Política
15/05/2018 19:30:00

Candidaturas de militares escancaram a fraqueza das instituições


Candidaturas de militares escancaram a fraqueza das instituições

Desde 2004, quando foi realizada a Operação Satiagraha, e de 2005, quando estourou o caso do mensalão, os brasileiros mais atentos aguardavam por uma investigação de corrupção que abalasse as estruturas da República. Naqueles episódios, ficou claro que os principais partidos políticos brasileiros usavam de esquemas de corrupção tanto para financiar suas campanhas quanto para obter apoio de outras agremiações.

Uma investigação profunda sobre isso naturalmente faria tremer as instituições nacionais. Isso só ocorreu a partir de 2014, quando foi deflagrada a Operação Lava Jato. A ação foi e é fundamental, ainda que seu saldo definitivo ainda não possa ser apontado, mas a sanha anticorrupção inaugurada por ela, em conjugação com a tentativa de grupos políticos de se livrar da Justiça, fragilizaram intensamente as instituições brasileiras.

O sinal mais óbvio disso é a existência do governo de Michel Temer, ilegítimo por ter surgido justamente a partir da tentativa de salvação do núcleo duro do PMDB, manejada por meio do impeachment de Dilma Rousseff.

Nos últimos quatro anos, setores favoráveis e contrários à Lava Jato, ou que simplesmente buscavam manipular esses sentimentos, passaram a se digladiar no Judiciário, no Executivo e no Legislativo, bem como dentro de cada um dos poderes. O resultado disso é a perda de confiança na democracia e a desmoralização não só dos partidos políticos, mas também da política como um todo.

Trata-se de um fenômeno perigoso, pois a humanidade ainda não conseguiu inventar um regime de governo melhor que a democracia e esta simplesmente não funciona sem política e sem partidos. Na ausência da política, o único cenário disponível é o de um regime autoritário.

Não à toa, neste clima se fortalecem figuras “salvadoras da pátria”, que entram na política alegando desprezá-la, assim como os partidos. Nas eleições presidenciais deste ano, esse papel é representado por Jair Bolsonaro (PSL), capitão da reserva do Exército. Além de defender a ditadura militar e a tortura, Bolsonaro articula de maneira eficiente as críticas ao sistema político brasileiro, aos partidos e se posta como solução para a corrupção.

Ocorre que Bolsonaro não vem sozinho para a eleição. Como mostraram reportagens do Valor Econômico e do Estado de S.Paulo nesta semana, há 71 militares pró-Bolsonaro, da ativa e da reserva, como candidatos para diversos cargos, inclusive para governos do Estado.

Todos eles estão totalmente dentro da legalidade, mas sua presença é um sinal de degradação das instituições. Como se pode observar ao analisar o cenário internacional, a influência política dos militares é muito maior em democracias frágeis e instáveis do que nas mais maduras, como as da Europa.

No Brasil, estamos atualmente em nosso segundo período democrático, iniciado em 1988. No primeiro, que vigorou de 1945 a 1963 e foi marcado por uma profunda estabilidade, os militares tiveram papel decisivo, tanto como candidatos a presidente (Eurico Gaspar Dutra, Eduardo Gomes, Juarez Távora, Henrique Lott) quando em articulações antidemocráticas para derrubar presidentes eleitos ou impedir a posse desses.

Aquele período culminou com o golpe de 1964, e a implantação da ditadura. Os inúmeros crimes cometidos por militares neste regime, inclusive alguns contra a humanidade, jamais foram julgados. O máximo que o Brasil conseguiu fazer foi uma comissão da verdade, a mais tardia da América Latina, mas nunca houve de fato um debate profundo a respeito daquele período.

 

Agora, os militares voltam a buscar papel preponderante na política, rompendo o acordo tácito surgido ao fim da ditadura, segundo o qual os civis comandariam o país e os militares permaneceriam nos quartéis. De fato, muitos oficiais têm currículos excelentes e experiências relevantes, mas preocupa o fato de esse grupo de 71 estar organizado ao redor de Bolsonaro, justamente uma figura que tem a democracia como alvo e que ganha popularidade em um momento no qual o sistema político caiu em descrédito.

Neste grupo está, por exemplo, o general da reserva Antonio Hamilton Mourão que, de forma recorrente, quando ainda estava na ativa, defendeu a realização de um golpe militar.

Outro general da reserva candidato é Paulo Chagas, que disputará uma vaga de deputado federal pelo Rio Grande do Norte. Ao Valor, ele achou conveniente fazer uma analogia entre as candidaturas e uma “intervenção militar”, eufemismo para um golpe de Estado. “Nunca tive ambição política, mas entendo que o Brasil precisa neste momento de gente como nós. Há uma intervenção militar pelo voto e por quê não?”, indagou.

Depois de 30 anos regido por civis que construíram o maior período democrático de sua história, o Brasil se vê diante de um antidemocrata altamente popular e de candidaturas de militares cujas credenciais democráticas são, no mínimo, duvidosas. Será um teste de ferro para as nossas instituições.

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