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Especial
15/05/2019 10:30:00

Mais de 300 crianças já foram atendidas na Rede de Assistência às Vítimas de Violência


Mais de 300 crianças já foram atendidas na Rede de Assistência às Vítimas de Violência
Ilustração

Desde que foi criada, em outubro do ano passado, a Rede de Atenção às Vítimas de Violência Sexual (RAVVS) da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) já conseguiu assistir e proteger 413 pessoas em situação de vulnerabilidade. Deste total, 379 são do sexo feminino, sendo 320 casos entre o grupo de crianças e adolescentes de 0 a 17 anos. A maior parte das agressões ocorre na residência dos menores, em sua maioria por pais e outros familiares, ou alguém do convívio muito próximo da criança e do adolescente, como amigos e vizinhos.

De acordo com Camile Wanderley, coordenadora estadual da RAVVS, o número é muito significativo, pois quanto mais cedo for descoberto o abuso, mais fácil será evitar que o agressor continue com o ciclo vicioso. Para ela, abordar a educação sexual e, sobretudo, os casos de violência na escola, é importante para que, diante das ocorrências de abuso em sala de aula, os professores estejam preparados para identificá-los e saber quais procedimentos tomar. “Muitos educadores ainda não sabem o que fazer diante dessas situações, mas muitas vezes eles são os únicos que podem interromper o ciclo da violência”, afirma.

A coordenadora destacou que qualquer pessoa, vítima de violência, pode ser atendida pela RAVVS. Todavia, como a maioria dos casos acontece com o público infanto-juvenil, é preciso preservar as crianças e os adolescentes, já que o impacto que a violência sexual causa na estrutura deste grupo demanda tempo para ser reparado. Como os casos de abuso sexual são de difícil prevenção, e em muitas vezes, praticados dentro da própria família, uma relação aberta com as crianças e os adolescentes é necessária.

Via de regra, segundo Camile, não tem como perceber o abuso fisicamente, contudo, o comportamento da criança é alterado. O abuso atinge de tal maneira que ela não consegue fugir. A criança passa a somatizar todo o problema, e isso revela mudanças em seu comportamento. A vítima se torna mais agressiva ou, ao contrário, mais introspectiva, depressiva, calada. Qualquer tipo de alteração comportamental é um sinal de alerta.

“A escola também é porta de entrada para a violência sexual, porque quando detectado nesse ambiente os professores, coordenadores, diretores ou até mesmo os amigos podem entrar em contato com a RAVVS ou com o Conselho Tutelar para que seja dado o procedimento e o encaminhamento do caso. Não podemos nos deter apenas aos equipamentos da saúde”, destacou Camile Wanderley.

Segundo ela, entre os casos exitosos que a RAVVS conseguiu resolver está a de uma menina de 10 anos que, em meados do final de outubro e início de novembro do ano passado, ao visualizar uma reportagem da Rede na tevê, anotou o número num bloquinho para denunciar que era abusada sexualmente pelo padrasto. Contudo, quando o agressor viu a enteada escrever o número no papel, bateu nela com tanta violência que a criança, com medo, fugiu para a casa de uma tia.

“Quando a tia entrou em contato com a RAVVS, imediatamente fizemos uma articulação com o Conselho Tutelar. A criança foi atendida no HGE [Hospital Geral do Estado] e, ao chegar lá, foi feito todo o procedimento junto ao Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente e o IML [Instituto Médico Legal]. Abrimos um BO [Boletim de Ocorrência] para que fossem tomadas as providências legais em relação ao agressor. A vítima começou a ser segmentada pela Rede e esse foi um dos casos que impactou muito pelo fato de que, quantas crianças e adolescentes ainda sofrem caladas, às vezes por falta de conhecimento, de vergonha e, principalmente, com medo”, destacou.

Segundo Camile Wanderley, atualmente a criança permanece com a guarda da tia. No entanto, a coordenadora estadual da RAVVS foi enfática ao dizer que a menina vai precisar de tempo para voltar a sua rotina. “Uma criança de 10 anos está começando a entrar precocemente na puberdade, pois o corpo não está nem formado. Além da violência psicológica, existe o dano da estrutura do próprio organismo que não está nem concebido, formado. Por muitas vezes, as vítimas desenvolvem o transtorno de estresse pós-traumático e aí precisamos trabalhar de forma assertiva para que isso possa ser equacionado a fim de que ela possa voltar à vida e não desenvolva nenhum tipo de comportamento agressivo, psicótico e até depressivo”, garantiu a coordenadora.

Camile Wanderley explicou que, segundo a literatura, o agressor, geralmente, foi agredido em algum momento da vida. Por isso, é importante o cuidado com essas vítimas para que elas não desenvolvam determinadas patologias, tampouco repliquem um tipo de comportamento abrupto, a fim de que não seja um futuro agressor. “Ela verbalizava bem e chorava muito enquanto relatava o caso. Esse tipo de violência é crônico. Nos momentos de contato com essa vítima recordo-me que ela queria, no desespero, dar vazão, expulsar tudo aquilo que estava angustiando, maltratando e adoecendo. O psicológico fica adoecido, o trauma fica recorrente. Consequentemente a criança vai ficar com aquela imagem repassando várias vezes em sua cabeça, com pensamentos automáticos o tempo todo”, salientou Camile.

Inocência Perdida – Outro caso que teve um desfecho positivo foi o de uma adolescente de 13 anos. Conforme a coordenadora estadual da RAVVS, a Rede foi acionada por um conselheiro tutelar, após os professores identificarem que a menina estava retraída dentro e fora da sala de aula. Logo, a mãe foi chamada para conversar e, de pronto, sua filha encaminhada para a Delegacia da Criança e do Adolescente.

No local, ela contou que era abusada sexualmente pelo pai desde os seis anos de idade. De acordo com Camile, o genitor ameaçava a menina, dizendo que, se ela falasse alguma coisa para alguém, mataria sua mãe e sua irmã mais velha, que também tinha sido abusada sexualmente por ele. Em depoimento, a mãe relatou que nunca percebeu um comportamento estranho do companheiro para com as filhas e que só teve coragem de ir à delegacia quando soube, de forma inesperada, o que tinha acontecido com as meninas. Ele encontra-se foragido desde a denúncia, enquanto as irmãs estão protegidas e bem-cuidadas num abrigo da capital.

Mãe e filhas abusadas – Outro caso que chamou a atenção da RAVVS e que teve o atendimento célere e humanizado foi o de uma de mãe que procurou a Delegacia da Criança e do Adolescente quando descobriu que seu companheiro estava abusando das três filhas. A mulher disse ainda que foi abusada pelo mesmo indivíduo na adolescência, mas que, por vergonha e medo, nunca contou para ninguém. O homem está preso desde a denúncia.

Resultados surpreendem – Após seis meses de implantação, Camile Wanderley disse que a RAVVS ainda precisa crescer em vários aspectos. Contudo, diante de tão pouco tempo apresenta resultados surpreendentes. “Já conseguimos entrar nas unidades de saúde e fazer com que os profissionais tenham um entendimento sobre a Rede e como devem proceder para assistir a essa vítima da melhor maneira possível. Como profissionais de saúde, estamos discutindo mais sobre a situação da violência sexual no Estado, e isso é um saldo bastante significativo para toda a nossa equipe”, avaliou.

Para ela, criar espaços de discussão faz com que a Rede se fortaleça no atendimento a essas vítimas, visto que, aos poucos, barreiras vão sendo desmitificadas. No olhar de Camile Wanderley, existem ainda muito medo e preconceito da sociedade em relação ao tema e, por isso, é preciso que as pessoas comecem a entender que o falar proporciona, sim, maiores esclarecimentos.

Parceiros – Na tentativa de ajudar a identificar as vítimas e encaminhá-las o mais rápido possível para os cuidados necessários, em seis meses a RAVVS já conseguiu estabelecer um canal de comunicação com as secretarias da Educação, de Segurança Pública, da Mulher e dos Direitos Humanos, da Assistência e Desenvolvimento Social, da Prevenção à Violência, bem como a Defensoria Pública, o Ministério Público, Poder Judiciário e o Departamento de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit).

A parceria tem possibilitado mostrar a população alagoana que existe um serviço preparado para garantir o atendimento médico de forma humanizada e integral, a fim de que a vítima de exploração sexual possa voltar a ser reinserida novamente na sociedade.

Atendimento – O serviço oferece assistência multidisciplinar em saúde, com transporte entre os pontos de atenção 24 horas por dia, de domingo a domingo. A Rede pode ser acessada através dos telefones 0800 284 5415, 3315-2059 e 9 8882-9765, e atua de forma integrada com os órgãos de segurança pública, a exemplo do Instituto Médico Legal (IML) e delegacias. 

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