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Especial
08/07/2019 12:00:00

A vida de João Gilberto, símbolo da bossa nova e da consagração da música brasileira no mundo


A vida de João Gilberto, símbolo da bossa nova e da consagração da música brasileira no mundo

Dono de uma voz e da batida de violão que sensibilizaram ouvidos mundo afora, o músico João Gilberto morreu neste sábado (6) aos 88 anos, segundo confirmaram a assessoria da cantora Bebel Gilberto, sua filha, e, em publicação nas redes sociais, Marcelo Gilberto, seu filho.

Ainda não há detalhes sobre as circunstâncias da morte, no Rio de Janeiro.

O cantor e violonista é conhecido como o "pai da Bossa Nova" - voz da faixa e do disco símbolos do estilo, Chega de Saudade, e um dos principais representantes da projeção internacional da música brasileira na década de 60.

Ainda cedo, em Juazeiro, cidade baiana onde nasceu em 1931, João mostrava ligação íntima com a música - sua família era formada por músicos amadores e, adolescente, participou do grupo musical Enamorados do Ritmo. Aos 18, foi crooner (termo que costuma se referir a cantores que transitam entre vários gêneros e buscam fazer apresentações com apelo popular) na Rádio Sociedade da Bahia.

Em 1950, começa sua primeira incursão no Rio de Janeiro, onde passará os cinco anos seguintes. Neste período, trabalhou em algumas frentes, tentando tanto carreira solo como participando de conjuntos vocais.

Mas foi entre 1955 e 1957, ao sair do Rio e se estabelecer sobretudo em Diamantina (MG), que João viveu um período de intenso treino e desenvolvimento de sua arte, aprimorando um estilo florescido pelo encontro entre o samba e o jazz e que marcaria para sempre não só sua geração de músicos, mas as futuras.

João Gilberto em foto dos anos 70, sorrindo e segurando violãoDireito de imagemMICHAEL OCHS ARCHIVES VIA GETTY
Image captionJoão Gilberto nasceu em família de músicos amadores

O lançamento de 'Chega de Saudade'

De volta ao Rio, ainda desconhecido, João Gilberto começou a se aproximar de nomes importantes da cena musical, como Roberto Menescal e, depois, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, estes dois compositores da música que consagraria João, Chega de Saudade.

Este era também o nome do disco de estreia do baiano, que começou a ser gravado nos estúdios Odeon em 1958 e foi lançado em 1959. Em março, nos 60 anos de estreia do LP, a BBC News Brasil publicou os bastidores da produção da obra.

João não foi o primeiro a gravar a faixa; a cantora Elizeth Cardoso já havia interpretado-a no álbum Canção do Amor Demais, inclusive com participação de João no violão nesta e em outra música.

Em uma outra reportagem da BBC News Brasil, o produtor musical André Midani - que morreu em junho e foi um dos nomes mais importantes da indústria fonográfica brasileira nas últimas décadas - lembrou de seu primeiro encontro com João Gilberto, em 1957.

"O Dorival (Caymmi) chegou ao estúdio da Odeon, me chamou e fomos para a minha sala. Nisso, apareceu também o Aloysio de Oliveira, que era diretor artístico. Dorival disse: 'Gente, tem um menino que veio da Bahia, calado, conversa pouco, mas que canta demais. E tem uma divisão revolucionária. Vocês precisam ouvir isso'", contou Midani.

"Marcamos um encontro e, no dia combinado, o Dorival chegou com aquele sujeito, que eu não sabia nem o nome. Conversamos um pouco e nada do moço abrir a boca. Até que em um determinado momento, o Dorival falou 'João, toca aí um pouco, porque eles querem ouvir o que você faz'. Ele tocou e o resto é história".

Sobre os encontros que juntariam João Gilberto a João Donato, Tom Jobim e Vinícius de Moraes naquela época, o produtor musical diz ter percebido estar diante de uma vanguarda.

"Tive uma visão, primeiro europeia, porque aquilo me lembrava a nova música francesa daquela época, que se distanciava do que era antigo. Ao ouvir a Bossa Nova, percebi que aquele estilo era música de jovem feita para o público jovem", disse em entrevista à BBC News Brasil.

Sucesso no exterior

João Gilberto em 2008, no palcoDireito de imagemMARCO HERMES / AFP
Image captionCantor morou no exterior por quase duas décadas

Logo pareceu mesmo haver uma vocação internacional na bossa nova, o que deu frutos como, já em 1961, o lançamento nos Estados Unidos do álbum de João Gilberto Brazil's Brilliant. Em 1962, o brasileiro se apresentou no Carnegie Hall, influente sala de concertos em Nova York; e em 1964, lançou em parceria com o saxofonista americano Stan Getz um disco.

Getz/Gilberto levaria em 1964 o prêmio de álbum do ano no Grammy, análogo ao Oscar na música. Foi um dos dois Grammys já vencidos por Gilberto - outro viria em 2000, na categoria World Music, com o álbum João Voz e Violão, produzido por Caetano Veloso.

Já no início da década de 60, o músico começou a fazer turnês pelo mundo. Também viveu fora por quase duas décadas, principalmente nos Estados Unidos, voltando para o Brasil definitivamente em 1979.

Morando no Rio de Janeiro, fez mais parcerias com nomes da música brasileira, como com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia no álbum Brasil; além de continuar viajando para turnês no exterior.

Também é conhecida sua influência em encontros com os Novos Baianos.

Mas boa parte do repertório que continuou apresentando nas décadas mais recentes ainda era tributária de sua produção dos anos 50 e 60.

A última apresentação do baiano aconteceu em 2008, na comemoração dos 50 anos da bossa nova - que passou por Rio, Salvador, São Paulo e Nova York.

Já seu último álbum lançado no Brasil foi João Gilberto in Tokyo, de 2004.

Distância dos holofotes

A reclusão, os problemas de saúde e as disputas na família foram assuntos sobre João impulsionados na mídia na mesma medida em que sua distância das aparições públicas aumentava.

Em entrevista à BBC News Brasil publicada em março, Roberto Menescal, amigo antigo de João Gilberto, afirmou que não tinha notícias dele há anos.

"Recluso ele sempre foi. Mas, nos últimos anos, chegou ao máximo da reclusão", lamentou.

O jornalista e pesquisador Ricardo Cravo Albin também relatou tentativas de aproximação.

"Há uns cinco anos, liguei para o João. Ele atendeu, mas disse que não estava. Respeitei. Dias depois, a pedido do Otávio Terceiro, seu antigo empresário, voltei a ligar. Ele atendeu de novo e disse que o João não estava. Pô, a voz do João é inconfundível!", lamentou o musicólogo.

"Me recuso a dizer que João Gilberto é neurótico ou desequilibrado. Nada disso. É apenas um sujeito excêntrico e original", afirmou Albin à reportagem.

BBC Brasil



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