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Especial
02/02/2019 13:00:00

Reduzir, reutilizar e reciclar: como seis comunidades em diferentes partes do mundo enfrentam o problema do lixo


Reduzir, reutilizar e reciclar: como seis comunidades em diferentes partes do mundo enfrentam o problema do lixo
Ilustração

Descarte a vácuo, proibição de garrafas de plástico, multas, reciclagem obrigatória, valorização de técnicas tradicionais de compostagem: essas foram algumas medidas adotadas por países ao redor do mundo para diminuir a quantidade de lixo produzida ou descartada de forma inadequada todos os anos.

Os exemplos são de um relatório do Banco Mundial, publicado no ano passado.

“A ideia era apresentar um conjunto diversificado de experiências globais, com diversidade regional, socioeconômica e populacional, assim como uma variedade de assuntos abordados. Para cada cidade, a solução pode ser diferente”, explica Silpa Kaza, especialista em desenvolvimento urbano do Banco Mundial e autora do relatório.

Kaza ressalva que a intenção não foi, entretanto, promover uma prática em detrimento de outras. "Existem muitas outras boas práticas para serem compartilhadas globalmente — e algumas funcionarão em alguns lugares e não em outros”, diz.

Além de cinco lugares mencionados no relatório do Banco — San Francisco, Tunísia, Palau, Israel e Burkina Faso — o G1 também encontrou, numa pequena cidade do Japão, uma forma inovadora de lidar com o lixo.

Veja como esses seis lugares criaram soluções para lidar com o lixo:

San Francisco, EUA

 
Existem três tipos de lixeira em San Francisco: a verde é para compostagem, a azul, para reciclagem, e a preta, para os resíduos destinados a aterros. — Foto: San Francisco Department of the EnvironmentExistem três tipos de lixeira em San Francisco: a verde é para compostagem, a azul, para reciclagem, e a preta, para os resíduos destinados a aterros. — Foto: San Francisco Department of the Environment

Existem três tipos de lixeira em San Francisco: a verde é para compostagem, a azul, para reciclagem, e a preta, para os resíduos destinados a aterros. — Foto: San Francisco Department of the Environment

 

  • Como inovou: programas de reciclagem e compostagem obrigatórios, proibição de materiais que prejudicam o meio ambiente, incentivos financeiros aos moradores

Em 2002, San Francisco anunciou a intenção de zerar, até 2020, a quantidade de lixo descartada em aterros na cidade. A cidade tem um programa obrigatório de compostagem e reciclagem e ações de educação para moradores, além de incentivos financeiros: residentes têm descontos em taxas de gestão do lixo se separarem os resíduos corretamente.

Os resíduos ficam distribuídos em três tipos de lixeira: a de compostagem, a de reciclagem e a destinada ao aterro. Funcionários percorrem as vizinhanças e monitoram o lixo. Se um local tem descarte errado com frequência, por exemplo, os moradores recebem visitas domiciliares para entender como devem jogar o lixo fora.

Além disso, é proibido vender sacolas plásticas em supermercados e farmácias e garrafas de plástico pequenas (menos de 621mL).

 
O isopor de poliestireno, normalmente usado em copos, embalagens e coolers, foi proibido em San Francisco. — Foto: UnsplashO isopor de poliestireno, normalmente usado em copos, embalagens e coolers, foi proibido em San Francisco. — Foto: Unsplash

O isopor de poliestireno, normalmente usado em copos, embalagens e coolers, foi proibido em San Francisco. — Foto: Unsplash

Uma legislação que entrou em vigor no ano passado baniu, ainda, o uso e a venda de produtos de isopor de poliestireno — que não é reciclável — dentro da cidade. O material é encontrado, principalmente, em copos e coolers. As empresas que descumprem a lei podem pagar multa de até 500 dólares (cerca de R$ 1.857), segundo o departamento de meio ambiente da cidade.

Graças às iniciativas, a cidade conseguiu, em 2012, alcançar uma taxa de 80% de reutilização do lixo, segundo apuração da revista 'Wired'. A média americana é de 34%. No ano passado, San Francisco anunciou uma nova meta: reduzir, pela metade, a quantidade de lixo da cidade que é descartada em aterros até 2030, em comparação a 2015.

Silpa Kaza acredita que seria possível fazer as medidas adotadas em San Francisco funcionarem no Brasil — mas alguns ingredientes seriam necessários.

"Seria fantástico e certamente possível se houvesse financiamento suficiente, instituições e leis fortes, mecanismos de aplicação, vontade política e engajamento cidadão, entre outras coisas", diz.

Tunísia

 
Coletores reúnem o lixo para reciclagem na Tunísia — Foto: Via relatório do Banco MundialColetores reúnem o lixo para reciclagem na Tunísia — Foto: Via relatório do Banco Mundial

Coletores reúnem o lixo para reciclagem na Tunísia — Foto: Via relatório do Banco Mundial

  • Como inovou: remunera pessoas que recolhem plástico e metal das ruas

O país lançou, em 2001, o programa Eco-Lef, para lidar com o problema das embalagens descartadas que iam para aterros. Coletores de lixo individuais ou informais podem recolher embalagens usadas de plástico e metal e levá-las a um dos 221 postos de recolhimento do Eco-Lef em troca de remuneração, que varia de acordo com o tipo e a quantidade de embalagens recolhidas.

Segundo o Banco Mundial, os coletores ganham 700 dinars tunisianos (cerca de R$ 880) por cada tonelada de embalagens plásticas entregues. Desde 2001, já foram recolhidas 150 mil toneladas de embalagens de plástico.

 
Reciclagem feita no programa Eco-Lef, na Tunísia — Foto: Università degli Studi di Siena/Agence Nationale de Gestion des DéchetsReciclagem feita no programa Eco-Lef, na Tunísia — Foto: Università degli Studi di Siena/Agence Nationale de Gestion des Déchets

Reciclagem feita no programa Eco-Lef, na Tunísia — Foto: Università degli Studi di Siena/Agence Nationale de Gestion des Déchets

Em 2018, o orçamento anual do programa foi de 5,8 milhões de dólares (cerca de R$ 21,6 milhões). Ele é financiado e administrado em parcerias da iniciativa privada com o governo (não precisamos dar o nome da agência).

A depender do tipo de plástico, de 70% a 90% dos resíduos são reciclados, com a participação de mais de 70 recicladores privados ativos que recebem plástico recolhido pelo sistema Eco-Lef. A iniciativa já gerou cerca de 18 mil empregos.

Israel

Yavne teve o primeiro bairro de Israel com descarte a vácuo de lixo — Foto: Google Street View Yavne teve o primeiro bairro de Israel com descarte a vácuo de lixo — Foto: Google Street View

Yavne teve o primeiro bairro de Israel com descarte a vácuo de lixo — Foto: Google Street View

  • Como inovou: sistema a vácuo de coleta de lixo na cidade de Yavne

Em 2012, Israel inaugurou uma vizinhança “verde” — Neot Rabin — na cidade histórica de Yavne. O bairro tem o primeiro sistema a vácuo automatizado de coleta de lixo do país.

Prédios com o mecanismo usam uma rede de canos que passam por baixo da superfície para conectar cada residência a uma unidade de depósito central de lixo.

Em cada andar, os moradores jogam fora os resíduos em duas calhas: uma com lixo seco e outra com lixo úmido ou molhado. Uma vez por semana, o lixo é bombeado ou sugado a vácuo por um cano, em velocidades de 50 a 80 km/h, para o depósito central, onde será removido e transportado.

Com base no sucesso do projeto, a cidade de Yavne começou a substituir as latas de lixo públicas da cidade com o sistema. Em 2015, segundo o Banco Mundial, havia cerca de 30 pontos de coleta com o sistema em áreas públicas — incluindo parques, escolas, e ruas. Outras duas cidades israelenses, Ra’anana e Bat Yam, também começaram a montar sistemas parecidos.

Iniciativas semelhantes existem ainda em outras cidades do mundo, como Barcelona.

Palau

 
Quem compra garrafas de plástico com menos de 940 mL em Palau precisa Quem compra esses produtos precisa pagar uma taxa de 10 centavos de dólar (cerca de R$ 0,37).  — Foto: PixabayQuem compra garrafas de plástico com menos de 940 mL em Palau precisa Quem compra esses produtos precisa pagar uma taxa de 10 centavos de dólar (cerca de R$ 0,37).  — Foto: Pixabay

Quem compra garrafas de plástico com menos de 940 mL em Palau precisa Quem compra esses produtos precisa pagar uma taxa de 10 centavos de dólar (cerca de R$ 0,37). — Foto: Pixabay

  • Como inovou: taxa para compra de garrafas e sistema que devolve dinheiro ao consumidor que retorna o lixo a locais de coleta

No país — um arquipélago de mais de 500 ilhas no Pacífico com apenas 21 mil habitantes e que recebe em média 12,5 mil visitantes por mês, o plástico representa 32% do lixo.

Para combater esse aumento, o governo aprovou uma legislação sobre o descarte de garrafas de plástico, vidro ou metal contendo 940mL ou menos. Quem compra esses produtos precisa pagar uma taxa de 10 centavos de dólar (cerca de R$ 0,37).

Quando a pessoa devolve o recipiente a um coletor, ela recebe metade desse valor de volta. Do que é retido, metade vai para o governo da capital, Koror, e o resto vai para o governo federal, para cobrir os custos administrativos.

Para Silpa Kaza, o exemplo de Palau é o que poderia ser aplicado mais prontamente no Brasil.

"Uma tendência universal é a de [que existam] incentivos financeiros. O sistema pneumático de Israel, por exemplo, iria requerer muita construção subterrânea — e financiamento significativo! Pode não ser a melhor ideia para cidades densas, onde seria difícil de implementar. O tampouré [veja mais abaixo] só faria sentido se houvesse uma grande porção orgânica de resíduos, se as pessoas tivessem espaço no quintal e o tipo certo de clima", explica.

Segundo o Banco Mundial, durante a operação plena do programa, de 2011 a 2016, Palau conseguiu arrecadar 2,2 milhões de dólares (cerca de R$ 8,2 milhões) e devolveu R$ 14,5 milhões aos consumidores, com o recolhimento de mais de 88 milhões de recipientes.

Já existem iniciativas semelhantes em vários países da Europa, como a Noruega — onde é possível devolver recipientes plásticos, por exemplo, e receber vouchers ou moedas em troca.

Japão

 
A loja Kuru-kuru, em Kamikatsu, permite que moradores levem produtos que não usam mais para serem retirados de graça por outras pessoas.  — Foto: Departamento de planejamento e proteção ambiental de KamikatsuA loja Kuru-kuru, em Kamikatsu, permite que moradores levem produtos que não usam mais para serem retirados de graça por outras pessoas.  — Foto: Departamento de planejamento e proteção ambiental de Kamikatsu

A loja Kuru-kuru, em Kamikatsu, permite que moradores levem produtos que não usam mais para serem retirados de graça por outras pessoas. — Foto: Departamento de planejamento e proteção ambiental de Kamikatsu

  • Como inovou: eliminou veículos de coleta de lixo, estabeleceu lojas para reutilização de produtos e criou subsídios para máquinas de compostagem caseiras

Com cerca de 1,6 mil habitantes, a cidade de Kamikatsu, no sudoeste do Japão, começou o projeto de produzir “zero lixo” em 2002. Naquele ano, a cidade começou a separar o lixo em 34 tipos, e, em 2003, a cidade aprovou unanimemente a primeira declaração de lixo zero do Japão. Antes da política, os resíduos costumavam ser incinerados.

Depois da iniciativa, a regra passou a ser "reduzir [o lixo], reutilizar e reciclar". Kamikatsu criou uma “loja de recicláveis” — os moradores podem levar itens dos quais não precisam mais, mas que ainda têm serventia, e outras pessoas podem retirá-los de graça. A loja também oferece produtos refabricados a partir de tecidos e algodão que não são mais necessários, usando métodos tradicionais aprendidos com os idosos do município.

 
Os próprios moradores de Kamikatsu são responsáveis por levar o lixo ao local de reciclagem. — Foto: Divisão de planejamento e proteção ambiental de KamikatsuOs próprios moradores de Kamikatsu são responsáveis por levar o lixo ao local de reciclagem. — Foto: Divisão de planejamento e proteção ambiental de Kamikatsu

Os próprios moradores de Kamikatsu são responsáveis por levar o lixo ao local de reciclagem. — Foto: Divisão de planejamento e proteção ambiental de Kamikatsu

A cidade estabeleceu, ainda, um subsídio financeiro para moradores comprarem máquinas elétricas de eliminação de resíduos, de uso doméstico. Assim, o lixo orgânico é transformado em adubo por cada residência, que costuma ter um quintal ou terra para plantio.

Para reduzir a quantidade de lixo que é incinerada, os moradores separam metodicamente todos os tipos de lixo, para que negócios de reciclagem possam reutilizar os produtos. A cidade não utiliza veículos de coleta — os moradores levam os resíduos a uma estação de descarte intermediária dentro da cidade.

De 1998 a 2015, Kamikatsu conseguiu aumentar a taxa de reciclagem de 55% para quase 80%. Já o volume destinado à incineração caiu de 136 toneladas em 1998 para 61 em 2015.

Burkina Faso

 
O governo de Burkina Faso incentiva financeiramente a prática tradicional de compostagem, o tampouré — Foto: Google Street View (Hari Das)O governo de Burkina Faso incentiva financeiramente a prática tradicional de compostagem, o tampouré — Foto: Google Street View (Hari Das)

O governo de Burkina Faso incentiva financeiramente a prática tradicional de compostagem, o tampouré — Foto: Google Street View (Hari Das)

  • Como inovou: concedeu financiamentos para incentivar prática tradicional de compostagem

No país do oeste africano, já era costume local guardar o lixo orgânico por meio de uma prática chamada de “tampouré” — que consiste em armazená-lo na frente das casas nas estações secas e, antes das primeiras chuvas, os moradores espalham o material pelo solo.

O composto serve como adubo para melhorar a produtividade em áreas pouco férteis.

Percebendo isso, o governo resolveu incentivar a prática, financiando a construção de poços de adubo. Entre 2005 e 2012, a gestão federal desenvolveu parcerias e construiu 15 mil poços de adubo no leste do país, informa o Banco Mundial.

Hoje, são produzidas cerca de duas milhões de toneladas de fertilizante orgânico por ano em Burkina Faso.

G1



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