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Saúde
06/12/2018 13:00:00

“Atendi a uma idosa que nunca tinha visto um médico. É um choque de realidade”, diz substituto de cubano


“Atendi a uma idosa que nunca tinha visto um médico. É um choque de realidade”, diz substituto de cubano
Médico brasileiro recém formado

Uma semana depois de ter colado grau, o médico cearense Luan Victor Almeida Lima, de 25 anos, saiu da capital Fortaleza e percorreu 166 quilômetros até Itaiçaba, cidade natal de seu pai. Seu plano era atuar como médico voluntário no município, considerado vulnerável pelo Ministério da Saúde, com 60% da população em risco de pobreza, segundo dados do último Censo do IBGE. A vaga que ele passou a ocupar era uma das ocupadas por médicos cubanos pelo programa Mais Médicos. A jornada fazia parte de uma promessa que ele havia feito para ele próprio no início da faculdade: a de prestar um serviço de atendimento que via faltar sempre que visitava a família, nas férias.

Luan é um dos 211 médicos que se inscreveram na ação Médicos com Amor, apoiada pelo Sindicato dos Médicos do Ceará para minimizar a desassistência em saúde de milhares de famílias pela saída de 441 profissionais cubanos do Programa Mais Médicos no Estado. No programa, os médicos podem ficar por até 30 dias no município, que lhes oferece hospedagem e alimentação. Em uma semana de voluntariado, atendendo à população que vive em distritos afastados da sede do município, Luan descobriu uma nova Itaiçaba, ainda mais carente. Conheceu pessoas que nunca haviam tido contato com um médico. Atendeu comunidades sem energia nem água encanada, onde emprego é palavra rara e plantar ou receber uma ajuda dos programas sociais são as únicas formas de sobreviver. Nos lugarejos onde falta o básico, Luan conta que viu doenças de fácil diagnóstico em estágios tão avançados que enviava imagens aos professores da universidade. "Choque de realidade é a palavra", repetiu algumas vezes no depoimento que o EL PAÍS reproduz a seguir.

 

Médico Luan Victor Almeida realiza trabalho voluntário em Itaiçaba
Médico Luan Victor Almeida realiza trabalho voluntário em Itaiçaba ACERVO PESSOAL
 

Quando eu entrei na faculdade de Medicina, fiz uma promessa de que faria um trabalho voluntário na cidade do meu pai, em Itaiçaba, depois que me formasse. Sempre morei em Fortaleza, mas todos os anos passava as férias no interior. Lá, médico foi algo que sempre faltou nos postos de saúde e nos hospitais. Quando meus avós adoeciam, a gente tinha que levá-los à capital. Eu sempre vi que a população de lá era desassistida. Sou o primeiro médico da minha família, e essa decisão foi porque admirava aquelas pessoas de jaleco que atendiam aos meus avós, que viviam em hospitais.

A medicina foi muito presente na minha vida durante a infância por isso e virou um sonho. Mas quando cresci, achei que não teria capacidade porque era um curso muito difícil e acabei indo fazer Engenharia Civil, só que eu não gostava. Estudei medicina em uma universidade particular. Colei grau há menos de 15 dias e soube de uma campanha do Sindicato dos Médicos do Ceará para substituir os cubanos que estavam deixando o Brasil. Eu vi a oportunidade de cumprir a minha promessa. Só precisaria dizer os horários de disponibilidade e a cidade para onde eu queria ir. O sindicato ligou para saber se Itaiçaba tinha interesse, e eles estavam há seis meses com uma vaga porque o médico cubano que trabalhava lá adoeceu e retornou à Cuba.

Cheguei em Itaiçaba no sábado, tive o domingo para me instalar e segunda já comecei a trabalhar. A Prefeitura me ofereceu uma pousada que custa R$ 40 a diária e mais ajuda de custo para alimentação. No primeiro dia, quando já estava encerrando o atendimento, um rapaz de 37 anos chegou no posto com fortes dores no peito, suando muito. Demos a medicação oral que tínhamos disponível, pedimos uma ambulância e levamos ele para a cidade vizinha, Aracati, que tem mais estrutura. Foi bem impactante. Ele estava infartando e, se não tivesse um médico naquele momento, talvez não tivesse sobrevivido.

Eu tenho um vínculo afetivo forte com Itaiçaba, mas com a sede. No trabalho voluntário, passei a trabalhar nos distritos, em lugares que eu nunca havia estado mesmo frequentando o município todas as férias desde os meus quatro anos de idade. São lugarejos que eu nem sabia que existiam. Tive a oportunidade de conhecer uma nova cidade dentro da Itaiçaba do meu pai. É uma realidade que, da capital, eu não sabia que existia. A palavra é choque de realidade, porque nesses distritos não há estrutura do básico pra viver. A minha cidade é conhecida dentro do Ceará por ser pequena, com menos de 8.000 habitantes. É muito pobre e humilde. Mas a zona urbana que eu achava humilde nem se compara aos distritos. Há pessoas que não têm acesso a energia, telefone, água encanada. É viver afastado do que a gente, que tem uma vida confortável, considera o mínimo pra viver.

Eles vivem uma adversidade grande que eu não conhecia. Frequentava a cidade e não conhecia como era. As doenças que diagnostiquei são muito básicas e podem ser resolvidas no próprio posto, sem a necessidade de exames. A experiência voluntária me mostrou como as pessoas são carentes por um mínimo de atenção. Um médico, com apenas caneta e papel ali, já pode mudar a vida dessas pessoas que vivem em um interiorzinho sem internet, telefone nem nada. É gratificante fazer parte disso.

Luan Victor Almeida (à direita), em um dos distritos onde trabalha, em Itaiçaba
Luan Victor Almeida (à direita), em um dos distritos onde trabalha, em Itaiçaba
 

Um dia, a Prefeitura improvisou uma casinha pra gente fazer o atendimento no assentamento sem-terra Tomé Afonso, porque se a gente fosse de casa em casa, conseguiríamos fazer poucos atendimentos porque as casas eram distantes. Lá eu tive contato com uma senhora de 60 anos, mas aparência bastante envelhecida, que nunca havia tido contato com um médico. Ela tinha muita vergonha, mal conseguia falar nem olhar nos meus olhos. Aí ela me disse: “Doutor, é que falar com homem, ainda mais com dor nas partes de baixo...”. Expliquei que era normal falar dessas coisas com um médico, mas vi que precisava conduzir a consulta e ir perguntando o que ela sentia. Tinha infecção urinária há meses. Tentava se tratar com chás, mas não conseguia resolver.

Claro que eu sabia que havia realidades difíceis em interiores distantes, mas não que existia esse nível de povoado dentro da minha cidade. Pessoas sem trabalho, vivendo só do que planta ou de programas do Governo como o Bolsa Família. Foi um tapa de realidade. Só estando ali pra saber o que elas passam. Trabalhei uma semana como voluntário e havia uma vaga no município. A Prefeitura me contratou, e agora vou ficar lá definitivamente. Eu fiz medicina para ajudar a pessoas que lá atrás eu cruzava na cidade e agora vejo que minha faculdade valeu a pena, que estou fazendo a diferença.

El País



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