30/01/2026 21:40:29

Geral
21/01/2026 02:00:00

Brasileiros deixam suas formações acadêmicas para trabalhos de limpeza em Londres

Profissionais qualificados enfrentam desafios ao migrar e aceitar funções abaixo de suas qualificações na capital britânica

Brasileiros deixam suas formações acadêmicas para trabalhos de limpeza em Londres

Um grupo de brasileiros que abandonou suas carreiras e diplomas no Brasil para atuar na área de serviços domésticos na cidade de Londres revela a dura realidade de quem migra em busca de melhores condições de vida. Entre eles, está Lívia, uma engenheira civil de 28 anos, que deixou João Pessoa, na Paraíba, há um ano, acreditando que a capital inglesa seria o ponto de mudança em sua trajetória.

Formada e mestre pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela chegou ao Reino Unido com um visto de turista, inicialmente para aprimorar seu inglês e, posteriormente, buscar oportunidades em sua área de formação.

Ela revela que seu principal objetivo ao vir foi estudar inglês, devido à paixão pela cidade, sua arquitetura e cultura, além de buscar uma nova perspectiva profissional, pois não via futuro promissor na sua área no Brasil, especialmente no estado onde reside. Por motivos de privacidade, ela preferiu não revelar sua identidade real.

Desde sua chegada, ela vem enfrentando obstáculos na validação de seu diploma brasileiro — um procedimento que ela descreve como "demorado e dispendioso". Assim, Lívia passou a trabalhar de forma irregular, sem a devida autorização de trabalho ou contratos formais. Atualmente, ela tenta obter autorização para morar e atuar na União Europeia, bloco do qual o Reino Unido deixou de fazer parte em 2020, pois acredita que lá poderá ter maiores chances de obter aprovação. Sua rotina de trabalho começou na limpeza, atuando como faxineira, uma atividade comum entre brasileiros na Inglaterra, segundo relatos de outros imigrantes.

Ela também trabalhou na manutenção da área de uma piscina escolar, cuidando de banheiros e espaços comuns, além de manter o piso seco e o ambiente organizado, recebendo cerca de 12,20 libras por hora, o equivalente a R$ 88.

Apesar do esforço físico intenso, ela considera esse trabalho menos cansativo do que limpar residências. Outro exemplo é Wagner, um oceanógrafo de 28 anos, que deixou Porto Alegre há três anos. Mesmo com uma formação acadêmica na sua área, ele revela que sua carreira não é valorizada no Brasil.

Wagner veio para Londres motivado pela busca de trabalho, mesmo sem documentação adequada, e por uma melhor qualidade de vida. Ele afirma que completou sua graduação durante um intercâmbio, mas nunca conseguiu exercer sua profissão devido à escassez de oportunidades, algo que considera mais uma questão de mercado do que de vontade própria.

Diferentemente de Lívia, Wagner já trabalhou na área de limpeza e atualmente trabalha em um hotel londrino através de uma agência de empregos, recebendo cerca de 2 mil libras por mês (R$ 14,4 mil). Ele relata que o salário, embora elevado para os padrões brasileiros, é insuficiente para cobrir as despesas em Londres, que incluem aluguel, transporte e alimentação, consumindo mais da metade do rendimento. Sua rotina de trabalho é pesada, com dores nas costas, mãos e uma escala de seis dias de trabalho por semana, deixando-o exausto.

Antes de seu emprego atual, Wagner trabalhava por conta própria como faxineiro, recebendo entre 10 e 13 libras por hora (R$ 72 a R$ 94), o que só era suficiente para cobrir suas despesas básicas. Assim como Lívia, ele não possui um visto que permita regularizar sua situação migratória, uma vez que não tem vínculos familiares, especialização ou salário suficiente para cumprir os requisitos de permanência legal no país. Wagner afirma que continua trabalhando na informalidade enquanto aguarda novas oportunidades e lamenta a falta de reconhecimento das qualificações brasileiras, que o impede de exercer sua profissão na Inglaterra.

Para ele, a situação reflete uma questão estrutural, onde o sistema desvaloriza o trabalho de migrantes altamente qualificados, forçando-os a aceitar empregos abaixo de suas competências. A realidade de Fabiana, de 24 anos, também exemplifica os obstáculos enfrentados por quem migrante sem diploma universitário ou visto regular. Ela chegou a Londres em 2020, durante a pandemia, com o objetivo de juntar recursos para retornar e estudar no Brasil.

Após cinco anos, encontrou estabilidade trabalhando em uma residência particular, realizando tarefas variadas, como limpeza, cozinha, passar roupas, cuidar do cachorro e até funções similares às de uma governanta, embora ela mesma questione se essa função ainda exista.

Ela trabalha por meio de uma agência terceirizada, recebendo 11 libras por hora (R$ 79) de um pagamento total de 16,50 libras (R$ 119) por hora, com o restante destinado à empresa. Sua remuneração mensal gira em torno de 2,2 mil libras (R$ 15,9 mil), devido às jornadas de trabalho, mas o alto custo de vida na cidade, incluindo moradia e transporte, limita sua poupança.

Fabiana afirma que é comum encontrar brasileiros na área de limpeza na Inglaterra, compartilhando suas rotinas, remunerações e dicas em redes sociais como o TikTok. Ela explica que conseguiu seu primeiro trabalho via grupos de brasileiros na internet, e que atualmente obtém contato com clientes por indicações ou por grupos de WhatsApp voltados à comunidade brasileira.

Sua falta de diploma universitário impede sua regularização migratória, especialmente porque chegou durante a pandemia, quando as regras de imigração se tornaram mais rígidas. Ela também informa que a assistência jurídica é cara, e que prioriza ajudar sua família no Brasil com o dinheiro que consegue enviar. Vivendo sob constante tensão, Fabiana revela que já enfrentou abordagens policiais e precisou fugir, vivendo com medo e em estado de vigilância contínua.

Essa situação impacta sua rotina profissional, pois ela evita reclamar de salário ou condições por receio de represálias ou deportação. Ela afirma que muitos migrantes preferem não denunciar trabalho ilegal, temendo punições e prejudicando a todos, enquanto Wagner também relata o peso da informalidade e do medo constante.

Ele explica que vive em estado de alerta, com dinheiro reservado para emergências e um contato preparado para sua saída em caso de deportação. Ambos ressaltam que, embora a busca por uma melhor qualidade de vida seja válida, ela muitas vezes implica em sacrificar a saúde física e mental, uma situação que também se apresenta como uma realidade comum na Inglaterra.

O governo britânico, por meio do Home Office, informou que o processamento de vistos de trabalho padrão leva cerca de 15 dias úteis. O órgão também esclarece que diferentes tipos de vistos, incluindo os de curta ou longa duração, possuem requisitos específicos, como oferta de emprego de uma empresa certificada e salário mínimo de 41,7 mil libras anuais, com possibilidades de redução mediante pontuação, além de permitir a entrada de familiares e residência permanente após cinco anos.

Durante o período de análise, o Home Office registrou mais de 7 mil prisões de imigrantes suspeitos de trabalho ilegal, com Londres sendo a cidade com maior concentração de detenções, seguida por País de Gales e Midlands.

Foram aplicadas mais de 2 mil multas a empregadores que utilizam mão de obra irregular, com valores chegando a 60 mil libras por trabalhador. Nos últimos doze meses, 4.810 brasileiros retornaram voluntariamente ao Brasil, um aumento de 49% em relação ao período anterior, com um programa de auxílio financeiro de até 3 mil libras para quem desejar abandonar o Reino Unido de forma voluntária.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, há atualmente aproximadamente 230 mil brasileiros vivendo no Reino Unido, sendo 190 mil na área do Consulado-Geral de Londres, tornando-se a quarta maior comunidade brasileira no exterior, atrás apenas dos Estados Unidos, Portugal e Paraguai.

A instituição destaca que esses números incluem tanto residentes regulares quanto irregulares, afirmando que seus serviços consulares atendem a todos os brasileiros no exterior conforme as leis brasileiras.