa parte dos homens não lida com sua saúde mental e suas questões emocionais. Atropelamos nossos sentimentos, colocamos eles debaixo de um tapete e empurramos o trabalho e as responsabilidades em cima. Aprendemos a performar um papel de força e virilidade que não é natural. Um dia essas questões e essa performance falarão alto com grande poder de machucar e quanto antes lidarmos com tudo isso, melhor.

E o segundo?

Denis: O segundo motivo surgiu durante meus trabalhos com diversidade (trabalho com marketing e comunicação em uma grande empresa, atendendo demandas de inclusão e diversidade), em que percebi que boa parte das barreiras profissionais e sociais enfrentadas por mulheres e pessoas LGBTQIA+ são provocadas pelos homens, em especial, heterossexuais. Ou seja, somos uma barreira enorme para nós mesmos e para grande parte da população. Parafraseando um grande amigo homossexual, "se nós homens somos os responsáveis por tantas desigualdades e violências, certamente somos nós os que precisam de maior conscientização". Os homens têm um papel fundamental para desconstruir nossa sociedade patriarcal, machista e heteronormativa, dessa forma acredito que precisamos nos conhecer, nos fortalecer, compreender sobre equidade e estender a mão para aqueles e aquelas que precisam. Acrescento que somos parte responsável, também, pelo racismo estrutural que permeia nossa sociedade e como homem mestiço (de origem negra, branca e índia), sinto que temos um papel fundamental, também, na identificação das diversas masculinidades possíveis nos homens.

O que você recebe de retorno dos homens que acompanham a página?

Denis: A maior parte dos comentários masculinos que recebo são de homens que agradecem pelo perfil existir e por abordar questões que nunca lhes foram fáceis. Quando falo em meus textos que os homens são diversos, possíveis e plurais, mostro que há muito espaço para homens que não são do tipo padrão e que são sensíveis, artísticos, de corpos variados. E que tudo isso é uma grande virtude, embora a sociedade tenda a mostrar que não, e é uma grande qualidade para homens heterossexuais. Do lado negativo, e que nem encaro como negativo, vez ou outra surge algum homem que discorda de algum tema e mostra que pensa diferente. E tudo bem, me proponho a dialogar de forma aberta, para entender o pensamento e criar um debate saudável. Precisamos aprender a dialogar com quem pensa diferente de nós, como propõe o trabalho do Guilherme Valadares do blog Papo de Homem, o qual sempre acompanho e me serve como referência.

Qual tema você acha que foi o que teve mais reações até agora?

Denis: Um dos temas que mais gerou discussão foi sobre o recente caso de acusação de estupro envolvendo o jogador Neymar. Sem tomar qualquer partido, me propus a conversar com o leitor sobre porque ao lermos uma notícia como essa, nós homens tendemos a criticar as mulheres e achar que elas são culpadas pela violência que sofrem. Homens costumam usar argumentos como "ela que pediu", "ela que se vestiu assim", "ela que estava procurando", sem sequer pensar no que tudo isso significa e nas consequências das nossas falas. Discursos têm poder e precisamos ter consciência disso.

Como você busca desconstruir a sua masculinidade tóxica e como acha que pode ajudar outros homens?

Denis: Em primeiro lugar, me conhecendo, aprendendo com meus erros e acertos. Isso me faz ganhar mais consciência sobre o peso dos meus atos em mim mesmo e na vida de todos que convivem comigo. Depois, aprendendo a ouvir as pessoas. Por que chamamos de "mimimi" quando uma mulher reclama de algo? Por que chamamos de "viadagem" quando um homem reclama de algo? Precisamos aprender a ter empatia para entender um pouco como vive e como se situa o outro lado da conversa. Acredito que posso ajudar outros homens quando abro esse diálogo, seja no Instagram, seja em alguma palestra ou roda de conversa, mas, especialmente, na roda de bar, no café, no almoço, na balada, no futebol... porque esses espaços são impregnados de comportamentos nocivos e podemos mostrar que há possibilidades para diversos comportamentos saudáveis.

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