Após mais de 25 anos de negociações, o entendimento econômico formalizado entre os países do Mercosul e a União Europeia (UE) foi oficializado por meio de assinatura. A oficialização do tratado ocorreu neste sábado (17/1), em uma cerimônia realizada em Assunção, capital do Paraguai.
Na cerimônia, estiveram presentes diversos líderes, incluindo Santiago Peña, presidente do Paraguai; Javier Milei, da Argentina; Yamandú Orsi, do Uruguai; Rodrigo Paz, da Bolívia; José Raúl Mulino, de Panamá; Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil; Ursula von der Leyen, líder da Comissão Europeia; e António Costa, representante do Conselho Europeu.
Durante seu discurso, Peña destacou o papel de Lula na concretização do acordo, lembrando que, sem a participação do presidente brasileiro, o tratado não teria sido possível. Ele também citou Lula na cerimônia, reconhecendo sua importância no processo de aproximação entre os blocos. O líder paraguaio comentou: "Sem a presença de Lula, esse avanço não teria acontecido".
Recentemente, Lula se reuniu com von der Leyen, no dia 16 de janeiro, no Rio de Janeiro, onde foi reafirmada a intenção de fortalecer a parceria entre as regiões. Von der Leyen reforçou a perspectiva de que o pacto trará benefícios concretos, especialemente em um cenário mundial marcado por instabilidades, enquanto Costa destacou a busca por um comércio mais equitativo, substituindo tarifas por acordos justos. Após a assinatura, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) do Brasil divulgou uma declaração oficial celebrando o marco.
Segundo o órgão, o entendimento oferece ao Mercosul um acesso preferencial ao mercado europeu, que é a terceira maior economia global, com uma população de 450 milhões de habitantes e representando aproximadamente 15% do PIB mundial. A União Europeia compromete-se a eliminar tarifas para 92% das exportações do Mercosul, o que equivale a cerca de US$ 61 bilhões.
Além disso, serão facilitados negócios para outros 7,5%, correspondendo a US$ 4,7 bilhões, beneficiando quase a totalidade dos produtos negociados pelo bloco com a Europa. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também se manifestou, estimando que o tratado ampliará o acesso brasileiro ao mercado internacional de 8% para 36%, interpretando o acordo como um passo decisivo na internacionalização da indústria nacional e na diversificação das exportações.
No entanto, o pacto ainda não entrou em vigor oficialmente. Ainda depende de ratificação pelos parlamentos dos países envolvidos, um processo que pode enfrentar obstáculos políticos e possíveis ajustes finais no documento. Para o Brasil, especialistas apontam que o acordo pode reduzir o custo de produtos como vinhos, queijos, azeites e lácteos, além de abrir espaço para marcas internacionais de chocolates de alta qualidade que até então não eram comercializadas no país.
O impacto esperado também inclui a diminuição de preços de veículos, medicamentos e insumos agrícolas, como máquinas agrícolas e produtos veterinários, além de facilitar a chegada de produtos agropecuários brasileiros a países europeus, com menos tarifas e barreiras. As negociações entre os dois blocos haviam atingido um impasse até o final de 2025, quando o Parlamento Europeu aprovou medidas de proteção às exportações agrícolas europeias, especialmente na carne, por meio de salvaguardas que podem suspender temporariamente as vantagens tarifárias.
O não comparecimento de Lula à cerimônia foi justificado pelo fato de o evento ter sido considerado uma reunião de representantes de Relações Exteriores, e não de chefes de Estado, uma decisão tomada pelo governo brasileiro; no entanto, Peña fez questão de reconhecer a participação do presidente brasileiro, que foi a Paris no dia anterior para encontro com von der Leyen. A presidente da Comissão Europeia destacou que o acordo trará benefícios econômicos, projetando aumento de quase 50 bilhões de euros (R$ 311,5 bilhões) nas exportações da UE para o Mercosul até 2040, além de crescimento de até 9 bilhões de euros (R$ 56 bilhões) nas exportações do bloco sul-americano. Nem todos os países europeus apoiam o tratado.
França, Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda lideram uma resistência significativa, principalmente por preocupações de que produtos sul-americanos possam prejudicar agricultores locais, devido às diferenças nos custos de produção, ambientais e nas normas sanitárias. Protestos de agricultores franceses, irlandeses, poloneses e austríacos têm ocorrido, incluindo ocupações de ruas e manifestações contra o acordo, considerados por eles uma ameaça à indústria agrícola europeia, com receio de competição desleal e perda de renda.
As divergências também se estendem às regras sanitárias e de bem-estar animal, que na UE são rigorosas, e há receio de que produtos importados do Mercosul não atendam a esses padrões, podendo competir por preço mais baixo. Apesar das tensões, analistas reconhecem que o tratado pode beneficiar setores além do agrícola, como indústria automobilística, mineração de minerais raros e serviços, ajudando a reduzir a dependência europeia de commodities chinesas, especialmente de lítio, grafite e níquel, de países como Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia.
Por outro lado, as Centrais Sindicais da América do Sul, incluindo a Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Brasil, criticam o acordo por não oferecer proteção social ou garantias trabalhistas, alertando para o risco de desindustrialização, maior dependência de produtos importados e desemprego de maior qualidade.
A Associação de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em estudo divulgado em 2024, estima que, entre 2024 e 2040, o PIB brasileiro possa crescer 0,46%, o que representa um aumento de aproximadamente US$ 9,3 bilhões por ano, além de um incremento de 1,49% nos investimentos nacionais. O documento também projeta que as importações brasileiras podem atingir US$ 12,8 bilhões em 2034, antes de recuar a US$ 11,3 bilhões em 2040, enquanto as exportações terão crescimento contínuo, acumulando US$ 11,6 bilhões de ganhos ao longo do período.
Especialistas apontam que a redução de tarifas na UE, a concessão de cotas de exportação e a diminuição dos custos internos de produção podem impulsionar essa evolução, tornando os produtos brasileiros mais competitivos globalmente. Quando a assinatura foi oficializada pelo Conselho Europeu, no início de 2026, von der Leyen destacou os benefícios econômicos, prevendo aumentos relevantes nas exportações de ambos os lados, fortalecendo a presença do bloco na região.
Enquanto alguns setores veem o acordo como uma oportunidade de crescimento, outros alertam para possíveis perdas de renda e empregos, especialmente na agricultura e na indústria, reforçando a necessidade de acompanhamento e ajustes futuros.
O entendimento também é visto como uma estratégia para reforçar o multilateralismo e diminuir a influência de potências como a China na região, uma ação que, segundo analistas, possui impacto mais político do que econômico imediato, promovendo o fortalecimento da posição da UE na América do Sul.