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Economia
19/04/2019 15:00:00

Elena Landau: "É fácil ser liberal só na economia. Quero ver ser liberal de verdade"

"Musa das privatizações" no governo FHC, a economista que hoje preside o movimento Livres expõe seus conceitos de liberalismo e ataca o conservadorismo do governo


Elena Landau:
Elena Landrau

A advogada e economista Elena Landau, 61 anos, ficou conhecida, na década de 1990, como a musa das privatizações. À época, exerceu o cargo de diretora de desestatização do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso. Após 25 anos, deixou o PSDB em 2017 e passou a integrar o Livres, movimento multipartidário que hoje preside e que foi criado para defender o liberalismo – econômico e de costumes. 

Elena já trocou farpas com o ministro da Economia, Paulo Guedes, que diz ter sido um péssimo professor, mas avalia que ele é a esperança no governo Jair Bolsonaro, de quem é crítica ácida. Nesta entrevista, ela conta como o Livres deixou o PSL, onde o movimento foi incubado, avalia o desempenho do Planalto nestes primeiros meses após a posse de Bolsonaro, expõe seus conceitos de liberalismo, ataca o conservadorismo, repreende o seu ex-partido e a gestão petista, defende as privatizações e admite estar pessimista com o Brasil.

Por que a economia está demorando tanto para engrenar no país?
Antes de começar o mandato de Bolsonaro, as pessoas tentavam interpretar essa estagnação com dados de emprego, informalidade, questões nesse sentido. Agora, há interpretação quase unânime de que os empresários são movidos a expectativas. E as expectativas de que as reformas que poderiam dar mais segurança aos investimentos não se confirmaram. Um pouco dessa estagnação e revisão tão rápida do PIB de 2019 para baixo de 2%, em alguns casos até próximo de 1% – o que é um desastre do ponto de vista do emprego –, é decorrência da frustração com a capacidade de o governo usar o cacife político natural que tem qualquer presidente eleito no primeiro mandato. As expectativas são ruins. Ninguém investe. Principalmente as expectativas sobre a Previdência, por ser questão de tornar o governo solúvel, pagar as próprias contas. Não é uma reforma qualquer. É fundamental. E o Bolsonaro gastou esse cacife muito rapidamente com essas trapalhadas no Twitter... As pessoas se deram conta de que o Bolsonaro é isso mesmo e estão na expectativa de ver como se sai desse imbróglio agora.

Como a senhora avalia os primeiros cem dias do presidente?
Foram piores do que eu esperava. Apesar de Bolsonaro não estar fazendo nada diferente do prometido. A campanha foi esquizofrênica: tratava apenas de costumes e falava com um público de direita, tinha um posto Ipiranga para assuntos com os quais ele não tinha afinidade nem vontade de conhecer. Vamos falar claro: Bolsonaro nunca foi muito ligado em economia. O passado dele é o oposto do que se pregava na campanha. As pessoas quiseram acreditar que alguém com 30 anos com um tipo de atuação iria mudar rapidamente e delegar todos os poderes ao Paulo Guedes. De um lado, não é surpreendente, porque o que fez nos cem primeiros dias foi o que fez a vida inteira. Falar com um público que já é dele, restrito, de conservadores de direita. Como recusar a existência do golpe de 1964, exaltar ditadores e torturadores. Confirmou o que de pior se imaginava, como, mais recentemente, na mudança no Ministério da Educação (a substituição de Vélez Rodríguez por Abraham Weintraub). Teve a oportunidade de trazer um especialista na área, em gestão pública, e vai lá e confirma esse lado, quase que sendo administrado pelas redes. No meio disso, vem a economia. O que se esperava, dada a firmeza da opinião do Paulo Guedes na campanha e a qualidade da equipe que o Temer deixou e continuou com Guedes, era que apresentasse nos primeiros dias um pacote de reformas consolidado. Previdência, reforma tributária, abertura comercial, reforma do funcionalismo. Um pacote que mudasse a cara da economia brasileira. O que veio foi um atraso no envio da proposta da Previdência, apesar de ser de ótima qualidade, e principalmente uma posição de que “olha, essa é nossa reforma, se quiser, é essa ou não tem outra, é pegar ou largar”. Não é assim que as coisas funcionam. Perdeu-se muito tempo. Está pior na área econômica do que se imaginava. Agora ficou tudo vinculado à Previdência. O país só vai discutir o resto depois. É um erro. Estamos em abril, parados em torno da Previdência.

Olhando todos os fatores que circundam o Planalto, comportamento nas redes sociais, relação com o Congresso, dá para arriscar o que acontecerá com o governo?
Engrenar, creio que não vai. É difícil fazer previsão em um governo que tem uma emoção negativa a cada dia. Um mês atrás, houve uma onda de pessimismo dizendo que ele não terminaria o governo, mas acho isso um exagero. Temos de parar com a mania de que tudo é impeachment. Parar de balizar algo grave como o afastamento de um presidente. Ele foi eleito legitimamente com a pauta que defende. Não há surpresa na atuação dele e dos filhos nas redes. Quem votou nele sabia disso. Algumas pessoas, em um voto anti-PT, criaram um autoengano de que teríamos na área econômica alguma possibilidade. Eu anulei o voto. Não tinha condições de votar no Bolsonaro e muito menos no PT. Podemos chegar (ao fim do governo) aos trancos e barrancos, porque a sociedade vai reagir. Vai pressionar pela reforma da Previdência. Já há reação do Paulo Guedes, conversando com Rodrigo Maia (presidente da Câmara). O governo, em sua área pensante de longo prazo, já lançou a ideia de abertura comercial, a ideia de privatizações, desburocratização. As concessões estão andando. Há um grupo que não vai deixar o caldo entornar. Vamos chegar lá. Mas como? Com crescimento de 1% ou 2%, com uma crise de desemprego gravíssima? Não dá para ter ideia do que vai acontecer com este país sem criar postos de trabalho. A população vai ficar muito descontente. Teremos um novo julho de 2013? Até quando teremos passividade frente a esse desafio? Esse grupo pensante inclui uma equipe da área econômica, que tem reputação e compromisso com o país, além de alguns militares de bom senso, como(o vice-presidente Hamilton) Mourão e o Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional, GSI). Mas não vejo nenhuma mudança positiva em áreas fundamentais como o Itamaraty, a Educação, a Saúde. O Brasil está paralisado à espera da reforma da Previdência, como se, depois dela, entrássemos no paraíso. Enquanto isso, há retrocessos ideológicos, nos costumes, na educação. Não se fala em saúde. Na verdade, ninguém sabe como vai acontecer a abertura comercial, e, sem ela, não há crescimento de produtividade.

Como a senhora avalia o desempenho do Paulo Guedes?
Ele tinha uma ideia de que era muito fácil resolver as questões do país. Bastava vontade. Sempre criticava. Dizia ninguém sabia como fazer, só ele sabia, o PSDB tinha errado no Plano Real. E ele mantém esse discurso. Isso é muito ruim, porque é injusto com tudo o que foi feito desde a redemocratização. É injusto com o governo Temer, pela herança bendita em várias coisas. Tudo o que funcionou nos primeiros cem dias foi herança. Desburocratização, cadastro positivo, concessões, já estava tudo mais ou menos organizado. Até uma proposta de reforma tributária. Isso ele recebeu. Por outro lado, acho que ele reconheceu que a realidade é um pouco diferente. Que nem sempre o voluntarismo dá conta. Acho que vai melhorando. Para a Previdência, a proposta dele, na campanha, era de capitalização radical, imediata. Quando falávamos que havia um custo de transição, dizia que iria pagar com os ativos da privatização. Agora, já mudou a reforma. Ouviu opiniões, e a capitalização passou a ser questão menor, mesmo que ele mantenha essa paixão. O reconhecimento de que a realidade é mais complicada é importante. Com isso, podemos ter um desempenho melhor daqui para a frente. Continua com o discurso do R$ 1 trilhão de privatizações, mas não vai conseguir. Se chegar a R$ 80 bilhões neste ano, seria ótimo. Mas teria de ver se dentro dessa previsão está a cessão onerosa, se estão as concessões. Porque ele não está vendendo empresa nenhuma, mas, isso sim, subsidiárias de estatais. Nesse caso, o impacto não é no Tesouro, mas nas empresas que estão desalavancando. Então, é preciso um pouco de ajuste no discurso professoral. Mas está indo bem. É preparado, inteligente, tem pensado nos problemas do Brasil há anos e tem equipe muito boa. O Paulo Guedes é a nossa esperança no governo Bolsonaro. Torcemos para que ele dê certo.

Como ele era como professor?
Péssimo. Foi meu professor em matemática. Eu não ia à aula. Foi uma péssima experiência. Fui aluna dele na PUC-Rio, no mestrado. Tem essa história que ele inventou que implico com ele por ter me reprovado. Ele nunca desfez essa mentira. Seria bom fazer isso. Porque é óbvio que ele não me reprovou.

E aquela brincadeira de que o apelido dele na época de estudante seria “Tchutchuca” e você saberia a origem?
É piada. A geração jovem não sabe quem é o Tutty Vasques (humorista que publicou a brincadeira), equivalente ao que é hoje O Sensacionalista (publicação também de humor na internet). Os mais velhos entenderam que era piada. Não tenho nenhuma intimidade com o Paulo Guedes e nunca tive. É 10 anos mais velho que eu. Não tenho como saber nada da vida estudantil dele.

Como o movimento Livres tenta influenciar o debate público e trazer mais pessoas para as suas causas?
Aumentou a importância do Livres neste momento em que há um movimento liberal de verdade. Desmarcara essa ideia de que o governo Bolsonaro é liberal. Algo que até o ministro da Economia leva, por defender os ideais liberais na economia. Mas são todos conservadores. De liberal, não têm nada. O discurso de elogio do golpe de 1964, de elogio a torturador, de nazismo é de esquerda, de marxismo cultural: isso é um conservadorismo, que nem brasileiro é. Tudo importado. A questão dos costumes, Escola Sem Partido, nada disso é liberal. Não há no governo discurso sobre inclusão social, desigualdade, diversidade. É fácil ser liberal só na economia. Quero ver ser liberal de verdade. O Livres cresce nesse ambiente.

Qual é o conceito de liberal?
Há vários conceitos. É possível ter divergências, debates. Liberal não é um alguém defende a privatização, mas é contra o casamento homoafetivo. Não basta ser a favor de Estado mínimo e ter essa posição nos costumes completamente atrasada. Não existe isso. No nosso caso, usamos a imagem de liberal por inteiro. Defender a liberdade de expressão, de imprensa. Esse ataque do governo à imprensa não é ser liberal. É difícil definir, porque ser liberal é um sentimento, respeitar a opinião oposta, os desejos da outra pessoa, as opções sexual e religiosa. 

Como o livres se define? direita progressista? centro?
Tira a palavra “direita”. É liberal progressista. Não tem direita ou esquerda no movimento liberal. Sou uma liberal do estilo inglês, e não norte-americano. Há muita distorção no uso da palavra “liberal”, por culpa dos americanos. Nos EUA, até alguém como Olavo de Carvalho, que é a pessoa mais intolerante do mundo, pode ser considerado liberal. Isso é inadmissível. Deboche e agressão não fazem parte do mundo liberal. Podemos até brincar num debate, mas não aniquilar o adversário.

Como foi a saída do livres do PSL?
Muita rápida e frustrante. Não havia nenhuma possibilidade de o Bolsonaro estar próximo do Livres. Havia uma construção do grupo, eu nem participava tanto nessa época, cheguei no final desse movimento, para ser do conselho acadêmico. O grupo do Livres já tinha assumido vários diretórios, estava formando uma nova executiva, conversando com o Luciano Bivar(presidente do PSL), porque um dos líderes do nosso movimento é o Sergio Bivar, filho do Luciano. De uma hora para outra, fomos traídos. Luciano dizia que não havia nenhum compromisso com o Bolsonaro e que tinha feito com ele uma conversa de amigos. Tínhamos até data de lançamento do Livres como partido. O PSL mudaria de nome. Mas aí fomos surpreendidos pela conversa com o Bolsonaro. Saímos imediatamente. Era evidente que era incompatível estar no mesmo partido de uma pessoa conservadora de direita. Naquela época, janeiro de 2018, sequer liberal na área econômica o Bolsonaro era, mas só um conservador, intervencionista, militarista, preconceituoso – aquilo que ele sempre foi. Na campanha é que ele tentou disfarçar. Foi frustrante, mas compensador. Foi com a nossa decisão e firmeza em não participar do PSL que consolidamos nossa ideia de liberalismo. Vários partidos passaram a procurar os associados. Fomos tomando uma dimensão maior e tivemos a certeza de que era para não desistir e crescer.

O Livres vai seguir um movimento suprapartidário ou pode evoluir para uma sigla?
A decisão é seguir suprapartidário. Quando saímos do PSL, os nossos associados se filiaram em outros partidos. A maior parte está no Novo e no Cidadania, o antigo PPS. O importante é a pauta que defendem.

Como foi o desempenho dos candidatos do Livres na eleição de 2018?
Me perdi nas contas, mas acho que temos 14 mandatários. Estão entrando novos, como o Caio Miranda (vereador em São Paulo pelo PSB). Vários eleitos têm procurado o Livres para nos entender melhor. Estamos sendo valorizados neste momento conservador. Elegemos vários deputados estaduais, com um dos fundadores, o (deputado estadual gaúcho pelo Novo) Fabio Ostermann, dois deputados federais, o Tiago Mitraud (Novo-MG) e o Marcelo Calero (Cidadania-RJ), o senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL). Temos o prefeito de Teresópolis, Vinícius Claussen (Cidadania), que faz uma excelente administração. Agora, estamos focados em 2020.

Por muito tempo você foi do PSDB. Como vê a situação do partido?
Estou aliviada por não ser mais do PSDB. As razões que me fizeram sair permanecem, como a questão do Aécio (Neves, hoje deputado federal por Minas Gerais). Ele perdeu o protagonismo, mas está lá. O PSDB não respondeu diferente do PT, que tanto criticava. O partido envelheceu. Há pessoas que admiro, como o senador Tasso Jereissati (CE), um líder dentro do PSDB, que tem um espírito público espetacular. Ao redor dele, há pessoas da mesma qualidade. E há essa briga com o governador de São Paulo (João Dória), mais próximo do Bolsonaro do que deveria. 

O que precisa ser privatizado no Brasil?
Sou muito radical. Não acredito em melhoria de governança permanente. No Brasil, as pessoas não resistem a usar as estatais politicamente. Seria melhor para a sociedade como um todo se as empresas fossem administradas pelo setor privado. Sou favorável à privatização da Petrobras, da Caixa, do Banco do Brasil (BB), do BNDESPar, da Eletrobras. Não vejo nenhum sentido estarem na mão do Estado. O que esse governo está fazendo não é privatização, mas uma política de desalavancagem das estatais. A venda de subsidiárias entra no caixa das estatais. A única maneira de o dinheiro da venda de subsidiárias chegar ao Tesouro neste momento seria pagando empréstimos, como os que foram feitos pelo BNDES. Se privatiza o BB, a Caixa, vende todas as subsidiárias de uma vez só. Não há necessidade de aprovação do Tribunal de Contas da União (TCU). O BB, para mim, é um banco comercial como outro qualquer. Há outras soluções para o crédito agrícola. Nem as pequenas estão sendo privatizadas.

Por que não está saindo?
Primeiro, porque o presidente não quer. É algo que finalmente o Paulo Guedes entendeu. Se o presidente não quer, não sai. A nossa privatização do governo Fernando Henrique saiu porque ele queria, achava importante. O Bolsonaro não acha. O segundo ponto é que a governança não está concentrada no Paulo Guedes e no Salim (Mattar, secretário de desestatização do governo) – o que não é bom. O ministro da Ciência e Tecnologia segura a Ceitec, o da Infraestrutura, a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), e o Santos Cruz (Secretaria de Governo), a EBC. Se o presidente não tem convicção, não vai arbitrar a discussão entre os ministros.

Na população, a senhora vê resistência às privatizações?
A resistência vem de três pontos. Dos políticos, dos funcionários das empresas e dos fornecedores. Esses três criam um grupo forte contra a privatização e têm força de propaganda. Usam o imaginário da população de que se vai vender patrimônio público, que é entreguismo. O governo precisa mostrar à população que, dada a falta total de recursos, o que é preferível? Ser dono de uma estatal ou melhorar a capacidade de investimento em educação, saúde etc.? Falta explicar. Nunca houve uma campanha muito clara em defesa da privatização, como a atual da reforma da Previdência, que tem cada vez menos resistência – e espero que não se perca este momento. Mas a menor resistência é por motivos ruins, como a Lava-Jato e o Petrolão. Ficou claro que é perigoso deixar empresas na mão do Estado. A população ficou indignada. Infelizmente, foi a pauta negativa que deu essa possibilidade. Precisamos criar uma positiva, que existe, como no caso das telecomunicações.

No que é possível se agarrar para ter esperança de que o Brasil vai dar certo? 
(Risos.) Para ser o país do futuro? Só para o meu neto. A minha atuação politica, a minha indignação, é para ver se o Brasil do meu neto será, enfim, o país do futuro. O que estamos vendo com o Bolsonaro é um retrocesso tão grande... Depois de 13 anos do PT, é desesperador. Sempre fui otimista. Mas, neste momento, estou bem pessimista.

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