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Internacional
05/06/2019 10:30:00

Sobreviventes relembram massacre da Praça da Paz Celestial, há 30 anos na China

O Correio conversou com chineses que estavam na Praça Tiananmen em 4 de junho de 1989, quando uma repressão a protestos estudantis deixou centenas de mortos


Sobreviventes relembram massacre da Praça da Paz Celestial, há 30 anos na China
Ilustração

Um fantasma teima em assombrar o Partido Comunista da China (PCC), levando a autoridade onipotente do país a reforçar o controle sobre 1,3 bilhão de pessoas e a renegar dias sangrentos do passado. O mesmo fantasma atormenta quem conseguiu escapar de ser fuzilado por milhares de soldados ou de ser esmagado pelos tanques que invadiram a Praça Tiananmen (ou Praça da Paz Celestial), no coração de Pequim, por todos os cantos, naquela madrugada de 4 de junho de 1989. Depois de sobreviverem ao massacre dos estudantes, Fang Zheng, 53; Wuer Kaixi e Fengsuo Zhuo, 51; e Rose Tang, 50, se viram forçados ao exílio. 

Em depoimentos exclusivos ao Correio (clique aqui para ler a íntegra dos relatos), os líderes estudantis e ativistas de Tiananmen que clamavam por democracia acusaram o presidente Xi Jinping e o PCC de se esconderem por trás do progresso econômico, a fim de justificar a matança, que deixou um número de mortos desconhecido (leia mais abaixo), e de aprimorarem o aparato repressivo.

Em 1989, Fang Zheng tinha 23 anos e era estudante na Universidade de Esportes de Pequim. Não se considerava líder do movimento. Começou a se envolver mais depois que os manifestantes iniciaram uma greve de fome. “Ajudei a impedir a passagem de caminhões militares e aderi aos protestos depois da declaração da lei marcial”, relatou. 
 
De acordo com ele, a situação dos direitos humanos na China piorou nos últimos três anos, desde a ascensão de Xi ao poder. “A política agora é mais conservadora. A ditadura é maior e há mais controle por parte do governo”, admitiu. “Desde o massacre, não houve grandes mudanças no PCC. Parece até haver mais abusos dos direitos humanos agora, talvez por causa da tecnologia. Os chineses usam o celular para fazer vídeos e compartilhar nas redes sociais quando há protestos e injustiça. Agora, as pessoas sabem das atrocidades no Tibet e em Xinjiang”, acrescentou Fang, hoje um motorista de Uber que vive em São Francisco.
 

Cerco

Ele conta que a determinação em manter a ocupação da Praça Tiananmen quase lhe custou a vida. “Na tarde de 3 de junho daquele ano, a atmosfera na praça era bizarra. Senti algo anormal, quando bloqueávamos cerca de 500 soldados desarmados que afluíam de uma saída  secreta do subsolo, no lado oeste do Grande Salão do Povo (sede do PCC). Os militares e os civis lançaram pedras uns contra os outros e houve feridos de ambos os lados”, lembrou. O repórter fotográfico Jeff Widener, que dois dias depois registraria a imagem mais emblemática do massacre, foi atingido na cabeça (leia o Duas Perguntas Para). Na madrugada seguinte, uma jovem colega foi até Fang. Estava apavorada. “Pedi a ela que ficasse ao meu lado. Mais tarde, as tropas e os tanques entraram em Tiananmen de todas as direções e nos cercaram. Estávamos sentados ao norte do Monumento aos Heróis do Povo”, disse Fang.
 
Depois de serem expulsos, às 4h30, ele e 2 mil estudantes caminharam pela Avenida Chang’an (Avenida da Paz Celestial) rumo à universidade. “Às 6h, fomos emboscados por tanques, que dispararam bombas de gás venenoso. Havia fumaça e comecei a sufocar. A jovem que estava comigo desmaiou. Eu a levantei até a calçada e não pude ver o tanque se aproximar.  Ele passou em cima de minhas pernas. Não senti dor na hora. Apenas que minhas pernas estavam  espremidas. Minhas calças se misturaram aos trilhos do tanque. Desmaiei e acordei no hospital”, relatou Fang, que perdeu as duas pernas. Ele acredita que, à medida que o PCC se enfraquecer, os chineses falarão sobre Tiananmen. “A maioria escolheu o silêncio.”


Medo

Um dos líderes estudantis, Wuer Kaixi acha que o massacre impôs o medo na China. “É isso o que o regime tem usado para comandar o país nas últimas três décadas: o medo e a mentira”, comentou o dissidente, que mora em Taiwan. “A razão pela qual o PCC levou adiante o massacre foi porque viu o risco de perder o poder.” Fengsuo Zhuo, outro líder, era estudante de física na Universidade Tsinghua. “Na madrugada do dia 4, ouvi tiros de todos os cantos e helicópteros. Era uma zona de guerra. Às 5h, fomos expulsos. Os tanques ficaram a 3m de mim. Fui espancado com bastões e coronhadas. No caminho para o câmpus, vi 40 corpos no chão, perto do hospital.”
 
Para Fengsuo, o governo escolheu o caminho errado, ao matar ativistas pacíficos. “Ele bloqueou para sempre o rumo de uma mudança de poder pacífica. Hoje, há campos de concentração. Isso tem raízes em 1989. As demandas de três décadas atrás são muito importantes para a China”, disse o homem cujo nome era o quinto na lista dos mais procurados pelo PCC e mora em Newark (EUA).
 
A ativista Rose Tang, hoje em Nova York, também sobreviveu ao massacre. Segundo ela, a presidência de Xi marca tempos obscuros e aumento nos abusos. “Os métodos de controle sobre a população e de privação dos direitos humanos têm sofrido piora, atingindo quase toda a sociedade. Isso tem sido ajudado pela tecnologia, como o reconhecimento facial e a vigilância em massa.” Ela acusa o governo de realizar uma lavagem cerebral e fazer crer que milhares de estudantes tenham sido mortos em troca de 30 anos de prosperidade. “É uma bobagem. Você imagina Hitler dizendo que a Alemanha é tão rica hoje graças ao Holocausto?”, arrematou.

Número de mortos

O número exato de mortos é desconhecido. Dois dias depois do massacre, o governo informou "quase 300 mortos", incluindo militares, na repressão do que qualificou de "distúrbios contrarrevolucionários".
 
O embaixador do Reino Unido na época falou de dez mil mortos e a Cruz Vermelha Chinesa, de 2.700. Em geral, segundo dados hospitalares, estima-se que houve entre 400 e mais de mil mortos.
 
Correio Braziliense


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