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Comportamento
22/03/2019 00:00:00

Professor vítima de Transfobia: "Transgeneridade nunca será problema para as crianças"

País faz parte dos países que se declaram em desenvolvimento na OMC e, por isso, tem direito a tratamento especial e diferenciado


Professor vítima de Transfobia:

Esta semana, uma troca de mensagens entre o diretor da escola Maria Felipa, em Salvador, na Bahia, e uma pessoa que procurava um local para matricular seu filho viralizou nas redes sociais. O motivo foi um comentário transfóbico feito pela mãe que buscava a instituição, que tem um professor transgênero lecionando capoeira.

O professor é Bruno Santana. Aos 30 anos, ele é ativista e membro do Coletivo de Transs pra Frente e da Transbatukada, professor licenciado em educação física pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) e pesquisador na área de educação, gênero, raça, direitos humanos e transmasculinidades.

Ele foi a primeira pessoa trans a formar na UEFS. Segundo ele, foi muito difícil estar em uma universidade. A maior dificuldade para ele era estar entre praticamente 18 mil estudantes e ser a única pessoa trans. “Foi um percurso muito solitário”, afirmou ao blog.

Segundo o professor, é preciso destruir a estrutura da sociedade que só tem uma visão de mundo e que perpetua tantos preconceitos. “A transgeneridade nunca será um problema para as crianças, as pessoas adultas que perdem tempo disseminando preconceitos. As crianças não estão preocupadas se seu professor é um homem trans, elas são inteligentes e entendem que a identidade de gênero é apenas mais uma possibilidade de ser e estar no mundo”, disse.

Leia a entrevista completa:

Como o senhor reagiu ao saber da conversa? Ficou feliz em ter o apoio da escola?

Bruno Santana: Em meio às transfobias nossas de cada dia, o que dizer da Escolinha Maria Felipa? Dizer que educação TransFormadora jamais se venderá ao capital. Jamais venderemos nossos sonhos. Jamais desistiremos do projeto de sociedade que acreditamos. A Pedagogia que não inclui todas as pessoas jamais será educativa. Eu tinha plena certeza que a escola seria assertiva na resposta. O projeto de sociedade que a Maria Felipa defende jamais permitiria qualquer tipo de opressão. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa família.

E sobre o responsável da criança? Ficou chateado? Irá processar?

Bruno: Eu nem perguntei o nome da pessoa que fez esse comentário transfóbico, não é culpabilizando o sujeito que reproduz a opressão que irei combatê-la. É preciso destruir as estruturas desse Cis-tema LGBTfóbico responsável por todo extermínio e violência contra população LGBTQI+. E isso só será possível através da educação. E assim tenho feito.

Como o senhor lida com a questão da transgeneridade com as crianças? Elas questionam? Se sim, como conversa sobre?

Bruno: A transgeneridade nunca será um problema para as crianças, as pessoas adultas que perdem tempo disseminando preconceitos. As crianças não estão preocupadas se seu professor é um homem trans, elas são inteligentes e entendem que a identidade de gênero é apenas mais uma possibilidade de ser e estar no mundo. O mais importante nesse processo de ensino-aprendizagem é possibilitar que elas vivenciem experiências pedagógicas que garantam o seu desenvolvimento humano, que sigam sendo pessoas comprometidas na construção de um mundo que inclua todas as pessoas.

Para qual série o senhor dá aula?

Bruno: Dou aula de capoeira e práticas corporais para as crianças do grupo 2 ao 5.

O debate sobre minorias acontece dentro de sala de aula? Pq esse debate é importante, na sua opinião?

Bruno: Meu trabalho é dentro de uma perspectiva interseccional e isso inclui os debates sobre gênero, raça, classe, sexualidade e territorialidade. Não consigo pensar uma educação que não leve em consideração esses fatores. E é justamente por falta de debates como esse que temos um país racista, machista, misógino, LGBTfóbico que legitima e permite que a cada 11 minutos uma mulher cis seja estuprada. O Brasil é país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Nossa expectativa de vida é de apenas 35 anos. Outro dado vergonhoso é que apenas 0,02% da população trans e travesti está nas universidades. É esse mesmo país que assiste de camarote o genocídio da população negra e que tem feito de tudo pra silenciar e invisibilizar as dissidências sexuais e de gênero.

Por qual motivo acha que a conversa viralizou?

Bruno: Acredito que a postagem viralizou justamente por conta das que resistem. Das pessoas que seguem. Ao contrário do que pensam, somos maioria e tem muita gente que assim como eu, acredita no poder transformador da educação, que apoia e luta por uma educação para além do capital, dos retrocessos e dos fascismos. Pessoas que existem e resistem em meio a todos os descasos e retiradas de direitos e que por mais difícil que a conjuntura possa parecer, seguiremos de mãos dadas na luta por um mundo que seja capaz de contemplar todas as pessoas.

A Escolinha Maria Felipa faz história e servirá de exemplo, se colocando como aliada na luta contra a LGBTfobia, demonstrando o real sentido e significado da educação inclusiva e TRANSformadora. Em meio a tempos de fascismos e perdas de direitos posicionamentos como esses nos mostra que estamos no caminho. Vida longa a essa escola, que segue sendo exemplo no combate não só à transfobia, mas a toda e qualquer forma de opressão!

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