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Mundo
10/08/2018 07:36:00

Quem são os frustrados do EI e por que são agora os mais perigosos


Quem são os frustrados do EI e por que são agora os mais perigosos
Ilustração

O périplo desse marroquino mostra, com algumas variações, a história do jihadismo europeu dos últimos cinco anos. Foi capturado aos 35 anos de idade em Granadilla de Abona (Santa Cruz de Tenerife, Espanha). Antes de entrar em contato com três indivíduos, também marroquinos, presos pela Polícia Nacional em 8 de maio, o jihadista objeto da investigação tinha aparência ocidental e antecedentes por crimes relacionados ao tráfico de drogas. Conheceu esses três sujeitos, donos de uma loja de celulares e artigos de tecnologia e ligados a uma mesquita da região; mergulhou na ideologia e estética salafistas e fez as malas rumo à Síria. Foi tamanha a metamorfose, que os agentes destacaram no relatório de prisão de seus supostos captadores que o jihadista apresentava na testa a zabiba, a marca que identifica os que apoiam a cabeça com muita frequência no tapete de reza. Ele se juntou à Frente al Nusra —grupo jihadista ligado à Al Qaeda—em 2013. Dois anos depois, em 2015, e após perder a mão esquerda em combate regressou a Tenerife; de lá e com documentos falsos aproveitou os fluxos de refugiados e viajou à Hungria. Foi preso em Budapeste e expulso ao Marrocos, onde sua pista se perdeu.

A primeira questão dessa história é a segunda parte, o retorno para casa: os cálculos mais abertos falam que somente três de cada 10 jihadistas que saíram da Europa regressaram do califado. Os analistas de terrorismo concordam no fato de que são os radicais que não puderam viajar os que significam o maior desafio à segurança para a Europa.

A polícia prendeu os três marroquinos de Granadilla em cooperação com a Europol. Esse órgão apresentou em 20 de junho seu relatório anual sobre terrorismo. E aqui está a segunda questão da história. Apesar de poderem usar as rotas de refugiados, a Europol concluiu após investigações na Grécia e Itália que não existem provas para afirmar que os terroristas do califado aproveitaram “sistematicamente” esse caminho. O escritório policial dá números do contingente europeu que partiu rumo à Síria e Iraque nos últimos anos. Por volta de 5.000 viajaram ao Oriente Médio; desses, 2.500 ainda poderiam estar lutando e mil jihadistas teriam morrido em combate e aniquilados pelos bombardeios contra o Estado Islâmico.

Por fim estão os 1.500 que teriam voltado para casa. São os combatentes estrangeiros que os serviços de inteligência ocidentais temem há anos caso a queda do califado os fizesse levar sua violência à Europa. Mas não são tantos, por volta de 30% do total, e não são tão aguerridos. Muitos são mulheres sem treinamento militar e crianças nascidas na retaguarda jihadista. O acadêmico belga Rik Coolsaet, professor na Universidade de Gent, escreveu com Thomas Renard o relatório A Volta para casa dos combatentes estrangeiros à Holanda, Bélgica e Alemanha. “Os estrangeiros decidiram em sua maioria lutar até a morte nas fileiras do EI”, diz Coolsaet por e-mail, “alguns morreram, outros foram capturados por forças iraquianas e as YPG [milícias curdas]; outros continuam lutando nos redutos da Síria e só poucos foram a outras regiões jihadistas europeias”. De acordo com os dados do britânico Richard Barrett, ex-chefe do contraterrorismo do MI6, as contas de retornados na Europa colocam o Reino Unido na liderança, com mais de 400; a França e a Alemanha, com aproximadamente 300, a Suécia, com pouco mais de uma centena... A estimativa é que 30 podem ter voltado à Espanha, dos pouco mais de 200 que partiram. Muitos, marroquinos residentes como o de Granadilla.

Não ocorreu muito movimento de jihadistas estrangeiros desde o ano passado. “O número [de retornados]”, diz Barrett, autor do relatório Além do Califado: Combatentes estrangeiros e a ameaça de retorno, “é menor do que o esperado e a razão não é muito clara. Talvez o número original de combatentes estrangeiros estivesse errado, talvez muitos tenham morrido, mas o mais provável é que tenham retornado mais do que as autoridades sabem”. A questão essencial do volume de jihadistas estrangeiros que puderam viajar ao califado é formulada pelo próprio Barrett. A Turquia pediu ajuda a outros países para controlar possíveis pretendentes a engrossar as fileiras do EI. Em junho de 2017, sua lista possuía 53.781 pessoas, de 146 países. E desses, alguns nem mesmo chegaram à fronteira turco-síria.

Uns ficaram pelo caminho, outros não voltaram. O caso é que o retorno dos adestrados do califado ainda não significou o risco de segurança esperado. Por isso talvez as respostas diante de sua possível volta sejam tão diversas como os países de origem. No norte da Europa apostam na desradicalização e reintegração, enquanto no sul tendem ao processo judicial. Se os combatentes estrangeiros não voltam, onde está o perigo? “O desafio dos viajantes frustrados é potencialmente maior do que o dos retornados”, diz Barrett por e-mail, “porque ainda têm o sonho do Estado Islâmico, que dificilmente pode se tornar realidade; podem sentir que fracassaram por não chegar a tempo, sentir raiva e ressentimento pelas autoridades que lhes impediram de viajar e causaram a queda do EI”. São os combatentes homegrown, terroristas locais, radicalizados e até mesmo treinados em casa. O último ataque realizado na Europa com retornados envolvidos foi o de Bruxelas, em março de 2016. E os atentados de Bruxelas e Paris, executados por células dirigidas pela Emni, a unidade do EI para atacar no estrangeiro, são a exceção.

O jornalista alemão especialista no fenômeno jihadista Peter R. Neumann reúne alguns números do terror na Europa desde 2014: de aproximadamente uma centena de planos, 41 tiveram sucesso. Um em cada cinco foi realizado por um indivíduo com experiência na trincheira jihadista. Os demais, a imensa maioria dos atentados, foram feitos por terroristas sem laços operacionais com qualquer grupo. “Essa onda representa uma área cinza do terrorismo”, diz Coolsaet, “[feita] por pessoas que procuram desesperadamente uma vingança, 15 minutos de fama; delinquentes que precisam de uma justificativa, instáveis mentalmente que envolvem seus problemas psicológicos com a narrativa do Daesh [acrônimo depreciativo para se referir ao EI]”. São o perigo, ainda que também não seja fácil encontrá-los”. A ampla variedade de motivos e possíveis conspiradores e o pouco tempo de preparação para um ataque ao estilo Daesh tornam sua prevenção muito difícil”, afirma o acadêmico.

Em uma entrevista recente na Bulgária, o diretor da Europol, Rob Wainwright, afirmou que por volta de 3.000 pessoas podem potencialmente fazer parte das redes terroristas. São radicalizados express. Difíceis de se caçar. É só ver o caso espanhol: Carola García-Calvo, pesquisadora do Real Instituto Elcano, elenca algumas características que se repetem na Espanha: “É um fenômeno de homens jovens. Há diversidade na ocupação e a falta de integração não é necessariamente compatível com o terrorismo. Outra coisa é a assimilação cultural, como no caso de Ripoll [cidade onde morava parte do comando que cometeu o atentado em Barcelona], onde eram conhecidos como os “rapazes marroquinos”. O conhecimento do islã e da sharia, além disso, é limitado”. São muçulmanos de segunda geração, com certa crise de identidade, com uma prática do islã diferente da de seus pais, que sofrem, de acordo com García-Calvo, “uma sensação de ofensa real e percebido”.

São os que, em suma, morto ou não o califado na região, com os jihadistas tendo retornado ou mudado, continuam sendo as pessoas mais vulneráveis à marca propagandística do EI, ainda grande, e à execução, portanto, de um atentado terrorista.



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