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28/02/2011 09:39:07

Após 8 meses, negociantes reerguem empreendimentos destruídos pelas enchentes


Após 8 meses, negociantes reerguem empreendimentos destruídos pelas enchentes
Ronaldo Lopes em União

Com primeiraedicao // marcela oliveira e luciana martins

 

Três famílias, três municípios, três histórias e o mesmo recomeço. Com seus negócios destruídos pelas enchentes que atingiram vários municípios alagoanos em junho de 2010, as famílias Silva do município de Branquinha, Lima de União dos Palmares e Lopes de Quebrangulo tiveram que reconstruir seus estabelecimentos a partir do zero.

 

Nossa primeira história é do seu José Oliveira da Silva, mas conhecido como Budão, que mora em Branquinha a 66 km de Maceió. Dono de uma pequena mercearia que vende verduras e frutas Budão viu sua vida destruída. “A chuva acabou com tudo. Não é fácil um trabalho de 25 anos ser perdido em cinco minutos. Eu fiquei sem nada, até as roupas que uso, foram as pessoas que me deram. Só deu tempo de salvar a própria vida”.

 

No dia anterior a chuva, Budão havia feito a reabastecimento da sua venda e o prejuízo foi total. “Eu comprei R$ 2.125,00 e os meninos ainda queriam retirar a mercadoria, e eu disse que fechasse as portas e deixasse, seria o que Deus quisesse. Aí, perdi a mercadoria, perdi o ponto e tudo que tinha dentro dele: balança, televisão, freezer, geladeira, não ficou nada”.

 

Pai de quatro filhos, ele não pensou em desistir e para recomeçar o negócio utilizou as economias do filho, comprou as verduras e frutas e foi vender na rua. “Durante o dia eu trabalhava no meio da rua e à noite procurava uma casa para guardar a mercadoria porque até a minha casa foi destruída pela chuva”.

 
Hoje, Budão tem sua mercearia funcionando em um espaço cedido pela prefeitura. As paredes e teto do local foram levantados com a ajuda de amigos que doaram material. “Eu pedi um empréstimo no Banco do Nordeste e até hoje não saiu e eu ainda estou aguardando”.

 

Agora, o comerciante mora de aluguel e precisou ampliar suas vendas. Em dia de feira, dois filhos trabalham: um com uma banca e outro com um carrinho de mão vendendo as mercadorias. “Nós juntamos o meu apurado, o de Leandro na feira, mais R$ 60,00 do carrinho de mão. Tiramos o de comer e o restante vamos fazer as compras de novo”.

 

A mercearia de Budão funcionava na beira do rio. No local, restam apenas as cerâmicas do piso que estão cobertas pelas linhas do trem retorcidas e arrastadas pela força das águas. O horário de funcionamento da B & L verduras e frutas é de acordo com os clientes. “Se o cliente vier comprar de manhã, de tarde ou à noite eu atendo porque esse é o meu trabalho, é disso que sobrevivo”.

 

"Fiquei embaixo d’água"

 

Fomos ao município de União dos Palmares, a 78 km de Maceió, conhecer a história de Ronaldo Lima, proprietário de uma loja de artigos para bicicletas e motos. Funcionando no mesmo lugar desde o ano de 2000, um pouco mais de 150 metros do rio, o comerciante afirma que essa foi a primeira vez que foi atingido por uma chuva com tamanho poder de destruição. “Minha estrutura não chegou a cair, mas, cobriu tudo, fiquei embaixo d’água”. Três meses antes da chuva ele havia feito uma central de ar na oficina de sua loja e a chuva acabou com tudo.

 

Os prejuízos contabilizados pelo comerciante chegam a pouco mais R$ 400 mil. “Eu perdi o estoque e o que estava na prateleira. Até o que foi colocado no primeiro andar também perdi porque na chuva a água subiu um metro no primeiro andar”.

 

A força da água foi tão grande que a porta da oficina arrebentou e levou muitas mercadorias. “Cerca de 50% da mercadoria a chuva levou, desceu. Na oficina as máquinas ficaram danificadas e todo o forro da loja teve que ser refeito.”

 

No momento da chuva seu Ronaldo estava trabalhando. “A partir das três horas começou a encher completamente, fiquei com as portas fechadas tentando salvar as mercadorias que podia. Seis horas eu estava com água no balcão e quando a porta estourou a água simplesmente atingiu o teto da loja e eu como eu ia sair? Eu não sei nadar. A minha sorte foi que outro amigo vinha com uma bóia e me socorreu”.

 

Após a chuva, a loja passou 30 dias fechada. Para reabrir ele fez um empréstimo junto ao Banco do Brasil e contou com o apoio dos fornecedores. “Graças a Deus nossos fornecedores formaram uma parceria e conseguiram me ajudar esquecendo aqueles débitos. Aos poucos estamos nos reerguendo”.

 

Assim como Budão, Ronaldo também não pensou em desistir do negócio. “Por conta da confiança e do crédito que tenho no comércio. Esse foi ponto, o crédito que tinha junto aos fornecedores. Isso foi importante”.

 

O comerciante vem de uma família de empreendedores e desde jovem ele trabalhou com os pais. “Eu trabalhei como feirante vendendo peças de bicicletas. E chegou um determinando momento que eu tinha que atender os clientes a todo o momento e aí, eu resolvi montar o meu negócio. Hoje eu trabalho com bicicleta e moto”.

 

Ronaldo admite que é muito bom ter o próprio negócio, todavia, a carga tributária do governo é muito grande. “O governo exige muito da gente principalmente nos encargos, e isso muitas vezes nos deixa preocupado porque o imposto é muito alto”.

 

Família empreendedora

 

As enchentes também mudaram a vida de um casal empreendedor no município de Quebrangulo, localizado a 115 km da capital. Lá, o comércio funciona ao lado do rio e tudo foi por água a baixo. Ivania Maria Cavalcante e José Lopes há seis anos abriram um mercadinho, o Minibox Lopes, no Centro do município. Eles tinham cerca de R$ 300 mil em mercadorias e viram tudo ser levado pela água no trágico 18 de junho. Só a estrutura foi preservada, apesar de alguns danos no teto. “Foi uma sensação horrível. Trabalhamos uma vida toda e em meia hora perdemos tudo”, relembra Ivania.

 

A estimativa do prejuízo foi dada pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas) que foi até a região contabilizar as perdas e ofertar curso de capacitação para os pequenos empresários que ainda não tinham passado pelo treinamento.

 

Há 15 anos, o casal resolveu investir no próprio negócio. O modelo dos pais está sendo seguido pelos três filhos. “Trabalhei minha vida inteira para o Estado, mas o salário era de miséria.

 

Acordei e percebi que precisava dá uma vida melhor aos meus filhos. Foi quando resolvi investir no meu próprio negócio. Hoje, cada um dos meus filhos tem o seu”, disse José Lopes acrescentando que a filha tem uma boutique de roupas, o filho um posto de combustível e o outro trabalha com ele no mercadinho. “Desde pequenos ensinei meus filhos a trabalhar, porque é assim que alcançamos nosso objetivo”.

 

Após a enxurrada, no Minibox Lopes, que constituía a principal fonte de renda da família, restou apenas lama, contas a pagar e desesperança. Lopes conta que pensou em desistir, mas foi incentivado pela mãe e pela esposa a continuar. Ele relata que para se reerguer pegou um empréstimo, vendeu alguns bens e teve o apoio de fornecedores que esticaram o parcelamento. “O Governo abriu uma linha de crédito, mas só consegui tirar R$ 32 mil. Então vendemos algum patrimônio. Negociamos com fornecedores que parcelaram nossas dívidas em 12 a 18 meses”, disse ele que precisou de, aproximadamente, R$ 50 mil para recomeçar.

 

Passados dois meses das enchentes, o casal Lopes reabriu as portas. “O processo de recuperação é lento. Apesar dos prejuízos, estamos vencendo!”, comemorou ele.

 

Essas três famílias são exemplo de perseverança e determinação, características que podem fazer a diferença em um empreendimento. Seu José, na sua simplicidade e baixa escolaridade, reconhece que o cliente é o foco principal do negócio. Ronaldo percebeu que poderia ampliar as suas vendas oferecendo mais um tipo de serviço. Ivania admite que a capacitação faz uma enorme diferença para administrar seus negócios. Apesar das adversidades, todos esses empreendedores trabalham com entusiasmo e com amor e, por isso, estão se reerguendo e reconstruindo seus sonhos.


 

 

 

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