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Crise na Venezuela
25/06/2019 00:00:00

Venezuelanos empreendem para recomeçar a vida em Roraima


Venezuelanos empreendem para recomeçar a vida em Roraima
Ilustração

A imigração venezuelana transformou Roraima em diversos aspectos e também tem provocado mudanças na economia. Driblando o desemprego, venezuelanos que chegam ao estado estão empreendendo para recomeçar a vida no Brasil.

Nesta terça-feira (25), quando é comemorado o Dia do Imigrante, o G1 mostra histórias de dois venezuelanos que, fugindo da crise política e econômica no país natal, conseguiram abrir empreendimentos em Boa Vista.

Segundo a Junta Comercial, Roraima tem 181 venezuelanos donos próprio negócio. Mais de 30% deles se registrou como como Microempreendor Individual (MEI) entre janeiro e maio deste ano. O número quase supera o registrado no ano passado quando 64 microempresas foram abertas por venezuelanos.

O barbeiro Elvin Luiz Aguilera, de 30 anos, que imigrou para Roraima em 2017 hoje tem seu próprio negócio. Ele investiu R$ 2 mil para a abrir sua barbearia e hoje fatura cerca de R$ 3,5 mil por mês.

"O segredo é ter calma e paciência. Não se desesperar, que uma hora vai dar certo", diz ele.

O ex-policial Cona, quando ainda estava na Venezuela, tentou por duas vezes empreender. Mas foi só quando imigrou para Boa Vista que conseguiu realizar seu sonho. Ele tem uma oficina mecânica e hoje também emprega imigrantes.

'Lado positivo da migração'

Desde 2015, Roraima recebe um número crescente de imigrantes venezuelanos que fogem do país natal em razão da crise econômica e política vivida no país. Hoje se estima que 32 mil estão vivendo em Boa Vista. No estado há 13 abrigos públicos com 6,5 mil moradores venezuelanos.

Entre as empresas formalizadas por venezuelanos estão firmas de venda de veículos e acessórios, comércios atacadistas e varejistas, restaurantes e lanchonetes, salões de beleza, atividades com madeira e produtos derivados, artigos de joalheria e até de atendimento médico ambulatorial.

Para o economista Fábio Martinez, a novidade mostra um "lado positivo da migração". Na avaliação dele, a expansão do número de empresas administradas por venezuelanos estimula concorrência entre os empreendedores locais, além de atender a demanda dos próprios imigrantes, também como consumidores. É um novo nicho de mercado.

"Os venezuelanos que chegam não estão habituados a nossa forma de comércio, embora seja similar. Existe algumas barreiras, o próprio idioma é uma delas. Então, o que temos é um novo nicho de mercado que é bastante interessante do ponto de vista econômico", disse Martinez.

"Muitos venezuelanos chegam em uma situação precária e acabam tendo que pedir esmolas nas ruas, andar com cartazes a procura de emprego.Mas existe uma parte que veio para empreender, abrir seus próprios negócios, gerar riqueza e, mais importante de tudo: gerar emprego em um momento em que batemos recordes nas taxas de desemprego em Roraima", pontuou o economista.

Sonho realizado e vida reconstruída

O ex-policial Cona chegou a imigrar ao Peru, mas depois escolheu se mudar para o Brasil. Em Roraima, viu a oportunidade de fazer um sonho antigo se concretizar: ter sua própria oficina mecânica.

"Comecei a pensar em sair da Venezuela em 2015 e escolhi o Brasil por conta da longa história na indústria automotiva. É um país que exporta veículos para toda a América Latina e achei interessante ter uma experiência aqui", explicou, entusiasmado.

O imigrante contou que quando tinha entre 18 e 19 anos, trabalhou em uma empresa de seguros, mas não se sentia confortável com o emprego formal, atrás de uma mesa e entre quatro paredes. Começou a trabalhar em concessionárias de carros e contou que aprendeu muito. Aos 23 anos terminou um curso técnico superior universitário em tecnologia automotiva.

Ainda na Venezuela, teve sua primeira oficina, no ano de 1996, em parceria com um cunhado, mas durou apenas três anos. Resolveu estudar e ingressou na polícia municipal de Caracas em 2000. A paixão por tecnologia automotiva sempre falou mais alto e sua atuação na corporação foi voltada para a oficina.

Mesmo trabalhando para o governo venezuelano, sempre teve o desejo de ser empreendedor. Em 2008 criou uma loja virtual de revenda de peças automotivas. Permaneceu na polícia até 2012, saiu por vontade própria e resolveu estender o negócio da internet para uma loja física.

Cona lembra que o negócio caminhava bem, mas a inflação do país era um desafio difícil de lidar. A crise já dava sinais que iria se agravar e foi preciso um novo sacrifício: sair do país. Em março de 2016 ele chegou a Roraima.

Após três semanas conseguiu seu primeiro emprego em uma oficina onde trabalhou até o ano passado, quando decidiu fazer um empréstimo e abrir seu próprio negócio.

Ele conseguiu manter a oficina até 20 de maio deste ano, mas teve que fechar o empreendimento em razão de dívidas. Depois, abriu uma outra oficina em sociedade com um brasileiro.

"Minha profissão é muito versátil. Não é só consertar veículos. Posso vender peças, posso planejar a manutenção de uma frota de veículos, posso criar peças, é muito versátil, porque sempre vão existir carros", resume.

No ano em que o mecânico chegou a Roraima, a Polícia Federal recebeu 2.312 pedidos de refúgio. Esse número chegou a 11.564 mil só nos cinco primeiros meses de 2019.

Nesse período, Cona disse ter acompanhado o avanço da migração na capital, e, junto com isso, as dificuldades tanto de brasileiros quantos dos imigrantes de lidarem com a situação.

"Senti essa mudança de tratamento na própria pele, à medida que a imigração aumentou. Certa vez estava trabalhando na oficina, fazendo uma suspensão dianteira em um carro. De repente a dona me escutou falando em espanhol e ficou irritada. Falou que não queria que venezuelanos tocassem no seu carro. Foi uma dor para mim. Eu estava trabalhando e não roubando. Respirei fundo, me segurei e deixei o carro para ser cuidado por outro funcionário".

"Há o preconceito, mas também há muitos venezuelanos que resistem a aceitar que estão em outro país, com outras pessoas, e isso às vezes choca um pouco. Há muitos venezuelanos que não assimilam que é outro país e também há brasileiros que não assimilam o que é esta imigração".

'Calma e paciência'

Quando chegou ao Brasil, Elvin Aguilera conta que passou horas a fio sob o sol escaldante da capital, oferecendo cortes de cabelo nas ruas. Hoje ele abriu sua própria barbearia e vê a clientela crescer.

"Começamos com uma cadeira para três barbeiros. Agora, temos clientes fiéis, muitos são brasileiros, que elogiam nosso corte. Sempre falam que 'ficou top'", brinca.

 
Empreendimento completou um ano em maio de 2019 — Foto: Fabrício Araújo/G1 RR

Empreendimento completou um ano em maio de 2019 — Foto: Fabrício Araújo/G1 RR

Para se destacar da concorrência, ele diz que aposta em preços baixos e qualidade.

"Já cortei cabelo de graça tanto para brasileiros, quanto para venezuelanos. Tenho um grande amigo brasileiro, por conta disso. Certa vez ele chegou aqui com cabelo e barba grande. Envergonhado, ele disse que tinha apenas R$ 5. Cortei o cabelo dele e fiz a barba e tudo. Ele foi embora, depois voltou e hoje é mais que um cliente", contou o Aguilera.

Outro diferencial é o tempo de funcionamento: o estabelecimento abre as portas de domingo a domingo das 8h às 20h.

"Na Venezuela estávamos com esse costume de trabalhar até aos domingos, porque as coisas estavam muito difíceis. As pessoas começaram a fazer isso quando o movimento começou a ficar fraco", disse, Smith. "Estamos em outro país e precisamos aproveitar para trabalhar", complementou Aguilera.

Com a vida sendo reestruturada, Aguilera não pensa em retornar à Venezuela ou mudar de cidade. "Quero dar uma boa educação para minhas filhas no Brasil".

G1



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