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Meio Ambiente
23/02/2019 17:00:00

Alimentação, musculação e defesa: treino de 3 fases garante retorno de araras à vida selvagem


Alimentação, musculação e defesa: treino de 3 fases garante retorno de araras à vida selvagem

Em meio à área mais preservada da caatinga, no sertão da Bahia, há um viveiro de 20 metros de extensão por 6 metros de altura. A estrutura metálica contrasta com os morros verdes do Boqueirão da Onça, uma área de preservação recentemente delimitada como parque nacional e área de proteção ambiental.

O contraste é por uma boa causa: o viveiro foi construído por um projeto inovador de preservação da arara-azul-de-lear, que está em risco de extinção. Redescoberta há 40 anos, arara-azul-de-lear é um dos 182 animais da caatinga que estão sob ameaça. Ali, no viveiro, foram colocadas seis araras-de-lear. Elas nasceram em cativeiro, na Loro Parque Fundación, da Espanha, e foram trazidas ao Brasil em agosto do ano passado. Desde então, as aves ficaram neste viveiro, até serem soltas em janeiro deste ano.

G1 esteve no Boqueirão da Onça para conhecer o projeto de soltura destas aves. As ameaças à conservação das espécies e o desafio de preservá-las são foco do especial "Desafio Natureza", que já abordou a ‘redescoberta’ da arara-de-lear na região e as ações de preservação da onça-pintada e parda na caatinga.

Ao todo, existem atualmente 1.700 araras-de-lear, a maior parte na região do Raso da Catarina (veja abaixo o mapa). O Boqueirão da Onça já chegou a ter cerca de 30 destas aves, mas quase todas sumiram na década de 1990. Restaram apenas duas. O desaparecimento repentino é atribuído à ação de traficantes de animais. Como as duas que ficaram não se reproduziam, a solução foi trazer mais aves.

Do viveiro para a vida livre

 

Para chegar ao Boqueirão da Onça, a equipe de reportagem andou por rodovias e estradas de terra. O local, de difícil acesso, ainda não está aberto para visitação de turistas.

O viveiro está construído em uma área conhecida como Cercadinho, porque é cercado pelas montanhas da região. A dois quilômetros dali fica a casa dos pesquisadores, onde os biólogos que trabalham no projeto se hospedam durante suas estadias, com revezamento a cada 15 dias. Durante o período, eles se tornam os "treinadores de vida livre" para as aves.

G1 acompanhou uma das solturas destas aves.

A cena de uma caixa se abrindo com aves voando livremente está longe de ser realidade para a soltura dessas araras. A técnica empregada foi a de "soft release": após treinamento, uma janela do viveiro fica aberta, para que a ave voe quando se sentir mais à vontade, e retorne se achar necessário.

 
Uma arara-azul-de-lear é vista em local onde recebe tratamento e é treinada para ser reintroduzida com segurança à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1Uma arara-azul-de-lear é vista em local onde recebe tratamento e é treinada para ser reintroduzida com segurança à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1

Uma arara-azul-de-lear é vista em local onde recebe tratamento e é treinada para ser reintroduzida com segurança à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1

Por isso, antes de soltá-las, era preciso prepará-las. O desafio da preservação da espécie envolve diversos testes, como:

 

  • Exames de sangue para saber se as aves de cativeiro não possuem doenças que possam contaminar a população livre
  • Treinamento contra predadores
  • Exercícios para fortalecer a musculatura para voos longos
  • Mudança de cardápio, da ração para o alimento da caatinga
  • Treinos para localizar as palmeiras de licuri, principal alimento destas aves
  • Colocação de anilhas (pulseiras) numeradas e GPS para monitoramento

 

“Temos pouquíssimos exemplos de programas de soltura no Brasil para seguir. Para construir o projeto de soltura das araras no Boqueirão, fizemos um levantamento de todos os projetos que soltaram psitacídeos ao redor do mundo inteiro. Nos baseamos em vários, escolhemos as estratégias que nos pareceram mais certeiras para seguir”, explica Thiago Filadelfo, biólogo, coordenador de campo do Projeto de Soltura Experimental da Arara Azul de Lear no Boqueirão da Onça.

 
Pesquisadores do ICMBio fazem o manejo em uma arara-azul-de-lear para colocação de placa com identificação e GPS. Os animais recebem tratamento e são treinados no local para serem reintroduzidos à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1Pesquisadores do ICMBio fazem o manejo em uma arara-azul-de-lear para colocação de placa com identificação e GPS. Os animais recebem tratamento e são treinados no local para serem reintroduzidos à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1

Pesquisadores do ICMBio fazem o manejo em uma arara-azul-de-lear para colocação de placa com identificação e GPS. Os animais recebem tratamento e são treinados no local para serem reintroduzidos à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1

 

Aversão a humanos e predadores

 

No mix de técnicas, uma delas chamou a atenção: os pesquisadores evitam que as araras-de-lear desenvolvam algum tipo de tolerância aos humanos. Assim, sempre que se aproximam do viveiro, chegam em silêncio e evitam falar com as araras. Se precisam entrar, fazem barulho e entram “descaracterizados da forma humana”, como diz Filadelfo.

“Nos treinamentos de aversão humana, tínhamos que fazer o treino com um estímulo negativo em que um de nós se vestia com uma manta preta que cobria o corpo inteiro, incluindo os pés, e não deixava transparecer uma forma com braços e pernas. A pessoa ainda usava um capuz para cobrir a cabeça”, conta. Isso porque as aves psitacídeas, como os papagaios e periquitos, são muito inteligentes e, se associarem que o humano não é perigoso, se tornam presa fácil para o tráfico de aves.

Outro treino foi para terem aversão de predadores, em especial contra a águia. No entanto, como a área de proteção tem também comunidades tradicionais, os biólogos incluíram no treino a aversão ao cachorro: construíram uma plataforma do lado de fora do viveiro e ficavam ‘passeando’ com o cachorro por ali, incitando-o a latir e fazendo barulho para assustar as araras. Estressante? Sim, mas por uma boa causa.

 

Não dê licuri, ensine a buscar

 

 
Licuri, coco que cresce aos cachos em palmeiras do sertão da Bahia, o alimento preferido da arara-de-lear. — Foto: Marcelo Brandt/G1Licuri, coco que cresce aos cachos em palmeiras do sertão da Bahia, o alimento preferido da arara-de-lear. — Foto: Marcelo Brandt/G1

Licuri, coco que cresce aos cachos em palmeiras do sertão da Bahia, o alimento preferido da arara-de-lear. — Foto: Marcelo Brandt/G1

Quando estavam em cativeiro, as seis araras-de-lear comiam frutas e ração apropriada para a espécie. Na caatinga, vão se alimentar de licuri, um coquinho que cresce aos cachos em palmeiras da região e é rico em água, gordura e nutrientes.

Algumas dessas palmeiras foram plantadas dentro do viveiro para que as aves se familiarizassem com as plantas. Paralelamente, os biólogos passaram a colocar o licuri em meio à ração, aumentando a proporção aos poucos, até que elas aprendessem também a abrir o coquinho com o bico.

“Em especial, no treinamento alimentar, nós fomos oferecendo apenas a ração industrializada por 10 dias, depois misturamos no pote a ração com alimentos nativos da caatinga em uma proporção 50% e 50% por 10 dias, depois apenas os alimentos nativos no pote por 10 dias, e por fim apenas os alimentos nativos nos pés de licurizeiros e árvores do recinto dai em diante”, explica Filadelfo. Pensa que ser livre é fácil?

 

O voo da liberdade

 

 
Pesquisadores colocam GPS em uma arara-de-lear. Equipamento fica posicionado nas costas da ave, e possui placa solar para a bateria. Projeto quer soltar aves de cativeiro na natureza. — Foto: Marcelo Brandt/G1Pesquisadores colocam GPS em uma arara-de-lear. Equipamento fica posicionado nas costas da ave, e possui placa solar para a bateria. Projeto quer soltar aves de cativeiro na natureza. — Foto: Marcelo Brandt/G1

Pesquisadores colocam GPS em uma arara-de-lear. Equipamento fica posicionado nas costas da ave, e possui placa solar para a bateria. Projeto quer soltar aves de cativeiro na natureza. — Foto: Marcelo Brandt/G1

Antes de ser solta na natureza, cada uma destas aves passou pela colocação de anilhas, uma espécie de pulseira amarela com número de identificação, e de um aparelho de geolocalização, o GPS. Os equipamentos são importantes para que os biólogos monitorem por onde as araras voaram e quais distâncias percorreram.

De acordo com Filadelfo, todas já deixaram o recinto e voaram pelo entorno explorando a caatinga. As araras-de-lear selvagens podem percorrer até 60 km em busca de alimento mas, por enquanto, estas aves de cativeiro percorreram um raio de 1 a 2 km -- ainda estão cautelosas com o ambiente.

Mas, a cada batida de asas, os biólogos veem uma conquista. “Desde semana passada já temos dois indivíduos explorando mais longe, indo até 7 a 8 km”, diz Filadelfo.

Parte das araras ainda está voltando para dormir no recinto, que permanece aberto e com alimento, e parte já está dormindo na caatinga.

A elaboração e execução do projeto tiveram apoio da Enel Green Power Brasil; Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), do ICMBio; Instituto Arara Azul; Instituto Espaço Silvestre; Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) e do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.

 
Pesquisadores do ICMBio fazem o manejo em uma arara-azul-de-lear para colocação de placa com identificação e GPS. Os animais recebem tratamento e são treinados no local para serem reintroduzidos à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1Pesquisadores do ICMBio fazem o manejo em uma arara-azul-de-lear para colocação de placa com identificação e GPS. Os animais recebem tratamento e são treinados no local para serem reintroduzidos à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1

Pesquisadores do ICMBio fazem o manejo em uma arara-azul-de-lear para colocação de placa com identificação e GPS. Os animais recebem tratamento e são treinados no local para serem reintroduzidos à natureza — Foto: Marcelo Brandt/G1

 

Arararinha-azul

 

Um outro projeto semelhante começa a ser desenvolvido em Curaçá, também na Bahia.

O esforço é para soltar espécimes da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), criticamente ameaçada e já extinta na natureza. Foi esta espécie que inspirou o personagem Blu do filme Rio, lançado em 2011 com direção do brasileiro Carlos Saldanha. Em todo o mundo, estima-se que existam apenas 160 destas aves, todas em cativeiro (confira as diferenças e semelhanças entre as espécies no quadro ao fim da matéria).

De acordo com Camile Lugarini, chefe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), de Juazeiro, o projeto está em fase de construção do viveiro, que será erguido no mesmo local onde, em 2000, desapareceu o último exemplar livre da espécie.

A expectativa é que 50 ararinhas-azuis sejam repatriadas, ou seja, trazidas de cativeiros no exterior. Parte delas serão reintroduzidas na fauna brasileira.

O centro deverá custar US$ 1,5 milhão e será construído com apoio de instituições parceiras como a Al Wabra Wildlife Preservation (AWWP), do Catar; a Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), da Alemanha; a Parrots International, dos EUA; o Jurong Bird Park, de Singapura; a Fazenda Cachoeira e o ICMBio.

 
Espécies de arara-azul — Foto: Roberta Jaworski / G1Espécies de arara-azul — Foto: Roberta Jaworski / G1

Espécies de arara-azul — Foto: Roberta Jaworski / G1



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